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Editorial
Publicado em 8 de maio de 2026 às 06:26
O novo Desenrola Brasil nasce do reconhecimento de uma realidade incontornável: a situação financeira do brasileiro chegou ao limite. O país bate recordes sucessivos de inadimplência. São 82,8 milhões de pessoas com dívidas em atraso, o equivalente a 49% da população adulta, segundo dados da Serasa. Dois em cada três brasileiros possuem algum tipo de dívida financeira. Em muitos lares, o crédito deixou de ser ferramenta de consumo para se transformar em mecanismo de sobrevivência. >
Diante desse cenário, era inevitável que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciasse alguma resposta. O problema não é reconhecer a gravidade da crise. O problema é a natureza da solução apresentada. O Desenrola 2.0 surge mais como um alívio temporário do que como uma resposta estrutural ao drama do endividamento no Brasil.>
O governo aposta em renegociações, descontos e garantias públicas para reduzir parte do peso das dívidas. A medida pode, sim, ajudar milhões de brasileiros a respirarem por alguns meses. Mas não resolve a origem do problema. E, sem atacar a raiz da crise, o país continuará produzindo novos endividados em grande escala.>
O principal motor do endividamento brasileiro hoje é o custo absurdamente elevado do dinheiro. E isso está diretamente ligado ao desequilíbrio fiscal do próprio Estado brasileiro. Quando o governo gasta mais do que arrecada, aumenta a dívida pública, amplia a desconfiança do mercado, pressiona a inflação e obriga o Banco Central a manter os juros em patamares elevadíssimos. A Selic está hoje em 14,50%. Na ponta, isso significa juros ainda mais brutais no cartão de crédito, no cheque especial e nos empréstimos bancários.>
É justamente esse ambiente que transforma pequenas dívidas em bolas de neve impagáveis. Não existe programa de renegociação capaz de vencer permanentemente juros tão altos. Sem equilíbrio fiscal, qualquer Desenrola vira apenas um paliativo. Ou seja, uma espécie de analgésico econômico que reduz a dor momentaneamente, mas não cura a doença.>
Além disso, chama atenção a letargia do governo para enfrentar um problema que já vinha crescendo há bastante tempo. O número recorde de inadimplentes não surgiu da noite para o dia. O governo demorou para reagir e, quando reagiu, apresentou uma medida insuficiente para alterar estruturalmente a realidade econômica das famílias brasileiras.>
Há ainda um evidente componente eleitoral no lançamento do programa. Lula chega à metade do mandato enfrentando desgaste crescente e perda de competitividade. A pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta semana mostra empate técnico entre o presidente e o senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno: 45,3% para o senador contra 44,7% para Lula. Não por acaso, o Desenrola 2.0 surge justamente no momento em que o governo tenta recuperar popularidade diante do aumento da insatisfação econômica.>
O problema é que programas emergenciais não substituem a responsabilidade fiscal. O Brasil não precisa apenas renegociar dívidas. Precisa é de equilíbrio das contas públicas, queda consistente dos juros e um ambiente econômico minimamente saudável para as famílias. Sem isso, o país seguirá preso a um ciclo pernicioso: o governo continuará criando desequilíbrios fiscais, os juros subirão, a população se endividará e, depois, novos programas de renegociação serão lançados para aliviar temporariamente uma crise que o próprio Estado ajudou a criar.>