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A Bahia que enterra seus jovens e lidera o ranking da vergonha

A violência no estado se espalhou. Não é um problema isolado de uma cidade ou de uma região

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  • Editorial

Publicado em 29 de maio de 2026 às 05:30

Há números que chocam. E há números que deveriam envergonhar governos inteiros. O Atlas da Violência 2026 colocou novamente a Bahia na liderança nacional em número absoluto de homicídios. Foram 6.061 vidas interrompidas em apenas um ano. Uma tragédia cotidiana que parece ser encarada com naturalidade por quem nos governa.

O retrato é devastador. Das 20 cidades mais violentas do Brasil, dez estão na Bahia. Jequié ocupa a segunda posição nacional. Feira de Santana, Juazeiro, Porto Seguro, Simões Filho, Camaçari, Teixeira de Freitas, Lauro de Freitas, Ilhéus e Salvador também aparecem no ranking. Não se trata de um problema isolado de uma cidade ou de uma região. A violência se espalhou pelo território baiano.

A explicação passa pela expansão das facções criminosas para o interior, pela disputa de territórios e pela fragilidade da presença do Estado em diversas localidades. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que a Bahia está há quase duas décadas sob o comando do mesmo grupo político. Quando um problema se agrava por tanto tempo, a responsabilidade passa a ser também da incapacidade governamental de enfrentá-la.

Mais estarrecedor ainda é o número de jovens assassinados. Foram 3.440 homicídios de pessoas entre 15 e 29 anos apenas em 2024. Isso representa 56,7% de todas as mortes violentas registradas no estado. É uma geração inteira sendo perdida. Jovens que poderiam estar estudando, trabalhando, empreendendo, constituindo famílias e produzindo riqueza para a Bahia estão sendo enterrados antes mesmo de alcançar a vida adulta.

O custo dessa tragédia vai muito além da segurança pública. Cada jovem morto representa uma perda social e humana incalculável. Não há projeto de desenvolvimento capaz de prosperar quando a principal vítima da violência é justamente a parcela da população que deveria impulsionar o futuro do estado.

Mas há um dado ainda mais preocupante revelado pelo Atlas da Violência e que tem passado despercebido no debate público. Os chamados homicídios ocultos voltaram a crescer na Bahia. O número saltou de 138 para 255 casos em apenas um ano, uma alta de 84,8%. São mortes violentas que deixam de aparecer nas estatísticas oficiais porque há falhas na identificação da causa do óbito ou na comunicação entre autoridades policiais e órgãos de saúde.

O crescimento dos homicídios ocultos não é apenas um indicador estatístico. É um sintoma de desorganização institucional. Nenhum governo pode dizer que está vencendo a guerra contra a violência quando lidera o ranking nacional de homicídios, concentra metade das cidades mais violentas do país, registra milhares de jovens assassinados e ainda vê crescer o número de mortes que sequer entram corretamente nas estatísticas.

A violência na Bahia deixou de ser apenas um problema de segurança. Tornou-se o principal obstáculo ao desenvolvimento do estado.