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Representação negra: o que muda com 'a nobreza do amor'

“A Nobreza do Amor” é mais do que uma novela. É um sinal. Um sinal de que o imaginário brasileiro começa, aos poucos, a se reorganizar

Publicado em 24 de março de 2026 às 05:00

Nasci no ano de 1990. Cresci em frente a uma televisão que parecia narrar histórias de um mundo em que eu raramente estava presente. E, talvez por isso, sempre que uma pessoa negra surgia na tela, algo dentro de mim despertava. Era curiosidade, identificação, quase uma surpresa boa. Eu icava atenta. Eu queria ficar.

Era pouco. Mas era o suficiente para entender que aquilo também me atravessava.

Fora da televisão, no entanto, o meu mundo era outro. Fui criada no Curuzu, dentro do Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil. E ali aprendi, desde muito cedo, algo que a televisão ainda levaria tempo para reconhecer: mulheres negras são majestosas.

Na Noite da Beleza Negra, quando uma mulher é coroada Deusa do Ébano, não há dúvida sobre quem ocupa o centro. Não há escassez de referências. Há afirmação. Há continuidade. Há um imaginário sendo construído com beleza, orgulho e pertencimento.

Crescer entre esses dois mundos, o da abundância simbólica e o da ausência midiática, é entender, desde cedo, que o problema nunca foi falta de história. Foi falta de espaço. E isso ecoa, por exemplo, no discurso de Viola Davis, em 2015, ao vencer o Emmy de Melhor Atriz em Série de Drama. Décadas antes, o Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento, já apontava nessa direção.

Nos anos 2000, o documentário A Negação do Brasil, dirigido por Joel Zito Araújo, escancara como a televisão brasileira construiu um imaginário em que pessoas negras eram pouco representadas e quase nunca protagonistas de suas próprias narrativas.

Ainda assim, houve quem abrisse caminho. Ruth de Souza, Zezé Motta, Milton Gonçalves, Chica Xavier, Léa Garcia, Norton Nascimento e tantos outros foram fundamentais para ampliar essas possibilidades, tensionando os limites impostos pela indústria. Mais tarde, Taís Araújo e Camila Pitanga consolidaram o protagonismo negro em novelas de grande alcance, ao lado de nomes como Ailton Graça, Sheron Menezzes e Fabrício Boliveira, que ajudaram a dar continuidade e densidade a essa presença nas telas.

É nesse percurso que surge “A Nobreza do Amor”, nova novela das 18h da TV Globo, que estreou há uma semana. A trama, escrita pelo dramaturgo baiano Elisio Lopes Jr., ao lado de Duca Rachid e Julio Fischer, acompanha a trajetória da princesa Alika, interpretada por Duda Santos, que, após um golpe em Batanga, território africano fictício, atravessa o oceano e recomeça a vida no Brasil. A protagonista ganha contornos que vão além do romantismo: ela é deslocamento, reinvenção e permanência.

E há um detalhe que não passa despercebido para quem é de Salvador.

Barro Preto é o nome da cidade fictícia onde parte da história acontece. Um nome que ecoa diretamente na Senzala do Barro Preto, sede do Ilê Aiyê. Um território em que a realeza negra sempre existiu, não como fantasia, mas como prática viva.

A novela também reúne nomes baianos no elenco, como Cobrinha, Cyria Coentro, Emanuelle Araújo, a estreante Rita Batista e outros. E ainda traz Lázaro Ramos, ou Lazinho para os íntimos, em sua primeira experiência como vilão em novelas. Ele interpreta Jendall, o primeiro-ministro que trai o rei de Batanga e tenta forçar a princesa Alika a se casar com ele. Ao assumir esse papel, Lázaro amplia o repertório de personagens negros na teledramaturgia. Não se trata apenas de ocupar espaço, mas de expandir as possibilidades de existência dentro da narrativa.

Talvez por isso essa novela produza um efeito que vai além da ficção. Ela não cria uma realeza negra, ela reconhece uma realeza que sempre existiu.

“A Nobreza do Amor” é, portanto, mais do que uma novela. É um sinal. Um sinal de que o imaginário brasileiro começa, aos poucos, a se reorganizar. De que as histórias que antes nos excluíam passam a nos reconhecer, não mais como exceção, mas como centro.

E talvez seja isso que mais me atravessa: pensar que, hoje, uma menina negra pode ligar a televisão e não precisar fazer esforço para se encontrar. Ela simplesmente se vê.

Porque, no fim, não se trata apenas de quem aparece na tela. Trata-se de quem pode sonhar a partir dela.

Val Benvindo é jornalista