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Assalto fatal e espancamento: a morte do estudante da Ufba na fonte do Campo Grande

Crime ocorrido em 2013 cercou investigação de polêmicas, versões contraditórias e acusações de homofobia

  • Foto do(a) author(a) Wendel de Novais
  • Wendel de Novais

Publicado em 22 de maio de 2026 às 05:12

Itamar foi morto no Campo Grande
Itamar foi morto no Campo Grande Crédito: Reprodução

O assassinato do estudante de Produção Cultural da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Itamar Ferreira Souza, de 25 anos, marcou Salvador em 2013. Encontrado morto dentro de uma fonte da Praça do Campo Grande, na manhã de 13 de abril daquele ano, o jovem teve a trajetória interrompida poucos meses antes da formatura e em meio a planos de construir carreira na comunicação e viver novamente nos EUA.

O caso mobilizou familiares, colegas da universidade, militantes do movimento LGBTQIAPN+ e provocou forte repercussão na cidade. Entre investigações policiais, versões conflitantes, acusações de homofobia e críticas à condução do inquérito, o assassinato ultrapassou o noticiário policial e se transformou em símbolo da violência contra pessoas LGBT na Bahia.

Itamar foi morto no Campo Grande por Reprodução

O corpo encontrado na fonte

O corpo de Itamar foi encontrado por volta das 7h, imerso em um lago artificial de cerca de meio metro de profundidade, na Praça do Campo Grande. Ele vestia apenas uma cueca azul e apresentava um ferimento na cabeça, próximo ao supercílio direito. Ao redor da cena do crime, policiais localizaram apostilas, artigos acadêmicos e documentos espalhados pelo chão. Debaixo de um banco próximo havia uma mancha de sangue, recolhida para perícia. Familiares reconheceram o corpo ainda no local.

Na época, Itamar estava no último semestre do curso de Produção Cultural da Faculdade de Comunicação da Ufba (Facom). Descrito por professores e amigos como um jovem “inteligente” e “sereno”, ele havia retornado há cerca de dois meses de um intercâmbio de seis meses em Washington, nos Estados Unidos.

A principal foto em seu perfil no Facebook mostrava uma dedicatória escrita pelo professor norte-americano Richard Wright em um livro chamado I'll Find a Way or Make One (“Eu encontrarei um caminho ou farei um”). O pai do estudante, Manoel Paixão Souza, resumiu o sentimento da família em uma declaração que marcaria a cobertura do caso. “Ele ia se formar, sonhava em trabalhar na Globo e morar nos Estados Unidos. Tiraram o sonho do meu filho”, lamentou.

Crime deixou vestígios no Campo Grande por Arquivo CORREIO/Arisson Marinho

A última noite

Segundo familiares, Itamar falou com a mãe por telefone na noite anterior ao crime, por volta das 22h. Ele contou que havia saído do trabalho na faculdade, em São Lázaro, e seguido para um bar na região do Campo Grande. As circunstâncias das horas seguintes se tornariam alvo de versões diferentes ao longo da investigação.

Inicialmente, a polícia informou que Itamar e o eletricista Edmilson Santos de Oliveira, de 42 anos, teriam encontrado moradores de rua em um bar no Beco dos Artistas e seguido juntos para a praça, onde ocorreria um suposto encontro sexual grupal. A versão foi baseada no depoimento de um dos suspeitos presos.

Dias depois, Edmilson negou essa narrativa em depoimento. Segundo ele, os dois apenas caminhavam pelo Campo Grande após passarem por bares da Lapa e do Beco dos Artistas quando foram abordados pelos assaltantes.

A divergência provocou revolta na família de Itamar e em entidades ligadas ao movimento LGBT, que acusaram a polícia de expor a intimidade da vítima de maneira desnecessária e preconceituosa.

“Meu irmão jamais se envolveria com pessoas daquele nível. Pelo seu histórico de vida, repudiamos essa versão mentirosa da polícia que a imprensa comprou”, afirmou a irmã de Itamar, Jeovânia Ferreira, durante um ato realizado dias depois do crime.

Ricardo e Scarleth foram presos pelo crime na época por Arquivo CORREIO/Arisson Marinho

Prisões e investigação

Menos de 48 horas após o assassinato, a polícia apresentou os primeiros suspeitos. Ricardo Hohlennerger dos Santos, de 25 anos, foi preso em flagrante no Largo dos Aflitos. Um adolescente de 17 anos também foi apreendido. Outros dois suspeitos apontados pela investigação eram uma jovem chamada Scarleth Lira Maia Gomes, então com 18 anos, e um homem conhecido como Índio.

De acordo com a versão apresentada pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), os suspeitos decidiram assaltar Itamar e Edmilson após perceberem que eles estavam vulneráveis. Segundo a polícia, as vítimas reagiram e sofreram uma sequência de socos e pontapés até perderem a consciência. A investigação apontou que os dois foram jogados dentro da fonte acreditando-se que já estivessem mortos.

Edmilson sobreviveu porque permaneceu desacordado com a cabeça para fora da água. Já Itamar teria recuperado a consciência antes de ser atingido na cabeça por um paralelepípedo, apontado pelos investigadores como o golpe fatal. O grupo roubou celulares, relógio e uma pequena quantia em dinheiro das vítimas. A polícia concluiu o inquérito tratando o caso como latrocínio — roubo seguido de morte.

Durante a apresentação dos suspeitos, Ricardo declarou: “Eu estou arrependido, mas não matei ninguém. Eu só queria o relógio”.

A figura de Scarleth

A prisão de Scarleth chamou atenção pela trajetória incomum apresentada pela polícia. Ex-jogadora de basquete e praticante de karatê, ela teria vivido na Bolívia e na Guiana atuando como atleta profissional. Os investigadores afirmaram que ela circulava pelas ruas do Centro de Salvador junto ao grupo de suspeitos e teria conduzido as vítimas até o local do crime. A defesa dela negou envolvimento.

Em depoimento, Scarleth apresentou outra versão. Disse que havia conhecido Itamar e Edmilson naquela noite em um bar e que o grupo pretendia seguir para um hotel quando foi surpreendido pelos assaltantes no Campo Grande. Ela acabou solta poucos dias depois, após a Justiça entender que sua prisão não preenchia os requisitos legais do flagrante.

Enterro de Itamar por Arquivo CORREIO/Evandro Veiga

Acusações de homofobia

Desde os primeiros dias após o assassinato, integrantes do movimento LGBT sustentaram que o crime possuía motivação homofóbica. O presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), Marcelo Cerqueira, afirmou que Itamar poderia ter sido atraído até o local “por conta da aparência social de gay da vítima”. Já o antropólogo e fundador do GGB, Luiz Mott, criticou a postura das autoridades ao descartarem rapidamente essa hipótese.

“No mínimo, ele sofreu com a homofobia social que o obrigou a estar em um lugar perigoso naquele momento”, declarou durante manifestação em homenagem ao estudante. Professores da Faculdade de Comunicação também manifestaram indignação. Em publicação nas redes sociais, o professor Wilson Gomes escreveu: “Um menino inteligente, doce. Possivelmente, mais uma vítima do ódio aos homossexuais”.

A própria família acreditava que a orientação sexual de Itamar teve relação com o assassinato. “Aceitei meu filho como ele era. Pena que a sociedade não fez o mesmo”, disse o pai do estudante. Dias após o crime, cerca de 60 pessoas participaram de um ato na fonte onde Itamar foi encontrado morto. Amigos, parentes e militantes levaram cartazes, flores e velas ao Campo Grande.

O protesto tinha dois objetivos: pedir justiça e contestar a narrativa inicial divulgada pela polícia. O Grupo Gay da Bahia chegou a protocolar denúncias na Corregedoria da Polícia Civil e na Secretaria de Segurança Pública contra a delegada responsável pelo caso. A entidade afirmou que as declarações dadas durante a investigação causaram “uma nódoa à honra do estudante assassinado”.

Protestos após a morte de Itamar por Arquivo CORREIO/Evandro Veiga

Audiências e demora judicial

O processo judicial avançou lentamente. Em novembro de 2013, testemunhas começaram a ser ouvidas no Fórum Teixeira de Freitas, em Salvador. Entre elas estava Edmilson Santos de Oliveira, sobrevivente do ataque. No ano seguinte, familiares voltaram ao Campo Grande para marcar um ano do assassinato e denunciar a demora no andamento do caso. Na ocasião, reclamaram que audiências haviam sido adiadas por ausência de acusados. “O meu filho não foi o primeiro, nem vai ser o último”, afirmou a mãe de Itamar, Sônia Ferreira, durante o ato.

Mesmo mais de uma década depois, o caso segue lembrado como um dos episódios de maior repercussão envolvendo violência urbana e homofobia em Salvador. A morte brutal de um estudante prestes a concluir a universidade, cercada por versões contraditórias e forte comoção social, transformou o nome de Itamar Ferreira Souza em símbolo de uma tragédia que ainda ecoa na memória da cidade.

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Itamar Ferreira Souza Estudante da Ufba Morto no Campo Grande Encontrado em Fonte