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Editorial
Publicado em 22 de maio de 2026 às 06:00
Há tempos este jornal vem alertando para a deterioração silenciosa e agora cada vez mais explícita do Planserv. O plano de saúde dos servidores estaduais da Bahia atravessa uma crise que deixou de ser apenas financeira ou administrativa. Tornou-se também uma crise de confiança. E os fatos recentes indicam que o cenário tende a piorar. >
A decisão do Tribunal de Contas do Estado de cobrar explicações do governo Jerônimo Rodrigues sobre os critérios dos reajustes, a transparência das informações e a manutenção da rede credenciada não surgiu do nada. Ela é consequência direta do acúmulo de denúncias, da insatisfação crescente dos beneficiários e da percepção de que o modelo atual entrou em rota de desgaste acelerado.>
Os reajustes aplicados após a mudança na legislação estadual ultrapassaram 100% para parte dos servidores. Ainda que planos de autogestão não sigam exatamente as mesmas regras dos planos privados regulados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), há um princípio básico que não pode ser ignorado: aumentos precisam ser razoáveis, transparentes e tecnicamente justificados. Quando isso não acontece, a judicialização vira caminho inevitável.>
E ela já explodiu. O salto de 403 ações judiciais em 2024 para 1.078 em 2025 (aumento de 167%) não é um detalhe estatístico. É um termômetro claro do grau de insatisfação dos beneficiários. Em 2026, o volume segue elevado. Isso demonstra que o problema deixou de ser pontual para se transformar em estrutural.>
O mais preocupante, porém, talvez seja o efeito em cadeia que começa a se desenhar. A própria Justiça baiana, ao conceder liminares (decisões provisórias) suspendendo reajustes considerados abusivos, reforça um movimento que pode aprofundar ainda mais a crise do plano. Afinal, quanto mais beneficiários deixam o Planserv menor tende a ser a arrecadação do sistema. E quanto menor a base de contribuintes, maior a pressão financeira sobre os que permanecem.>
É um círculo perigoso. O aumento afasta usuários. A redução da base arrecadatória pressiona as contas. A crise financeira desestimula hospitais, clínicas e médicos a permanecerem credenciados. A rede piora. A insatisfação cresce. E novos beneficiários saem do sistema ou recorrem à Justiça.>
O governo ainda tem tempo para enfrentar o problema com transparência, diálogo e planejamento consistente. Mas é importante salientar que se insistir apenas na lógica do reajuste sem reconstruir a confiança dos beneficiários pode acelerar um processo de esvaziamento difícil de reverter depois.>