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Publicado em 26 de agosto de 2023 às 10:00
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Acabaram as noites insones, os grunidos, o desespero por rua, noite e telhados. Findou-se o costume de se esfregar nas visitas, também a lascívia até com controles remotos, colchões e sapatos. Finalmente, não há mais espalhamento de feromônios em meu guarda-roupas e no sofá. Não tem mais xixi pela casa. >
Nem a cadela ela pirraça mais, pois está ótima e equilibrada. Mafalda - nossa gatinha vira-lata tricolor - foi castrada e o apelido “Pequeno Demônio” não lhe serve mais. Enquanto escrevo de portas abertas (coisa impensável até 15 dias atrás) a felina ronrona ao meu lado, na mais absoluta tranquilidade. >
Ao observar a súbita paz holística e multidisciplinar de Mafalda, invejei. Brinquei que também queria me castrar, postei isso nas redes sociais. Alguém me disse “aguarde a menopausa que é massa!” e lembrei que não menstruo há alguns meses, já. >
Juntando esse dado aos meus 49 anos, concluo que é mais fácil ser a primeira fase dela - o controverso climatério - do que uma gravidez indesejada. Até porque não tive esses outros sintomas em nenhuma das duas vezes em que estive enxertada. >
Mas também pode ser rastro da covid, pensei, antes. Dizem que acontece de ela deixar pra trás algum esquecimento, essas dores no corpo, esse cansaço, essa preguiça de levantar. Os calorões tenho desde 2020 e não chegam a incomodar, acho um frenesi engraçado. A chegada deles coincidiu com a pandemia e atribuí a alguma ansiedade.>
Mudanças repentinas de humor sempre tive que a minha TPM é (ou era!) de lascar. De forma que - do conjunto de acontecimentos físicos simultâneos no qual me encontro - a diminuição da libido é o único que, além de ser “inovação”, só pode ser explicado pela idade.>
(Sim, eu sei, já comecei meu check-up.) >
Ou seja, caiu a ficha e acho que posso me adiantar ao resultado dos exames. Devia até fazer um “chá de revelação” que agora pra tudo se faz. A notícia é: finalmente, entrei para a estatística da minha bolha onde há muitas mulheres da minha faixa etária e uma epidemia de climatério/menopausa. >
As amigas estão “pegando”. Todas. Sintomas bem parecidos, em diferentes intensidades. Várias e diversas abordagens. De chá de amora a reposição hormonal, cada uma encara e se vira como pode, dentro da própria história pessoal. >
Algumas estão desesperadas, outras nem sentem nada nesse funeral da função reprodutiva, na despedida do “multiplicai-vos”. Eu tô no meio, do meu jeito. Cheia de incômodos e, às vezes, bem desanimada. De vez em quando, não me reconheço e isso é estranho. Mas, no geral, tô no modo "encarar com naturalidade". >
As mulheres da minha família lidam bem com a passagem do tempo, nunca vi nenhuma mentindo idade, por exemplo, nem com grandes dificuldades no climatério ou na menopausa. Talvez, por sorte, isso esteja impresso em meu DNA. Fato é que gosto da ideia de "mudança de fase". Talvez, eu esteja até animada. Com certeza, muitíssimo curiosa por um lado e explico: se eu ficar mesmo sem tesão genérico, acho que vai ser massa.>
Pelo menos por ora, minha cabeça - que muita gente já chamou de “masculina” - tem pensado bem menos em sacanagem. Tô gostando disso, ainda que muitas mulheres rebatam dizendo “deus me livre” e recorram, muitas vezes principalmente por esse motivo, à tal reposição hormonal.>
"Da qual eu viria se lá estivesse". Tem os perigos desses negócios sintéticos (nunca nem tomei anticoncepcional) e acho poesia que a natureza nos ofereça a possibilidade de, finalmente, trocar fôlego por know how. Quem sabe, até, o charme da “demissexualidade” que sempre achei inexplicável, mas...>
“Pra você é fácil, só que eu sou casada”, me disse uma amiga que já foi atrás do hormônio sintético pra repor o antigo tesão porque o marido já estava a reclamar. Ela mesma não me pareceu incomodada, a preocupação de "não dar conta" dos desejos do "companheiro" (tome-lhe aspas) parece gritar mais alto. Fiquei aqui pensando na triste sina da mulher heterossexual casada. >
Quer dizer, passa a vida se entupindo de anticoncepcional. Aí, quando a natureza oferece a possibilidade de um cessar fogo hormonal, ela se enche de inseguranças e precisa dar um drible – de novo com hormônios – para ser “a de antes”, pra ter a mesma e igual vontade de transar. Eu acho solidão demais e talvez elas devessem receber alguma indenização por insalubridade, na moral. Mas isso é outro papo.>
Pode ser que eu não entenda nada. Ou "romantizo", quem sabe? Mas a verdade é que estou aqui, com minhas pernas cruzadas, curiosíssima sobre essa nova sexualidade. A que nível de seletividade podemos chegar, depois de “castradas”? Aonde podemos ir sem urgência ou necessidade? Se a perpetuação da espécie não conta mais comigo, sexo passa a ser, necessariamente, por conexões mais profundas do que as carnais? >
Finalmente “castrada”, transarei, pelas primeiras vezes na vida, só por prazer e encontro? Ou só por amor profundo? Interessante pensar nisso tudo, acho. Não sendo eu uma Mafalda, a minha racionalidade me manterá sexual, nos telhados? Ou, daquele jeito, nunca mais?>
Transar vai ficar sem graça e terei vida plena no celibato? Vou me encher de energia para outros assuntos quando sexo deixar, definitivamente, de ser prioridade? Quem vai me atrair, por qual motivo, quando e se? Como será meu desejo a partir daqui? Por fim, será que tem razão quem diz que, depois de passado o climatério, com a menopausa estabelecida, a libido volta ao “normal”? Como será esse “novo normal”? >
Ando tão ansiosa quanto uma debutante por essa nova sociabilidade sexual. Por enquanto, muitas perguntas, mais de dez sintomas, algumas queixas e somente uma certeza: no climatério, a diminuição do tesão é a melhor parte. De resto, vou ali viver e aproveitar a bênção de não ter homem me cobrando nada. Sem mais para o momento, despeço-me cordialmente. Tchau.>
Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo>