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Hagamenon Brito: Brasil, dos filhos deste solo não és mãe gentil

  • Foto do(a) author(a) Hagamenon Brito
  • Hagamenon Brito

Publicado em 1 de abril de 2014 às 04:27

 - Atualizado há 3 anos

Brasil, ame-o ou deixe-o, diziam os militares que tomaram o poder em 31 de março de 1964. O slogan não era uma simples frase de efeito de propaganda - quem não estivesse de acordo com o tipo de “amor” propagado pela ditadura deveria arcar com as consequências. O buraco era mais embaixo, mesmo que a maioria da população "apoiasse" o governo militar, ao contrário do que muitos dizem hoje, como se o Brasil das décadas de 1960 e 1970 tivesse um grande nível de conscientização política ou algo do gênero.

De um lado, repressão, arbítrio e tortura como política de Estado. Do outro, um regime que acelerou o processo de modernização do país. Como analisa o bom livro A Ditadura que Mudou o Brasil - 50 Anos do Golpe de 1964 (Zahar, 272 páginas, R$ 49,90/papel e R$ 34,90/e-book), de Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta, em duas décadas grandes mudanças alteraram para sempre a fisionomia da sociedade: urbanização, industrialização, costumes, instituições políticas, vida cultural.

Passei a infância, adolescência e o começo da minha vida adulta no período da ditadura e, embora ninguém próximo de mim tenha sido perseguido ou sofrido algum tipo de violência física por parte do regime, o slogan Brasil ame-o ou deixe-o nunca significou nada para mim, nunca mexeu emocionalmente comigo.

Desde que me entendo por gente, não sinto amor no sentido patriótico e, no começo da vida adulta, só não deixei o Brasil porque que não suportaria ficar longe dos meus entes queridos e porque não saberia viver como um possível “cidadão de segunda classe” nos EUA ou na Europa.

Mas, em vários sentidos, o mundo mudou para melhor da década de 1980 para cá - ficamos mais globalizados, com possibilidades de ter mais de um lar no planeta. Hoje, diante do que o Brasil se tornou, eu entendo melhor o jovem que vai estudar, trabalhar e procurar desenvolver sua vida no exterior, em um país onde ele possa desfrutar de bem estar-social, onde as leis sejam cumpridas, com o cidadão merecendo respeito e relações decentes de convívio em coletividade.Meu pai me dizia que eu, provavelmente, viveria em um Brasil melhor. Por sua vez, ele ouviu isso do meu avô. Até que o país melhorou muito nestas últimas décadas, mas é pouco.

Desenvolvimento de economia não significa, necessariamente, bem-estar social. A base para o bem-estar social é uma boa educação, é o que difere países com sociedades civilizadas de outros como o nosso, onde a democracia ainda nem é plena, onde a violência é alta e os valores morais, as noções de certo e errado, estão fora da ordem.

Tem algo profundamente errado, doentio, por exemplo, com um país no qual o número de estupros supera o de homicídios dolosos (quando há intenção de matar). Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública sobre 2012, o país registrou 50.617 casos de estupro naquele ano, enquanto o número de homicídios dolosos foi de 47.136 - foram 26,1 estupros por 100 mil habitantes e 24,3 homicídios dolosos por cada 100 mil habitantes.

Estupro é crime hediondo (delito que merece maior reprovação pelo Estado), uma selvageria que vitimiza uma em cada 14 mulheres no mundo. E ainda me vem agora essa pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) dizer que 58,5% dos entrevistados concordam totalmente ou parcialmente com a frase “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”? Quer saber, Brasil? Você é uma merda.