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Editorial
Publicado em 3 de abril de 2026 às 05:00
A Bahia vive hoje uma crise silenciosa, mas profundamente sentida, na segurança pública: o medo deixou de ser exceção e passou a ser rotina. Os dados são claros e reveladores. Seis em cada dez baianos de Salvador apontam a segurança como o principal problema da cidade. Não é um número qualquer. É um retrato fiel de uma sociedade que vive sob tensão. >
Mas o problema vai além das estatísticas. Ele se materializa no cotidiano. Está na escolha do caminho mais longo para evitar uma área considerada perigosa. Está na decisão de não sair à noite. Está no hábito cada vez mais comum de carregar um “celular do ladrão”. Está, sobretudo, na mudança de comportamento de uma população que passou a organizar a própria vida em função do medo.>
A cidade, que deveria ser espaço de convivência, virou um território de cálculo. E esse talvez seja o aspecto mais preocupante: o medo já não depende da experiência direta com a violência. Não é preciso ter sido assaltado, baleado ou ameaçado para viver sob insegurança. A simples sensação de vulnerabilidade é suficiente para alterar hábitos, restringir a circulação e reduzir a qualidade de vida.>
Quando isso acontece, o impacto é coletivo. A vida urbana perde vitalidade. Espaços públicos são esvaziados. Atividades simples, como caminhar, usar transporte público ou frequentar um bar, passam a exigir planejamento. A liberdade, que é um dos pilares da vida em sociedade, torna-se condicionada ao risco.>
Ao mesmo tempo, o contexto mais amplo reforça esse sentimento. A Bahia aparece de forma recorrente entre os estados com piores índices de criminalidade do país, o que amplia a percepção de insegurança e projeta uma imagem negativa para dentro e fora do estado. Some-se a isso o crescimento de crimes especialmente graves, como as tentativas de feminicídio, que avançam de forma alarmante e evidenciam a complexidade do problema.>
Neste cenário, instala-se uma crise de confiança. O cidadão deixa de acreditar que o Estado é capaz de garantir sua segurança. E quando essa confiança se rompe, abre-se espaço para soluções individuais, improvisadas e, muitas vezes, ineficazes. Cada um passa a se proteger como pode e a coletividade perde.>
A Bahia enfrenta um cenário em que o medo passou a organizar a vida das pessoas. Não é mais um episódio isolado, mas uma condição permanente. E enquanto isso não for enfrentado com a seriedade e a profundidade que o tema exige, qualquer narrativa que tente suavizar a realidade estará desconectada da experiência concreta da população.>