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Como o Brasil virou um país endividado e mergulhou na crise das dívidas

Leia a coluna na íntegra

  • Foto do(a) author(a) Rodrigo Daniel Silva
  • Rodrigo Daniel Silva

Publicado em 26 de maio de 2026 às 06:00

Proporção de famílias com dívidas subiu para 80,9% em abril, sgundo a CNC
Proporção de famílias com dívidas subiu para 80,9% em abril, sgundo a CNC Crédito: Imagem gerada por IA

Amigos, chegou recentemente às livrarias o livro Parcelado, do geógrafo e professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos. A obra, publicada pela editora Fósforo e com pouco mais de 140 páginas, propõe uma reflexão sobre o endividamento que se tornou crônico entre as camadas mais pobres da população brasileira. Embora a publicação trabalhe com dados até 2024, o cenário continuou se agravando desde então, com sucessivos recordes de famílias endividadas no país.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a proporção de famílias com dívidas subiu de 80,4% em março para 80,9% em abril, um novo recorde histórico. Foi o quarto mês consecutivo de alta. Não por acaso, há quem atribua parte da impopularidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao avanço do endividamento e ao custo de vida elevado, quadro que demorou a receber uma resposta do governo federal.

Mas Parcelado busca compreender a origem (ou ao menos uma das raízes) desse fenômeno. O livro começa analisando o crescimento populacional da cidade de São Paulo, impulsionado principalmente pelas ondas migratórias das décadas de 1950 e 1960, quando nordestinos e moradores do norte de Minas Gerais viam a capital paulista como uma “terra de oportunidades”.

 livro Parcelado, do geógrafo e professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos
Livro Parcelado, do geógrafo e professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos Crédito: Divulgação

Com o passar dos anos, essa população foi ocupando as periferias da cidade. A industrialização do século passado, argumenta o autor, ajudou a expandir São Paulo para regiões cada vez mais distantes do centro. É justamente essa população periférica, majoritariamente negra, que hoje aparece no centro da discussão sobre endividamento.

Para Kauê Lopes, existe um tripé social que alimenta esse processo. O primeiro elemento é a publicidade, que cria necessidades constantes de consumo. O segundo é a expansão do crédito, que viabiliza essas compras. O autor cita dados oficiais segundo os quais as operações de crédito no país saltaram de R$ 202 bilhões em 1995 para R$ 3,4 trilhões em 2019. O terceiro ponto é a obsolescência programada, que reduz a durabilidade de bens como geladeiras, televisores e celulares.

Assim, o consumo passa a ocorrer porque os produtos quebram rapidamente ou se tornam tecnologicamente ultrapassados. Sem recursos para pagar à vista, muitas famílias recorrem ao parcelamento (em 24, 36 ou até 48 vezes) e acabam arcando com juros elevados para adquirir bens que, no futuro, não representarão patrimônio algum.

Um dos depoimentos reunidos pelo autor resume bem essa lógica: “A gente acaba pagando mais caro, né? Um fogão que custa R$ 2 mil, no fim sai por R$ 3 mil e pouco. Os ricos vão lá e pagam à vista. A gente paga mais porque não tem escolha”.

A partir de relatos de moradores das periferias paulistanas e de referências acadêmicas, Kauê Lopes propõe uma reflexão central: “Os novos padrões de consumo, impulsionados pela ampliação do crédito formal, seriam capazes de superar a pobreza urbana?”

A resposta do autor é negativa. Segundo ele, “os novos padrões de consumo não superam a pobreza urbana; eles apenas alteram sua aparência. Trata-se de uma pobreza recoberta por objetos de desejo”. E você, leitor, o que pensa?

O livro também me fez levantar outra questão: o próximo presidente será capaz de enfrentar, de fato, esse novo drama social brasileiro?