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Editorial
Publicado em 24 de abril de 2026 às 06:58
Mais da metade da população baiana vive hoje no semiárido. São 7,8 milhões de pessoas, ou 52,9% do total do estado, segundo dados divulgados pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) nesta semana. Ainda assim, a região continua longe do centro das decisões estratégicas dos governos petistas na Bahia. Não se trata de falta de diagnóstico. Os dados estão postos, reiterados ano após ano. Tem faltado, sobretudo, prioridade política. >
Os próprios indicadores econômicos escancaram essa desatenção. Em 2023, o Produto Interno Bruno (PIB) do semiárido baiano somou R$ 176,9 bilhões, com um PIB per capita de R$ 23,4 mil. Bem abaixo da média estadual, de R$ 30,4 mil. Apesar de abrigar mais da metade da população, a região concentra apenas cerca de um terço dos empregos formais. Em setores como construção civil, comércio e serviços, a participação é ainda menor, o que evidencia a baixa capacidade de geração de oportunidades.>
O semiárido ocupa 85,6% do território baiano, reúne 287 municípios e concentra polos importantes como Feira de Santana, Vitória da Conquista e Juazeiro. Mesmo assim, é uma região que segue convivendo com ciclos recorrentes de estiagem, decretos de emergência e insegurança hídrica. Um cenário que deveria ser exceção, não regra.>
Projetos estruturantes que poderiam mudar esse quadro seguem emperrados. O Canal do Sertão Baiano, há anos prometido, não sai do papel. O projeto de irrigação do Baixio de Irecê avançou com a entrada da iniciativa privada, mas o Estado não pode se omitir: é preciso ampliar incentivos e dar suporte para que a iniciativa ganhe escala e acelere o ritmo. É um sinal claro: quando há coordenação e estímulo, as soluções aparecem. O problema é que isso ainda ocorre de forma pontual, não como política de Estado.>
O mais grave é que nem o básico está garantido. Assegurar água para consumo humano deveria ser prioridade absoluta de qualquer governo e isso ainda está longe de ser realidade. Em diversas regiões, a população segue dependente de soluções emergenciais, como carros-pipa, o que escancara a fragilidade da política hídrica.>
No fim de 2024, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a suspender a operação carro-pipa por falta de recursos. O programa, financiado pelo Ministério da Integração e executado pelo Exército, foi interrompido em seis estados, atingindo 55 municípios baianos. Após a repercussão negativa, o governo alegou um problema burocrático e retomou o serviço.>
Mas o verdadeiro problema não é o erro administrativo. É o fato de que, em pleno século 21, milhares de pessoas ainda dependem de caminhões-pipa para ter acesso ao mínimo: água.>
Enquanto isso, áreas do semiárido baiano já enfrentam processos avançados de desertificação, um fenômeno silencioso, mas devastador, que compromete o futuro econômico e social da região. Ainda assim, o tema segue tratado de forma periférica, sem a urgência que exige.>
A Bahia não pode continuar sendo governada de costas para a sua maioria territorial e populacional. Se mais da metade dos baianos vive no semiárido, é lá que deveriam estar concentrados os grandes esforços de planejamento, investimento e inovação. O que se vê, porém, é uma agenda fragmentada, reativa e aquém do desafio. Não falta diagnóstico. Falta decisão.>