Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Paula Theotonio
Publicado em 25 de maio de 2026 às 19:57
O Brasil está vivendo um momento ímpar em sua relação com o vinho. Segundo estimativas divulgadas neste mês pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o país registrou em 2025 o maior volume de consumo de sua história. No ano passado, consumimos 4,4 milhões de hectolitros — um aumento de 41,9% em relação a 2024. Um movimento que vai na contramão dos números globais, que recuaram 2,7% e vêm encolhendo gradativamente desde 2014, acumulando uma queda de 14% no período. >
O excelente momento chegou também ao campo. Nos últimos anos, o país registrou aumento na área plantada de uvas para elaboração de vinhos — um cenário contrário ao dos principais países produtores do mundo, que vêm registrando uma retração nos vinhedos cultivados. É o caso do Chile e da Argentina, países de onde mais importamos vinhos, que tiveram reduções de 1,9% e 3,7%, respectivamente.>
Para entender mais profundamente como esse cenário impacta o mercado nacional e como se preparar melhor para aproveitar o bom momento, conversei com 4 especialistas, que compartilharam suas visões e apostas. Confira:>
O mercado brasileiro de vinhos continua demonstrando muita resiliência e amadurecimento. Os dados do primeiro trimestre de 2026 mostram um crescimento de aproximadamente 4,2% no sell-out (venda na ponta) do mercado e um aumento relevante de 12% no abastecimento, com destaque para as categorias de vinhos brasileiros e argentinos, segundo dados da Ideal BI. Isso reforça que o consumo segue ativo, principalmente entre operações que não ficaram paradas no tempo, se profissionalizaram e hoje operam com mais eficiência. >
Durante a Wine South America 2026, conduzi diversos painéis ao lado de importantes players do setor debatendo justamente esse novo momento do mercado: mais competitivo, mais profissional e cada vez mais conectado à experiência e ao relacionamento com o consumidor. O principal movimento que percebemos é que o modelo tradicional de adega focada “apenas” na venda de garrafas está perdendo força. Hoje, as operações que mais crescem são aquelas que conseguem integrar físico, digital e experiência, trabalhando eventos, mini cursos de vinho, wine bars, relacionamento e vendas via WhatsApp de forma estratégica. [...] o crescimento existe, mas está diretamente ligado à eficiência operacional, gestão de canais e capacidade de gerar experiência e recorrência.>
Sou uma grande entusiasta deste momento vivido pelo vinho. Existe uma mudança significativa nos hábitos de consumo e alimentação, e o vinho surge como uma escolha mais equilibrada dentro do universo das bebidas alcoólicas. Ao mesmo tempo, entre os consumidores já fiéis à categoria, vemos um comportamento mais consciente, interessado em beber menos, porém melhor. É um momento especialmente interessante para viver e trabalhar com vinho.>
Para aproveitar esse boom no consumo, as vinícolas estrangeiras precisam entender o comportamento do consumidor em cada região do país. E isso passa, necessariamente, pela construção de conexões autênticas com os mercados locais. No Morandé Wine Group, o trabalho próximo às importadoras e parceiros regionais tem sido uma estratégia extremamente assertiva, permitindo fortalecer nossa presença de forma consistente em todas as regiões do Brasil. Além da distribuição, investir em produtos e comunicação alinhados às preferências do público brasileiro pode gerar resultados muito relevantes.>
O enoturismo deixou de ser apenas uma atividade complementar das vinícolas para se consolidar como uma das principais portas de entrada para o consumo e para a conexão emocional das pessoas com o vinho brasileiro. Hoje, o enoturismo é visto como um negócio estratégico dentro das vinícolas — algo que há alguns anos ainda não era percebido desta forma. Quem visita uma vinícola não busca apenas degustar um rótulo, mas compreender histórias, origens, pessoas e modos de vida. >
Além de impulsionar diretamente a venda de vinhos e espumantes, o enoturismo movimenta toda uma cadeia econômica ligada à hotelaria, gastronomia, comércio, transporte e serviços. O crescimento do setor nos últimos anos mostra que o vinho brasileiro passou a ocupar um novo lugar na percepção do consumidor: mais próximo, mais acessível e conectado à experiência. Ao mesmo tempo, essa expansão evidencia um desafio importante, que é a qualificação profissional. O mercado cresceu muito rápido e hoje existe uma demanda real por pessoas preparadas para atuar com hospitalidade, atendimento, narrativa, experiência e gestão no enoturismo brasileiro.>
O mercado brasileiro de vinhos vive uma expansão histórica, impulsionada pelo aumento do consumo e pela abertura do acordo Mercosul-União Europeia. Para se destacar hoje, o sommelier moderno precisa dominar habilidades estratégicas, como a habilidade de se comunicar em outros idiomas para conexões globais, ferramentas para uma gestão precisa de custos e estoques, e uma escrita fluida para criar cartas e conteúdos digitais atraentes. >
Outros tipos de habilidades também são indispensáveis para liderar esse momento. Devemos trocar o esnobismo clássico pela empatia e escuta ativa, contextualizando o vinho para o novo consumidor. A adaptabilidade e a visão comercial são grandes diferenciais. O profissional de destaque não apenas serve a taça e harmoniza menus, mas atua como vendedor e consultor estratégico de negócios.>