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A Ilha de Itaparica te humilha, pelo menos na chegada e na saída

A coisa tá tão feia que até suponho um “por mim romba”, pra justificar a bendita ponte que nunca sai

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 28 de outubro de 2023 às 11:00

Nossa casinha na (bela, amada, heróica e sofrida) Ilha de Itaparica vai fazer 50 anos. Antes dela, Mainha já frequentava a casa de Dona Nilzeth, indo e voltando de navio. Em minhas primeiras memórias, não havia energia elétrica e quando instalaram a gente nem gostou. A frágil iluminação pública era garantida – das 19h às 22h - pelo gerador, vulgo “motor”, operado por Ioiô Galego.

Xebeu e Bola eram os pescadores mais chegados. Dona Adelaide tirava as espinhas das sardinhas que Mainha fritava. A gente passeava na canoa de Bola e brincava de “cozinhado” com as crianças da vizinhança. Não existia protetor solar, essa obrigatoriedade contemporânea. Todo mundo trocava de pele e ninguém se importava.

Dos 12 meses de cada ano, três eram lá. De forma que primeiro beijo, primeiro namorado, primeira paixão, primeira transa, foi tudo naquele cenário. Muita beleza na vida, nada a reclamar. Também a primeira vez em que saí de casa, numa fuga coletiva organizada por mim, aos seis anos.

Só não deu certo porque Dona Nilzeth estranhou aquele rebain de menino andando sozinho pela vila, chamou todo mundo pra comer pipoca e avisou aos nossos pais que, nervosíssimos, nos resgataram. Eu, que era a mais “velha” das crianças - e mentora intelectual da rebelião - só escapei dos tapas de Mainha por causa de meu avô Waldyr que tava lá e achou tudo mais engraçado do que grave.

Por mais esforço que eu faça, não lembro de um Verão sem a ilha, além daquele ano em que eu morava fora do Brasil. Tirando esse, pelo menos uns dias sempre tem. Quando me separei, em 2011, peguei meu neném e praticamente me mudei pra a casinha. Só fomos embora - ainda sem querer - quando chegaram as águas de março.

Antes disso, deu tempo de Leo ser batizado naquela igrejinha (numa festa linda organizada por meus pais), falar “mamãe” pela primeira vez e conhecer o mar. Também de chupar manga, se melar na areia e fazer todas aquelas coisas que bebês só fazem na beira da praia. Aproveitei e apresentei a meu rebento pros residentes e veranistas resistentes, amigos de toda uma vida.

Ao longo do tempo, muita gente desistiu da ilha. Seduzidos por endereços mais nobres e organizados, venderam as casas e compraram outras, principalmente pro lado do Litoral Norte. Nunca vi muita graça. Posso passar uns dias, fazer uma visita, mas não é a mesma coisa. Por aqui, continuamos levando a sério “veranear” e esse verbo, pra mim, se conjuga na Ilha de Itaparica, por mais nervoso que ela me faça passar.

Os nervosos são variados, cada ano tem um diferente. A depender da localidade, também vão mudando. Pode ser “paredão”, falta de coleta de lixo, poluição ou violência. Isso, no olhar da veranista. Moradores apontam esses e outros até mais graves e estruturais. Mas tem um que nunca muda e atinge todo mundo, seja quem mora ou quem só frequenta no Verão: a ilha te maltrata e humilha, pelo menos na chegada e na saída.

A não ser que você arrodeie e venha de carro, pela estrada, passando pela Ponte do Funil e já comprando umas lambretas pra lavar de escovinha (no mar) e cozinhar em casa (com cebola e azeite doce). Nos bares, elas estão pela hora da morte, aviso logo porque já fiz a inspeção deste Verão, no feriado de outubro. Mas divago.

Planejando meu veraneio (com trabalho, mas home office é em qualquer lugar), entre Salvador e a ilha, já me arrepio ao pensar no ferribôti ou na possibilidade de ter que encarar o combo “lanchinha de Mar Grande ou férri + van”, caso eu fique sem carro. Meu Cliozinho nunca viu uma revisão tão completa quanto a que acontecerá. Também vou pendurar fitinha do Bonfim e guia de tudo que for orixá.

A precariedade sempre foi muita, é verdade. Há apenas breves intervalos de dignidade. Na época em que “podia” beber dirigindo, a gente ia pro férri com as latinhas no isopor porque sabia que em menos de cinco horas não se atravessava. A fila já era parte do programa. Tinha violão, fazer amizade, arranjar namorado. Aí eu não sei se meu desespero atual é porque já tô perto dos 50 e não bebo mais como antes ou se o negócio piorou de fato.

A coisa tá tão feia que até suponho um “por mim romba”, pra justificar a bendita ponte (Salvador/Ilha) que nunca sai. Mas, olhe, tá demais. Se antes da pandemia o homem já gritou comigo quando me neguei a embarcar – com meu filho pequeno - na lanchinha claramente superlotada, imagine agora que o povo que administra olha pra a visão do inferno que é uma foto do ferribôti no feriado que passou e diz que não viu nada demais?

Ferribôti e lanchinha - além das vans e ônibus que saem distribuindo gente pelas localidades - é tudo muito problemático. Não estou falando da falta de “luxos” como cintos de segurança em coletivos e ares-condicionados. O roots não me incomoda, pelo contrário. Dondoca nunca fui, não sou nem serei, o buraco é mais embaixo e não tem nem a ver com conforto ou comodidade. Sequer com níveis de segurança mais avançados. Só queria mesmo o básico.

Por exemplo, eu sei que se faz Salvador/Mar Grande a nado, mas nunca treinei em águas abertas e tenho medo de despencar no mar. Pode acontecer a qualquer momento, em qualquer lancha daquelas, basta ser feriado e ter sol. Ou o Verão chegar. Vá lá nesse agora de Finados pra você ver se eu tô mentindo. Mas evite levar crianças ou qualquer pessoa com dificuldade de locomoção porque um dos riscos que se corre é o de ser pisoteado, principalmente no embarque.

Use tênis. Enfie o celular na calçola ou na cueca. Bote a mochila pra frente e não vacile nem por um segundo. Fique ligado e corra pra dentro na embarcação assim que o moço liberar. Se arranjar um lugar, sente e não levante mais até chegar ao destino. Aí fica mais tranquilo, ainda que não exista meio de evitar pelo menos duas pessoas lhe apertando, uma de cada lado.

Na opção “férri de carro”, depois de embarcar é só “curtir”, de dentro do automóvel, o balanço das pessoas se amontoando ao redor e empurrando o carro. Assista à multidão pelos vidros fechados, você está num aquário. Sorte sua poder ligar o ar condicionado. Aí, seu problema só foi mesmo passar o dia todo na fila, fique calmo. Se você fez xixi antes do embarque, então, tá suave. Porque os banheiros são lá em cima e fedem demais.

Agora, se for a pé, você tá muito lascado. De longe, “férri a pé” é a pior possibilidade pra entrar e sair da ilha. Procure as imagens que elas são autoexplicativas e eu nunca vou esquecer do Uno azul que eu trouxe agarrado na minha bunda, de Salvador a Bom Despacho, porque eu não conseguia nem me coçar que dirá procurar outro lugar mais folgado. Fora que tem sempre pelo menos um cachorro nervoso, uma criança desesperada e um bêbado ameaçando vomitar. Ah, e algum som escroto bem alto.

Em meus pensamentos, eu só clamo pelos chineses. Ou por esse homem que tá reformando várias ilhas, sobre quem ninguém fala nada, mas todo mundo sabe. Minha esperança é ele querer se “amostrar” botando uns barcos e uns ônibus pra levar e buscar a gente, ainda neste ano. Outra opção seria eu voltar aos 17 e ver tudo com olhos de birita e farra. Desconsiderar os perigos, não procurar por dignidade. Achar normalíssimo gente ser tratada como saco de batata e ainda dar risada. Mas aí tá mais complicado.

Então, vamos a outro Verão de delícia e agonia, resistindo no amor, conjugando veranear, falando do que ninguém quer ouvir. Só digo uma coisa: qualquer desgraça que aconteça ali – entre férri, lanchinha e transporte coletivo terrestre dentro da ilha – não é acidente. É crime. E bastante anunciado. Há imagens, documentos e denúncias, faz tempo. Assim como o recente registro da Internacional Travessias dizendo que tá tudo normal. Então, tá.

Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo