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Bruno Wendel
Publicado em 23 de maio de 2026 às 11:00
O olhar sofrido. Entre as mãos, uma camisa estampada com a foto do filho caçula e a pergunta que segue sem resposta há quase 12 anos: “Cadê Davi?”. “Arrancaram de mim o direito mais básico de uma mãe, que é saber onde está o seu filho. Eu vivo há mais de dez anos nessa tortura, sem verdade e sem sequer poder viver o meu luto”, afirma Rute Fiúza, mãe do adolescente de 14 anos, desaparecido após uma operação policial no bairro de São Cristóvão, em Salvador, em 2014. Uma nova audiência sobre o caso será realizada nesta segunda-feira (25), às 8h, no Fórum Criminal Desembargador Carlos Souto, em Sussuarana.>
Davi não foi mais visto após uma ação da Polícia Militar realizada na localidade de Vila Verde. O caso se tornou um dos principais símbolos da luta contra o desaparecimento forçado e da denúncia de violência de Estado contra jovens negros na Bahia.>
Caso Davi Fiúza: audiência de instrução está marcada para segunda
Segundo organizações de direitos humanos, o processo é marcado por falhas institucionais desde o início. O reconhecimento oficial do caso como desaparecimento forçado ocorreu tardiamente, contrariando recomendações internacionais. As buscas demoraram meses para começar e, quando ocorreram, não seguiram protocolos considerados fundamentais, como planejamento estruturado, coordenação entre órgãos e participação da família.>
Ao longo dos anos, a investigação também foi marcada por períodos de inatividade, atrasos sem justificativa e falta de transparência sobre os rumos do inquérito. Até hoje, não há informações oficiais sobre o que aconteceu com Davi.>
“Não é só a ausência de Davi que dói. É o silêncio, o descaso, é sentir que a vida do meu filho não importa. Mas eu sigo lutando porque não posso aceitar que a história dele termine assim, sem justiça”, completa Rute Fiúza.>
Desde 2014, o caso é acompanhado pelo Comitê de Desaparecimento Forçado da ONU, após denúncia feita pela Anistia Internacional. Durante esse período, o Estado brasileiro foi questionado reiteradas vezes e apresentou respostas consideradas insuficientes.>
Para a assessora de Advocacy da Iniciativa Negra, Sara Sacramento, o caso revela um padrão estrutural no funcionamento do sistema de Justiça brasileiro. “Não se trata de falhas isoladas, mas de uma dinâmica que evidencia desigualdade racial no acesso à Justiça. Há demora, falta de prioridade e ausência de responsabilização quando as vítimas são jovens negros”, afirma.>
A diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, destaca que o Estado tem obrigação de prevenir desaparecimentos forçados, realizar investigações independentes e garantir às famílias o direito à verdade, à participação e à reparação.>
“O que aconteceu com Davi não diz respeito apenas a uma família. Diz respeito ao tipo de país que estamos permitindo construir quando um adolescente negro desaparece após ser levado por agentes do Estado e, mais de dez anos depois, sua mãe ainda segue sem respostas”, declara Jurema.>