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Da Redação
Publicado em 16 de fevereiro de 2023 às 06:00
- Atualizado há 3 anos
Não sei quem inventou o jornalismo bunda na Bahia. Se o Jornal A Tarde, Jornal da Bahia, Tribuna da Bahia; quem sabe, o Correio da Bahia? E tenho minhas dúvidas quanto à autoria: os pauteiros, os fotógrafos, os editores ou, não acredito, os redatores chefes? O jornalismo bunda foi um gênero jornalístico próprio da época do Carnaval e o auge dessa categoria ocorria nas edições da quarta-feira de cinzas. Empoderado de bundas em páginas coloridas, um expediente nos informava os profissionais envolvidos, não especificando os responsáveis pelo jornalismo bunda. Desnecessário esse detalhe.>
O jornalismo bunda baiano, suponho eu, inspirava-se no gênero praticado pelas revistas Manchete e Fatos e Fotos, destacando os bailes de clubes do Carnaval do Rio de Janeiro e as passistas das Escolas de Samba. Mas nossos jornais praticaram o gênero com maior desenvoltura. Os fotógrafos iam para a rua com a missão de fotografar bundas com minúsculos biquínis e em posições provocantes, de preferência na praia do Porto da Barra, e na avenida dirigiam os flashes às bailarinas seminuas que se exibiam no alto dos trios elétricos e nos carros de apoio. E outras flagradas na rua.>
Se as fotos eram de iniciativa dos fotógrafos, ou seguiam uma orientação de pauta, ou ordens do editor, não sei. Descobri o jornalismo bunda na sua essência pesquisando sobre o Carnaval baiano das décadas de 1970 a 2010. Algumas fotos já conhecia, então a maioria não e me impressionou pela desenvoltura. E havia a iniciativa dos editores de ampliar a foto e publicar em página inteira, a destacar os glúteos, inclusive num jornal tido como tradicionalista e conservador, onde o redator-chefe e o secretário viajavam durante os festejos e no retorno lá estavam as bundas em várias páginas, contrariando o espírito puritano.>
Um jornal baiano ousou mais do que os outros e fez da bunda uma vinheta, publicada diariamente nas páginas de cobertura do pré-Carnaval, dias antes da abertura oficial, onde se noticiavam festas de blocos, ensaios, ordem dos desfiles e os costumeiros protestos dos barraqueiros, e em tempos mais recentes as ameaças de greve de rodoviários e policiais. A vinheta consistia em uma bunda com dizeres da música de Luiz Caldas, o Fricote - "Pega ela aí" -, alguma coisa nesse sentido. O jornalismo bunda não era, esclareço, jornalismo de má qualidade. Era explícito, mostrava o que a rua mostrava e se destacava porque vendia nas bancas.>
As edições da quarta-feira de cinzas eram aguardadas com expectativa pelos que brincavam Carnaval e, também, pelos que não brincavam, sob qualquer pretexto, mas lá estavam folheando e se deliciando com as resenhas fotográficas da festa. E os jornais caprichavam para se encherem de fotos e de anúncios, que lhes rendiam um bom troco. A bunda era um ícone da festa, não podia ser relegada à categoria de notícia de segunda, era prioridade e isso os editores entendiam. Já os fotógrafos aproveitavam o espírito reinante de safadeza e mostravam o seu talento no foco do flash.>
José de Jesus Barreto (Barretinho) e Césio Oliveira incursionaram pelo jornalismo bunda textual, em edição da revista Playboy ilustrada com muitas fotos. O escritor João Ubaldo Ribeiro, ouvido pelos repórteres, não mediu a língua, referindo-se às mulheres do Sul do país: "Elas chegam na Bahia e encontram no baiano a descontração, o culto à irresponsabilidade, a putaria total, o apelo à sua liberação". E completava o raciocínio: "Dizem que o baiano é devagar, é preguiçoso, manhoso, gostoso, só quer festa e putaria". Pela mesma época, a revista Homem circulou com uma bunda, em toda a capa, ilustrando o título: Especial - Todo o erotismo da Bahia. >