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Bruno Wendel
Publicado em 22 de maio de 2026 às 05:00
Estruturas policiais mais frágeis, menor capacidade de investigação e uma presença reduzida do Estado. Especialistas apontam esses fatores como algumas das principais condições para a interiorização do crime organizado no Brasil. Segundo pesquisa recente do Datafolha, 34,1% dos entrevistados afirmaram conviver com a atuação do tráfico em municípios médios e pequenos do país. Na Bahia, os reflexos desse avanço já atingem cidades com pouco mais de 30 mil habitantes — e até municípios ainda menores. >
Foi o caso de Palmeiras, na Chapada Diamantina, onde quatro pessoas morreram em confronto com a polícia no último dia 11. Segundo o Censo 2025 do IBGE, o município possui 10.894 habitantes e abriga o Vale do Capão, um dos principais destinos turísticos do estado.>
facções transformam cidades pequenas da Bahia em territórios de guerra
De acordo com a Polícia Militar, agentes foram recebidos a tiros durante a ação. Após o revide, quatro homens foram encontrados feridos, socorridos e encaminhados a uma unidade de saúde, mas não resistiram. Morreram Kaique Feleiro de Souza, de 18 anos; Mateus da Silva Costa, de 25; Janailton Soledade Ferreira, de 23; e Moisés Lima Carvalho, de 30.>
Na operação, foram apreendidos uma carabina, duas pistolas, um revólver, além de porções de maconha e crack. Embora não existam informações oficiais detalhando quais facções dominam Palmeiras, a Chapada Diamantina é considerada área de influência do Bonde do Maluco (BDM), facção que ampliou presença em cidades do interior baiano.>
O avanço das organizações criminosas também tem provocado tensão em cidades históricas do Recôncavo. Em outubro do ano passado, moradores de Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo com pouco mais de 30 mil habitantes, acordaram assustados após a circulação de um suposto comunicado do BDM proibindo que pessoas circulassem em São Félix, município vizinho de cerca de 11 mil moradores apontado como área de atuação do Comando Vermelho (CV).>
O aviso começou a circular depois de disparos próximos à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), no centro de Cachoeira. No dia seguinte, o comércio amanheceu fechado em meio ao temor de confrontos. O medo já fazia parte da rotina da cidade: meses antes, os corpos de dois moradores foram encontrados no riacho do Caquende, enquanto as cabeças foram deixadas em uma praça.>
Em Saubara, município de 11,5 mil habitantes também localizado no Recôncavo, a violência ligada às facções resultou em um crime brutal. Em janeiro de 2024, o ambulante Allisson Cerqueira Nascimento, de 18 anos, foi morto após usar uma camisa estampada com o personagem Mickey Mouse, associado por criminosos a uma facção rival.>
Segundo a polícia, integrantes do BDM cercaram o jovem, rasgaram a roupa — presente da avó — e o agrediram com garrafadas até a morte. Pelo menos seis homens participaram do crime, incluindo suspeitos vindos de Feira de Santana, cidade marcada pela disputa entre o BDM e a facção A Tropa.>
Pesquisa>
A pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) foi divulgada em 11 de maio deste ano. O levantamento ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios brasileiros e apontou que cerca de 68,7 milhões de brasileiros vivem em áreas sob influência de facções criminosas ou milícias.>
De acordo com o estudo, a expansão ocorre por fatores como novas rotas logísticas do tráfico, disputa por mercados ilícitos, alianças com grupos criminosos locais e a menor presença do Estado em cidades interioranas.>
O levantamento destaca o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como as principais organizações criminosas do país. A pesquisa também aponta impactos diretos na rotina da população: 81% têm medo de confrontos armados; 74,9% evitam determinados locais; 65,2% mudam horários de circulação; e 64,4% têm receio de denunciar crimes.>
Especialistas >
Para o cofundador da Iniciativa Negra, Dudu Ribeiro, os dados mostram uma reorganização nacional do tráfico de drogas, impulsionada pela expansão de facções do Sudeste para o Nordeste.>
“Novas organizações, novas combinações e novas parcerias são inauguradas. A partir daí, a disputa por territórios intensifica os conflitos, pressionando os índices de homicídios nessas cidades”, afirma.>
O especialista em segurança pública também aponta a expansão do sistema prisional para o interior como um dos fatores que ajudam a explicar o avanço das facções.>
“As organizações têm grande parte de suas estruturas dentro do sistema prisional. Isso faz com que o entorno dessas unidades também seja impactado pela reorganização desses grupos criminosos. Além disso, muitos municípios estão em rotas estratégicas para o escoamento de drogas e armas”, declara Dudu Ribeiro.>
Já a coordenadora do Observatório de Segurança da Bahia da Rede de Observatórios da Segurança e conselheira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, Carol Santos, afirma que o enfrentamento do problema exige mais do que policiamento ostensivo.>
“É necessário fortalecer a inteligência e a investigação financeira, ampliar a estrutura das forças de segurança e do sistema de Justiça no interior e investir em políticas públicas de educação, assistência social, emprego e proteção da juventude para reduzir a vulnerabilidade social explorada por essas organizações”, defende.>
A reportagem procurou a Secretaria de Segurança Pública (SSPBA), mas até o momento não teve resposta. Espaço segue aberto. >
Posicionamento>
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública disse que "ressalta que o combate às facções é promovido diariamente e de forma incansável pelas Forças Estaduais e Federais em todo o território baiano, com ações norteadas pela doutrina do Policiamento Orientado pela Inteligência". >
"Destaca ainda que o trabalho para capturar líderes de organizações criminosas e asfixiar as estruturas ilegais financeiras ultrapassou as divisas da Bahia e a fronteira do Brasil, com prisões de lideranças em outros estados e também na Bolívia. A SSP reforça, por fim, que os profissionais da Segurança Pública da Bahia continuarão integrados e atuando com firmeza contra o crime organizado", diz a nota.>