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Wendel de Novais
Publicado em 10 de abril de 2026 às 06:01
O assassinato da jornalista Maristela Pereira de Melo Bouzas, em novembro de 2000, permanece como um dos crimes mais brutais e emblemáticos da história recente de Salvador. Colaboradora do jornal A Tarde, onde assinava textos sobre teatro, Maristela tinha 28 anos quando desapareceu após sair do Pelourinho, no sábado, 25 de novembro. O sumiço mobilizou familiares, colegas e a polícia, que iniciou uma força-tarefa a partir do último local onde ela foi vista: o estacionamento de onde saiu dirigindo o próprio carro, um Escort Hobby. >
Dois dias depois, a busca teve um desfecho trágico. O corpo da jornalista foi encontrado em um matagal na região de Pirajá, com um tiro na testa. O principal suspeito, o lavador de ônibus Robson Rodrigues Soares, foi preso ainda nas proximidades, após ser flagrado incendiando o veículo da vítima. A versão inicial apresentada por ele — de que teria cometido o crime sozinho durante uma tentativa de assalto — rapidamente passou a ser questionada diante de contradições, depoimentos conflitantes e indícios que apontavam para a participação de outras pessoas. >
A investigação ganhou novos contornos à medida que testemunhas surgiam e detalhes da dinâmica do crime eram reconstituídos. O tíquete de saída do veículo no estacionamento do Pelourinho indicava que o carro deixou o local por volta das 14h30, e funcionários afirmaram que ela estava ao volante naquele momento — um detalhe que, posteriormente, se tornaria central para questionar a versão apresentada pelo principal suspeito. >
Durante o domingo, cerca de 30 pessoas ligadas à jornalista foram ouvidas. A ausência de sinais claros de assalto e o fato de nenhum pertence ter sido imediatamente localizado aumentavam a angústia e o mistério. A investigação ainda estava em estágio inicial quando, dois dias depois, veio a confirmação mais temida. >
Assassino foi pego ao voltar para cena do crime
Corpo encontrado e prisão em flagrante >
Na segunda-feira, o corpo de Maristela foi localizado em um matagal nas proximidades de um supermercado na região de Pirajá. Ela havia sido morta com um tiro na testa. A descoberta ocorreu praticamente ao mesmo tempo em que o principal suspeito, o lavador de ônibus Robson Rodrigues Soares, de 26 anos, era preso. Ele foi flagrado por testemunhas enquanto tentava incendiar o carro da vítima a poucos metros do local onde o corpo estava. >
A prisão teve participação decisiva de um morador da área, que estranhou a movimentação e acionou policiais militares. Ao ser abordado, Robson ainda tentou fugir e sacar uma arma, mas foi contido. Desde o início, ele assumiu a autoria do crime, alegando que havia sequestrado a jornalista com a intenção de roubar, mas decidiu matá-la ao perceber que ela não tinha dinheiro. >
Contradições e suspeita de participação de comparsas >
A versão apresentada, no entanto, passou a ser confrontada pela polícia à medida que novos elementos surgiam. Um dos principais pontos de dúvida era o horário do sequestro. Enquanto Robson afirmava ter abordado a vítima por volta do meio-dia, registros e testemunhos indicavam que Maristela saiu do estacionamento dirigindo o carro horas depois. A divergência levantou a hipótese de que o crime pode ter começado de forma diferente do que foi relatado. >
Outro fator que chamou atenção dos investigadores foi a possível participação do motoboy Valmir Farias Costa, também de 26 anos. Ele foi preso dias depois e apontado como coautor. Segundo a reconstituição do crime, os dois teriam planejado o assalto ainda pela manhã, aguardando uma vítima no estacionamento. Após render Maristela, ela teria sido colocada no porta-malas do carro e levada pela cidade antes de ser assassinada. >
Testemunhos e perícias indicaram que a vítima foi retirada do bagageiro em determinado momento e levada ao banco do carro, sob ameaça. A dinâmica reforçou a suspeita de que houve mais de um envolvido e que a ação não foi totalmente improvisada. >
Criminoso passou por acareação durante as investigações
Reconstituição e revelações sobre violência >
A reconstituição detalhada do crime, conduzida dias depois com a participação dos suspeitos, expôs um roteiro de extrema violência. Segundo o relato apresentado, Maristela foi levada até uma área isolada em Pirajá, onde desceu uma ribanceira acompanhada pelos criminosos. Em estado de desespero, ela teria implorado pela própria vida antes de ser executada com um disparo na cabeça. >
As investigações avançaram ainda mais quando laudos periciais identificaram indícios de violência sexual. Diante das evidências, Robson acabou confessando que a jornalista foi estuprada antes de ser morta, em um imóvel ligado ao comparsa. A revelação ampliou a gravidade do caso e reforçou a linha de investigação que apontava para um crime muito mais complexo do que um simples latrocínio. >
Além disso, a conduta dos suspeitos após o assassinato também pesou contra eles. De acordo com a polícia, os dois circularam pela cidade com o carro da vítima durante o fim de semana, cometendo outros crimes e tentando eliminar provas — comportamento considerado incompatível com a versão inicial de um crime impulsivo. >
Comoção e impacto na cidade >
O assassinato de Maristela gerou forte comoção em Salvador. O sepultamento reuniu centenas de pessoas, entre familiares, colegas de trabalho, artistas e amigos, muitos vestidos de branco em um gesto simbólico. A imagem de uma jovem ligada à cultura, descrita como alegre e dedicada, interrompida de forma tão violenta, mobilizou diferentes setores da sociedade. >
Manifestações públicas e atos em defesa da paz foram organizados nos dias seguintes, refletindo o sentimento coletivo de indignação. O caso também reacendeu debates sobre segurança na cidade, especialmente em áreas turísticas como o Pelourinho, e sobre a escalada da violência urbana no início dos anos 2000. >
Ao longo das investigações, a polícia trabalhou para esclarecer todas as circunstâncias do crime, incluindo a motivação e o grau de participação de cada envolvido. As sucessivas contradições nos depoimentos e a brutalidade dos fatos fizeram com que o caso se consolidasse como um dos mais emblemáticos da história policial baiana — não apenas pela violência, mas pela forma como expôs fragilidades e deixou marcas profundas na memória da cidade. >
Maristela foi sequestrada no estacionamento do Pelourinho