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Da Redação
Publicado em 24 de março de 2015 às 06:25
- Atualizado há 3 anos
O renunciante Carlos Falcão faz parte do grupo político que gere o Vitória há uma década. O próximo presidente, a ser escolhido por um conselho viciado, virá dessa mesma turma. Não se iluda, torcedor. A oposição segue amordaçada. Vozes dissonantes continuam sem vez na Toca. Ao contrário do Bahia, cuja queda do presidente Marcelo Filho foi motivada por uma série de reformas estruturais, as normas no Vitória, por ora, seguem as mesmas. Falcão caiu por pressões internas de quem antes o apoiava. Gente para quem não interessava mais ver o cartola no comando. Foi um processo de fritura política, movido pela disputa de poder. O torcedor segue alijado do processo eleitoral. É difícil acreditar em mudanças pra valer. >
Falcão é inocente? Claro que não. O mandato dele foi um dos piores da história. Poucas vezes o torcedor rubro-negro sofreu tanto. Mas os equívocos não foram novidade. Vinham desde a época de seu antecessor – Alexi Portela, principal articulador da eleição por aclamação do sucessor. Troca-troca de treinadores e diretores de futebol, centralização de poder, influência de gente incapaz em questões cruciais, desvalorização da divisão de base, falta de critério em contratações de jogadores, relação permissiva com a torcida organizada, rebaixamento, escassez de títulos. Foram heranças de Alexi que Falcão potencializou.>
O Vitória precisa mudar muito mais do que nomes. Precisa mudar a mentalidade da gestão. O clube vem sendo gerido com resquícios inaceitáveis de amadorismo. Ou o grupo político dominante desperta, ou abre o clube para quem tem vontade de reerguê-lo. Do jeito que tá é que não pode ficar. Com um exemplo de reformulação política tão próximo e fresco na memória, o do rival Bahia, se as coisas não melhorarem, é difícil que o torcedor permaneça tão passivo. Paciência e conformismo têm limite. “Era Falcão” Vice-campeão baiano diante do maior rival. Eliminado da Copa do Nordeste depois de humilhantes 5x1 pro Ceará. Eliminado da Copa do Brasil, em Salvador, pelo inexpressivo J. Malucelli-PR, time sem divisão no Brasileiro. Rebaixado pra segundona. Apenas uma vitória em sete BA-Vis. Eliminado do Baiano nas quartas pela primeira vez em 30 anos, diante do Colo Colo, em pleno Barradão. Previamente desclassificado do próximo Nordestão. Tudo isso só de 2014 pra cá, quando Falcão assumiu. >
A rotina de fracassos foi consequência direta da péssima gestão do futebol. A pasta teve quatro diretores – Raimundo Queiroz, Felipe Ximenes, Marco Antônio Teixeira e, agora, Anderson Barros. Com tantas mudanças, não teve planejamento que resistisse. Também atrapalhou a forte influência dos “corneteiros” – gente sem qualificação que tem muita ingerência em contratações e demissões. Sobraram pitacos, faltou capacidade. Por influência deles, em parte, o Vitória de 2015 cometeu o mesmo e grave equívoco de 2014 – inflou a folha salarial com jogadores de qualidade duvidosa, ao invés de aproveitar melhor as divisões de base – uma tradição que, equivocadamente, o clube tem deixado de lado. No segundo semestre do ano passado, quando o bicho pegou e foi preciso contratar mais, faltou grana. Aí o Vitória foi buscar gente do nível de Beltrán, Josa, Roger Carvalho, Marcinho... >
Deu no que deu. >
Esse ano, as coisas iam na mesma direção. Os salários de Rogério, Rhayner, Escudero, Neto Baiano e Jorge Wagner, juntos, custam mensalmente ao Vitória aproximadamente a metade do que o Bahia gasta pra quitar toda folha salarial de seu elenco e comissão técnica. >
O ano nem bem começou e o Vitória já está no terceiro treinador. O clube vinha tendo bons resultados sem um futebol convincente. Mas era nítido que a bolinha que o time vinha jogando, mais cedo ou mais tarde, ia deixar o rubro-negro na mão. Deixou o time sem estadual. E o presidente sem alternativa. A renúncia talvez tenha sido a atitude mais sensata da era Carlos Falcão.>