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Miro Palma
Publicado em 6 de abril de 2026 às 17:33
Há jogadores que chegam a um clube trazendo números. Outros desembarcam cercados por títulos e prestígio. Everton Ribeiro trouxe algo mais difícil de medir e mais raro de sustentar: sentido. Desde a primeira vez com a camisa do Bahia, em 2024, sua presença nunca pareceu caber apenas na lógica de uma grande contratação. Havia ali a sensação de um reforço além de um atleta consagrado, um jogador capaz de organizar o jogo com naturalidade, como se enxergasse antes dos outros. >
Em campo, Everton Ribeiro atua em outro ritmo. Não é questão de intensidade, mas de leitura. Enquanto muitos reagem, ele antecipa. Quando a bola chega, a jogada já está desenhada na cabeça. O passe sai antes da pressão, o espaço aparece antes da marcação, a solução surge antes do problema. É o camisa 10 clássico, alguém que traz pausa, clareza e intenção onde o jogo costuma ser atropelado. Não é só técnica. É entendimento. E isso salta aos olhos.>
Mas no Bahia, ser ídolo nunca foi apenas sobre o que acontece dentro das quatro linhas. O torcedor se encanta com o talento, mas se apega ao que reconhece como verdade. É aí que Everton Ribeiro dá um passo além. Mesmo com pouco tempo de clube, já há elementos suficientes para colocá-lo nesse patamar. Não apenas pelos títulos, atuações ou peso da carreira, mas pela forma como entendeu o lugar onde está.>
Há jogadores que passam. Everton parece ter escolhido ficar, no sentido mais amplo da palavra. A relação com a torcida é próxima, natural, sem artificialidade. Há cuidado no gesto com fãs e o clube, respeito no trato, uma disposição clara de fazer parte do ambiente. Isso não se ensaia, se constrói.>
O título de cidadão soteropolitano, por exemplo, simboliza esse pertencimento. Da mesma forma, a atuação como embaixador das Obras Sociais Irmã Dulce e o envolvimento com projetos ligados ao tricolor mostram um jogador atento ao que o futebol representa fora de campo. Em um cenário de atletas cada vez mais distantes do público, ele faz o caminho contrário e se aproxima.>
Everton, vale lembrar, enfrentou um câncer na tireoide em 2025 e superou a doença com cirurgia e recuperação bem-sucedida. Antes mesmo de realizar o procedimento, continuou defendendo as cores do clube. A atitude não é apenas uma demonstração de força e passou a tocar algo mais profundo: a ideia de resistência, de afeto e de pertencimento.>
E isso pesa. Às vezes, mais do que um gol.>
Porque o Bahia tem uma identidade que exige algo além do desempenho. Exige conexão, leitura do peso da camisa. Everton Ribeiro entendeu isso rápido. Não apenas vestiu o uniforme, mas também compreendeu o que vem junto com ele.>
Os títulos ajudam a contar essa história, claro. Mas não são o centro. O que chama atenção é a forma como ele se insere no clube, como se não estivesse apenas jogando aqui, mas construindo algo com sentido dentro da trajetória do Bahia.>
Por isso, falar em idolatria não soa precipitado. Há jogadores que precisam de anos para criar esse vínculo. Outros conseguem em menos tempo porque entregam mais do que desempenho. Entregam presença, identificação, constância.>
Everton Ribeiro já alcançou esse lugar. Além de ver o jogo antes de todo mundo, também soube entender o Bahia, a cidade e a torcida. E, no fim, é dessa soma que nasce um ídolo. Não só pelo que faz com a bola, mas pelo que representa sem ela.>
Everton Ribeiro pelo Bahia