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Programa de R$ 100 terminou em morte: o assassinato do bailarino consagrado que chocou a Bahia

Investigação revelou detalhes do crime e mobilizou artistas, alunos e familiares

  • Foto do(a) author(a) Wendel de Novais
  • Wendel de Novais

Publicado em 24 de abril de 2026 às 14:00

Omolú foi morto a facadas por Cléverson em 2013 Crédito: Arquivo CORREIO e Reprodução

O assassinato do bailarino, coreógrafo e ator Augusto José da Purificação Conceição, conhecido como Augusto Omolú, permanece como um dos crimes mais simbólicos e impactantes da história recente da Bahia. Ícone da dança afro-brasileira e referência internacional, ele teve a trajetória interrompida de forma violenta na madrugada de 2 de junho de 2013, dentro da própria casa, em Buraquinho, em Lauro de Freitas.

Aos 50 anos, Omolú acumulava mais de três décadas dedicadas à arte. Integrante do Balé Teatro Castro Alves (BTCA) desde a fundação, em 1981, ele também ganhou projeção internacional ao integrar a companhia dinamarquesa Odin Teatret. De volta à Bahia, atuava como professor, coreógrafo e se preparava para assumir um papel de destaque na curadoria artística do BTCA. Tudo isso foi interrompido por um crime que, desde o início, chamou atenção pela brutalidade.

Augusto Omolú foi morto em 2013 por Reprodução

Crime dentro de casa

O corpo de Omolú foi encontrado na manhã do dia 2 de junho pelo caseiro da propriedade, na chácara onde o artista vivia. Ele estava apenas de cueca, deitado de barriga para cima, entre a cozinha e a sala da residência. Segundo a polícia, o bailarino foi atingido por golpes de faca na nuca, na boca e no abdômen. “Presumimos que ele foi golpeado por trás”, afirmou, à época, o delegado responsável pelo caso.

As primeiras informações indicavam que não havia sinais de arrombamento nem indícios claros de roubo, o que levou os investigadores a trabalharem inicialmente com hipóteses como crime passional ou vingança. Ainda assim, outras possibilidades, como latrocínio, não foram descartadas. A violência do crime chocou não apenas a família, mas toda a cena cultural da Bahia.

Dias antes de ser assassinado, Omolú já demonstrava preocupação com a segurança. Segundo o filho, ele havia colocado a casa à venda justamente por considerar o local vulnerável. “A dor jamais vai passar. Foi a perda de um pai pra mim e pra cultura afro-brasileira, a dor é dantesca”, declarou o filho Gustavo Conceição, após o crime.

Apesar de valorizar a tranquilidade do sítio, o bailarino discutia a possibilidade de se mudar para outro endereço.

Cléverson foi condenado por morte de Augusto Omolú por Arquivo CORREIO

Investigação e prisão do suspeito

A elucidação do caso começou a ganhar forma cerca de dois meses depois. Em agosto de 2013, a polícia prendeu Cléverson Santos Teixeira, conhecido como Bobó, então com 20 anos, no bairro de Portão. Ele confessou o crime e apresentou uma versão que envolvia um encontro com a vítima na noite do assassinato. Segundo o relato, os dois se conheceram em um bar e seguiram para a casa de Omolú após a combinação de um programa no valor de R$ 100.

De acordo com o delegado, a situação saiu do controle já dentro da residência. “Augusto (Omolú) falou que ele não poderia sair do sítio, que estava trancado, e foi nesse momento que o plano começou a ser arquitetado”, disse. Ainda conforme a investigação, Cléverson foi até a cozinha, pegou uma faca e desferiu golpes contra o bailarino após uma discussão. Câmeras de segurança registraram o suspeito deixando o local com roupas manchadas de sangue.

Antes de fugir, ele levou o celular da vítima, que foi posteriormente vendido e trocado por drogas — elemento que reforçou a linha de investigação de latrocínio. A morte de Augusto Omolú gerou forte mobilização na época. Amigos, alunos e familiares realizaram caminhadas pedindo justiça, além de homenagens marcadas por música, dança e rituais religiosos.

“Para o BTCA vai ser muito difícil entrar em cena sem ele. Fica um vazio e a nossa indignação”, declarou o curador Jorge Vermelho. Colegas destacaram não apenas o artista, mas o educador. “Estamos perdendo não apenas o Augusto artista, mas o Augusto educador”, afirmou Beth Rangel, da Escola de Dança da Funceb.

Morte gerou protestos por Arquivo CORREIO

Condenação e reviravolta

O caso seguiu na Justiça por anos. Em 2019, Cléverson foi condenado por júri popular a 7 anos de prisão em regime semiaberto. A pena considerou atenuantes como a confissão e a idade do réu na época do crime. Apesar da condenação, o julgamento ocorreu sem a presença do acusado, que era considerado foragido.

Pouco depois, veio a reviravolta: a Defensoria Pública da Bahia e o Tribunal de Justiça descobriram que Cléverson já estava morto havia cerca de um ano. Ele morreu em 16 de abril de 2018, após ser agredido com arma branca, em um hospital de Jequié. “Não há informações sobre autor e motivação”, apontaram os registros.

Mais de uma década depois, o assassinato de Augusto Omolú segue como um marco de violência contra uma figura central da cultura baiana. Além da perda irreparável para a dança, o crime expôs fragilidades na segurança e deixou uma lacuna difícil de preencher na arte baiana e na sua família. “Enquanto existir memória vai existir Augusto Omolú”, disse a irmã Elis Razek, dias após o assassinato. 

Enterro de Augusto Omolú por Arquivo CORREIO

Tags:

Lauro de Freitas Assassinato Augusto Omolú Bailarino do Btca