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Disputa sindical, contrato milionário e ameaças: a execução do rodoviário que desafiou um plano de saúde em Salvador

As mortes de Paulo Colombiano e sua esposa, Catarina Galindo, revelaram problemas em sindicato e seguem sem desfecho judicial

  • Foto do(a) author(a) Wendel de Novais
  • Wendel de Novais

Publicado em 15 de maio de 2026 às 05:17

Paulo Colombiano e Catarina Galindo
Paulo Colombiano e Catarina Galindo Crédito: Reprodução

A execução do sindicalista Paulo Roberto Colombiano dos Santos e da companheira Catarina da Ascensão Galindo no trânsito de Salvador colocou o Sindicato dos Rodoviários, do qual a vítima era tesoureiro, no centro da cena criminal da capital. O casal foi assassinado em 2010, em Brotas, quando retornava para casa de carro.

O duplo homicídio, cometido por homens em uma motocicleta, desencadeou uma investigação que atravessou anos, revelou suspeitas de irregularidades milionárias envolvendo contratos de plano de saúde e terminou com empresários e seguranças denunciados pelo Ministério Público.

Os denunciados, no entanto, nunca enfrentaram um julgamento. Mais de uma década depois, o caso segue associado a uma mistura explosiva de disputa sindical, dinheiro, denúncias de corrupção e acusações de crime encomendado.

Paulo Colombiano e Catarina Galindo por Reprodução

A emboscada na porta de casa

Na noite do crime, Colombiano e Catarina seguiam para o Conjunto Catavento, onde moravam, na rua Teixeira Barros, em Brotas. O carro do casal desacelerou em um trecho próximo a um quebra-molas quando os criminosos se aproximaram em uma moto e abriram fogo.

O sindicalista foi atingido por diversos disparos de pistola calibre ponto 40. Catarina, secretária do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Salvador, foi baleada na cabeça. O casal morreu dentro do veículo, sem chance de reação.

Ainda nas primeiras horas após a execução, integrantes do Sindicato dos Rodoviários afirmavam que Colombiano vinha sofrendo ameaças. O ex-diretor sindical José Carlos Rodrigues declarou que os avisos começaram após disputas eleitorais dentro da entidade. “Colombiano vinha sendo ameaçado por pessoas ligadas à Chapa 4”, afirmou na época.

A brutalidade da execução e a dinâmica do atentado fizeram a polícia trabalhar desde o início com a hipótese de crime de mando. O então delegado-chefe da Polícia Civil, Joselito Bispo, afirmou que “não havia dúvidas” de que o assassinato havia sido encomendado.

Paulo Colombiano era líder sindical e tesoureiro dos rodoviários por Sindicato dos Rodoviários

A disputa pelo controle de milhões

A investigação rapidamente passou a mirar a estrutura financeira do Sindicato dos Rodoviários. Como diretor-tesoureiro, Colombiano tinha acesso às contas da entidade, que movimentava cerca de R$ 2,5 milhões por mês.

Segundo relatos de amigos, familiares e dirigentes sindicais, ele havia começado a questionar pagamentos feitos à empresa de plano de saúde Mastermed, responsável pela assistência médica dos rodoviários.

Documentos apreendidos pela polícia incluíam notas fiscais superiores a R$ 2 milhões, contratos e arquivos contábeis. Peritos analisaram computadores do sindicato e o notebook pessoal do sindicalista para verificar suspeitas de irregularidades.

As investigações apontaram que Colombiano desconfiava do percentual cobrado pela empresa administradora do plano de saúde. De acordo com a denúncia do Ministério Público, o sindicato pagava uma taxa administrativa considerada muito acima da média de mercado.

A suspeita ganhou força após depoimentos de pessoas próximas ao sindicalista. O cunhado de Catarina, Geraldo Galindo, contou que, dias antes do crime, Colombiano comentou que pretendia promover mudanças no contrato, embora soubesse dos riscos. “Ele dizia que era uma questão perigosa e que sofreria muita pressão”, afirmou.

Claudomiro Cesar Ferreira Santana foi denunciado como mandante por Reprodução

“Queriam calar Colombiano”, apontou denúncia

Em maio de 2012, quase dois anos após o crime, a Secretaria da Segurança Pública anunciou a prisão de cinco suspeitos. Entre eles estavam o empresário Claudomiro César Ferreira Santana, oficial da reserva da Polícia Militar e proprietário da Mastermed, e o irmão dele, Cássio Antônio Ferreira Santana.

Também foram presos Edilson Duarte de Araújo, Wagner Luís Lopes de Souza e Adailton Araújo de Jesus, apontado pela polícia como o autor dos disparos. Segundo a investigação, o grupo monitorou a rotina do sindicalista antes da execução.

A denúncia do Ministério Público descreve que dois dos acusados seguiram o carro do casal durante o trajeto e repassaram a localização em tempo real para o executor, que aguardava em uma motocicleta.

O documento afirma que Colombiano passou a representar ameaça financeira para os empresários após tentar rever o contrato da Mastermed com o sindicato. A promotoria sustentou que os acusados decidiram “calar” o sindicalista para impedir perdas milionárias.

De acordo com o Ministério Público, entre 2005 e 2010, o contrato teria rendido cerca de R$ 34 milhões em taxas administrativas à empresa.

Local da morte de Paulo e Catarina por Arquivo CORREIO

Prisões, liberdade e guerra judicial

As prisões dos acusados provocaram forte repercussão política e sindical na Bahia. O então secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa, declarou que o “motivo principal” do crime estava relacionado ao contrato da Mastermed, embora outras irregularidades investigadas dentro do sindicato também fossem analisadas.

A defesa dos empresários contestou a investigação e afirmou que não existiam provas concretas contra os acusados. O advogado Gamil Föppel classificou a tese policial como “absurda” e “inverossímil”. Pouco tempo depois das prisões temporárias, Claudomiro conseguiu liberdade por decisão judicial.

O processo, no entanto, continuou tramitando. Em outubro de 2012, o Ministério Público denunciou formalmente os cinco acusados por homicídio triplamente qualificado. Dois anos depois, quatro deles foram pronunciados para júri popular, com a exceção de Cássio, por “falta de provas”,

O caso ainda enfrentaria uma longa batalha judicial. Em 2017, o Tribunal de Justiça da Bahia anulou a decisão que mandava os réus a júri popular, alegando “excesso de linguagem” na sentença original. O processo voltou à primeira instância, ampliando ainda mais a sensação de impunidade denunciada pela família das vítimas.

Desde então, o caso segue no Tribunal de Justiça com diversos recurso e os acusados nunca foram à julgamento.

Mortes geraram prostestos de sindicalistas por Sindicato dos Rodoviários

Pressão pública e cobrança por respostas

Durante anos, familiares, militantes do PCdoB e entidades sindicais realizaram atos públicos cobrando solução para o crime. Outdoors foram espalhados por Salvador questionando a impunidade no caso. Muros da cidade receberam inscrições perguntando: “Quem matou Paulo Colombiano e Catarina Galindo?”.

No enterro do casal, realizado no cemitério Jardim da Saudade, o filho de Catarina fez um apelo emocionado: “Não se calem. Minha mãe e Paulo gastaram a vida nessa luta. Que não tenha sido em vão”.

A execução de Paulo Colombiano e Catarina Galindo passou a ocupar um espaço permanente na memória da violência política e sindical da Bahia. O caso reuniu elementos que ampliaram o impacto social do crime: ameaças anteriores, disputa de poder dentro do sindicato, movimentação milionária de recursos e uma execução cometida em plena via pública.

Mais do que um homicídio, o episódio se transformou em símbolo das tensões envolvendo dinheiro, influência e poder nos bastidores sindicais.

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