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Miro Palma
Publicado em 26 de maio de 2026 às 10:07
O Bahia vive hoje um daqueles momentos em que o silêncio da diretoria incomoda quase tanto quanto o futebol apresentado em campo. >
Enquanto o time afunda em uma sequência de oito jogos sem vencer, coleciona atuações burocráticas e parece perder identidade rodada após rodada, as duas principais figuras do comando do futebol seguem protegidas atrás de entrevistas controladas, conteúdos institucionais e aparições cuidadosamente escolhidas. Raul Aguirre e Cadu Santoro até falam, mas quase sempre onde não existe confronto, cobrança ou desconforto. Não aparecem depois de derrotas traumáticas. Não explicam decisões. Não encaram o torcedor de frente quando o projeto esportivo começa a desmoronar. >
E isso pesa ainda mais porque a SAF foi vendida como símbolo de profissionalização moderna, transparência e ruptura com os velhos vícios do futebol brasileiro. Só que profissionalismo também passa por exposição pública. Por sustentar decisões ruins e assumir erros quando o desempenho em campo entra em colapso.>
Hoje, o torcedor olha para o elenco e vê um time que parece envelhecido emocionalmente, previsível tecnicamente e pouco renovado na espinha dorsal. Caio Alexandre, Jean Lucas e Everton Ribeiro foram fundamentais no início da era City. Em diferentes momentos, elevaram o nível competitivo do Bahia e ajudaram a mudar o patamar do clube. Mas futebol não se sustenta apenas na memória do que um jogador já entregou.>
Os três atravessam queda clara de rendimento. Everton, apesar do talento inquestionável, já não consegue manter intensidade física durante os 90 minutos. Jean Lucas alterna jogos apáticos e de desconexão. Caio Alexandre perdeu protagonismo, dinamismo e impacto no meio-campo. Ainda assim, o clube falhou em criar concorrência real para esses atletas ou iniciar uma renovação gradual do setor mais importante do time.>
O problema é que, quando tentou se movimentar no mercado, o Bahia acumulou escolhas caras e pouco convincentes. Rodrigo Nestor, Michel Araújo e Luiz Gustavo custaram milhões aos cofres do clube. E qual foi o retorno técnico desse investimento? Nenhum. O clube gastou cifras de protagonista para receber desempenho de coadjuvante.>
A negligência em setores decisivos também chama atenção. O Bahia passou anos convivendo com insegurança no gol sem agir de forma contundente. As falhas se repetiram, a desconfiança aumentou e o clube demorou para reagir. Quando foi ao mercado, já parecia atuar em clima de emergência. Ronaldo, João Paulo, Léo Vieira... >
No ataque, o cenário não é muito diferente. O time segue sem encontrar um centroavante capaz de mudar o patamar competitivo da equipe em jogos grandes. Everaldo alterna raros bons momentos com longos períodos de irritação coletiva. Willian José nunca conseguiu assumir protagonismo constante. O Bahia até roda a bola, controla posse e ocupa campo, mas frequentemente transmite a sensação de um time incapaz de machucar adversários.>
E isso não é azar. É construção de elenco.>
Porque montar um grupo competitivo não significa apenas acumular nomes caros, produzir vídeos bonitos de apresentação ou divulgar números de investimento. Significa enxergar desgaste antes da queda virar crise. Antecipar ciclos encerrando. Hoje, o Bahia parece um clube que investe muito e acerta pouco no futebol. E essa conta inevitavelmente chega em quem toma as decisões.>
Cadu Santoro e Raul Aguirre participaram diretamente da montagem desse elenco, das prioridades do mercado e do desenho esportivo da SAF. Ambos também precisam carregar o peso do fracasso quando o desempenho despenca. >
O mais preocupante é que o Bahia começa a transmitir uma sensação perigosa: a de um clube cada vez mais distante da arquibancada. Enquanto o torcedor convive com vexames, ansiedade e frustração, a direção parece encapsulada em discursos corporativos, entrevistas institucionais e comunicação blindada.>
A torcida do Bahia não exige perfeição. Conviveu durante décadas com limitações muito maiores. O que ela quer é conexão, clareza e coragem para encarar o momento ruim sem se esconder. Porque hoje existe um abismo evidente entre quem administra o futebol e quem sofre por ele.>