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Darino Sena
Publicado em 7 de março de 2017 às 05:00
- Atualizado há 3 anos
Com o chamado de Diego Souza por Tite, na semana passada, o Sport acabou com um jejum de 16 anos sem jogadores na Seleção Brasileira. O Vitória não tem um convocado há 14 anos. No Bahia, a última convocação tem 26 anos. Nossa espera vai acabar? Por que quem joga na Bahia não tem vez?É inegável que há má vontade com o Nordeste. Desde que assumiu, Tite já foi assistir a partidas em vários estádios. Sábado, estava no Itaquerão, em São Paulo. O técnico só não veio ainda em nenhum da nossa região. Talvez viesse se o bicho estivesse pegando e a Seleção precisasse de apoio. Nesses casos, sempre apelam para o nosso torcedor. O preconceito não é de hoje. Em 1997, Zagallo foi taxativo: não convocaria Bebeto se ele continuasse no Vitória. O atacante se picou para o Botafogo e se garantiu na Copa de 98.Será que Diego Souza seria convocado se tivesse consolidado sua carreira no Nordeste? Difícil. Certamente a passagem por clubes do Sul do país pesou na convocação.Essa má vontade ajuda a explicar a ausência da Bahia, mas não é o único motivo. Puxe sua memória os últimos 10 anos: quem, jogando aqui, mereceu uma chance com a amarelinha? Continue tentando achar...A má gestão, infelizmente, nivela nosso futebol por baixo, há anos. Gradativamente, a base vem perdendo importância. Como bem lembrou o grande Elton Serra na coluna dele ontem, apenas um prata da casa é considerado titular na dupla Ba-Vi na atual temporada – o goleiro Jean, do Bahia.Isso é reflexo de uma constatação: nossa base acabou virando mera exportadora de bons talentos. Daniel Alves, David Luiz, Hulk... Todos estiveram na última Copa. Todos revelados pela dupla Ba-Vi, mas pouco utilizados nos times de cima. Todos vendidos precocemente. Mal administrados e endividados, os clubes acabam se desfazendo de atletas promissores para pagar dívidas. Não colhem o retorno técnico do investimento na formação deles.Quem chega em cima acaba mal aproveitado, vítima de uma cultura nefasta, impregnada na imprensa, torcida e dentro dos próprios clubes – a perseguição aos pratas da casa. A tolerância com eles é praticamente nula. Difícil superar as vaias e críticas excessivas. Pouquíssimos conseguem vingar.Com pouca valorização à garotada, e menos grana, planejamento e criatividade para concorrer com rivais mais poderosos, nossos cartolas acabam recorrendo a jogadores de nível duvidoso, geralmente sem mais espaço no eixo Rio-SP-Minas. É o perfil que impera nas contratações dos dois há muito tempo, salvo raras exceções. E que renegou a dupla Ba-Vi à gangorra da mediocridade no Campeonato Brasileiro, ano brigando para não cair e ano brigando para subir.Para voltar a ter um jogador na Seleção, é preciso mudar a concepção de se fazer futebol por aqui. A qualidade e o trabalho podem superar o preconceito. Se não mudar, nos resta uma opção: torcer por um milagre.Coincidência? O último rubro-negro convocado foi Dudu Cearense, em 2003. O penúltimo pelo Bahia foi Charles, em 1990. Ambos revelados na base de seus clubes. Coincidência?Últimos O meia Luís Henrique foi o último tricolor convocado, em 1991. Disputou 10 partidas e marcou 4 gols. Do time campeão brasileiro em 1988, Bobô e Zé Carlos também tiveram oportunidade de vestir a canarinho, além de Charles. Antes de Dudu Cearense, os laterais-direito Russo e Rodrigo foram convocados quando jogavam pelo Vitória, no final da década de 1990. História Vinte e seis jogadores do futebol baiano foram convocados para a Seleção Brasileira, dos seguintes clubes: Vitória (10), Bahia (9), Botafogo (2), Fluminense (2), Ypiranga (2) e Galícia (1).Pioneiro O primeiro foi Alfredo Pereira de Mello, o Mica, zagueiro do Botafogo, em 1923. Em 1957, a Seleção entrou em campo só com jogadores daqui. É que a CBD colocou a Bahia para representar o Brasil na disputa da extinta Taça Bernardo O’Higgins, em Santiago, contra o Chile, em dois jogos – 0x1 e 1x1.Darino Sena é jornalista e escreve às terças-feiras.>