Sobre Unir, Sobre Desunir

O identitarismo pode ser tão exaustivo quanto os sistemas que impõem uma igualdade artificial

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  • Matheus Oliva

Publicado em 13 de janeiro de 2024 às 11:00

Há exatos 126 anos, em 13 janeiro de 1898, na França, o jornalista Emile Zola publicou no jornal L’Aurore, em primeira página, carta aberta ao então Presidente Francês Felix Faure, intitulada “J'Accuse…!". Emile Zola acusou publicamente um Tenente Coronel, quatro Generais, três peritos calígrafos, o Ministério da Guerra e os primeiro e segundo Conselhos de Guerra. As acusações versavam sobre o caso Alfred Dreyfus, um Tenente Coronel do Exército Francês, judeu, descaradamente injustiçado, tornado bode expiatório de uma acusação farsesca de espionagem. O caso Dreyfus tinha como pano de fundo questões anti-semitas. Dreyfus foi incriminado, degradado em praça pública e condenado a prisão perpétua. Foi enviado para a colônia prisional da Ilha do Diabo, Guiana Francesa, no outro lado do Atlântico. Após o levante de Emile Zola e Antone France, Nobel de Literatura em 1921, o caso foi revisto e Dreyfus terminou inocentado. Honradamente, reavidas suas credenciais militares, ainda batalhou pela França na primeira guerra mundial. A saga dos judeus sobre a superfície do planeta é recheada de períodos persecutórios, discriminação, preconceito e toda sorte do que surgir de sentimento anti-humano dentro do ser humano. Netanyahu calcifica essa sina, não dissolve.

No caso Dreyfus, duas minorias em uma só pessoa foram aviltadas pelo Estado Francês. A primeira minoria, a mais evidente em voga, no conceito de minoria, o ser judeu, honrado militar, foi envolto numa farsa abominável. A outra minoria, mais esquecida da temática atual, a menor das minorias, o indivíduo. Dreyfus foi vítima de instituições do Estado. Privado de sua liberdade, por indivíduos poderosos do Estado.

A preservação e o respeito a culturas identitárias é fundamental. É a potência da mistura que eleva o conhecimento e o espírito humano. O molho do caldeirão da vida é muito mais saboroso com ingredientes diversos. A mistura não é um dever. É um saber. Não progridem aqueles que se fecham na caverna de Platão. O identitarismo emerge no presente como uma força cintilante de correção de injustiças. Ouro de tolo, é um engano. Confunde-se identidade com igualdade. Engano crasso. Quanto mais identidades surgirem, mais divisão haverá. Dividir para governar, ensinou Maquiavel. Os arroubos bestiais dos indivíduos ignorantes, superficiais e grosseiros das redes sociais são os mesmos dos humanos das barbáries de outrora. Quando tem-se uma turba inquieta, polarizada, sem consenso, desperta-se no poderio das instituições espíritos autocráticos, disfarçados de democráticos. Indivíduos se confundem com seus cargos, levando para seus gabinetes institucionais suas crenças, suas morais, seus pontos de vista. Poder é o lugar de fala. O poder sobre outros seres humanos, desprovidos de condições de defesa contra tirania do Estado. O identitarismo, quando se torna um sistema de imposição de identidades e barreiras, pode ser tão exaustivo quanto os sistemas que impõem uma igualdade artificial.

Há 129 anos, em 07 de janeiro de 1895, três anos antes do francês Emile Zola, no caso farsesco Dreyfus, Rui Barbosa foi o primeiro indivíduo de renome internacional a levantar suspeitas à farsa institucional em defesa do então réu. O incrível soteropolitano, cuja biografia deveria ser estudo em todas as escolas do país, de Londres, enviou artigo para o Jornal do Commercio, RJ, narrando as aberrações do caso. Batalhador de direitos e garantias individuais, Rui Barbosa, se não o maior, talvez um dos maiores brasileiros da história, muito ensinou sobre o perigo das injustiças institucionais. Enquanto o identitarismo desunir, o indivíduo estará desprotegido. Quando houver união em torno do indivíduo, no melhor estilo “um por todos, todos por um”, lema solidário suíço, imortalizado pelo francês Alexandre Dumas, ele um fruto da miscigenação, a civilização terá vencido a barbárie e as instituições passarão a servir aos que elas sustentam.

Matheus Oliva Criador

da MO - Movimento & Oportunidade [email protected]

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