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Da Redação
Publicado em 6 de fevereiro de 2015 às 03:28
- Atualizado há 3 anos
Em fevereiro de 1895 os baianos assistiram pela primeira vez o desfile de um bloco afro no Carnaval de Salvador. O Embaixada Africana desfilou na avenida com seu carro alegórico de ideias, como se chamava naquele tempo o Carnaval de enredo, as “lindas crioulas” chamaram a atenção da conservadora imprensa da época. Era um bloco composto por africanos e mestiços. Desde então, os blocos afros fizeram valer a sua presença na avenida. Foi assim até 1905, quando uma portaria da Secretaria de Segurança proibiu-os de desfilar. >
A Embaixada Africana não era pouca coisa. Era um bloco de grande porte que se orgulhava de rivalizar no luxo e ostentação com os clubes tradicionais da época: Cruz Vermelha e Fantoches. A mídia estranhou o luxo e se permitiu fazer comentários preconceituosos, sugeria que os negros passavam fome o ano inteiro, comiam “caruru de 50 dias para não gastar dinheiro”.>
Em 1898, a Embaixada desfilou com portentosa cavalaria e um carro alegórico representando os caçadores de Quioto do Reino de Angola, com seus reis e mucamas e outros personagens da história. O tema musical era em nagô, com predominância da percussão. O tema do enredo do ano seguinte, 1899, dizia: “Povo tudo di Bahia/Noi que vem de legação/Non tim fôça pra contê/tristeza di coração”. >
Então já desfilava além da Embaixada um outro bloco afro, Pândegos da África, o das “crioulas apaixonadas”, que em 1897 protagonizou um enredo em homenagem à Mãe D’Água: “Aoderece/É qui êmanjá/Potêbeléhê/Aouai torotim/Hilâ Choreuê”. Desfilou com carro alegórico representando a festa da Rainha do Mar em Lagos, Nigéria. Os músicos usavam figurino indígena com avental sobreposto num calção curto.>
Final do século XIX e início do século XX foi o auge dos blocos afros. Surgem, além dos já citados, Chegada Africana, Filhos da África, Congada Africana, Guerreiros da África, Lembrança dos Africanos, Papai Folia, Mamãe Arrumaria, Folia Africana, Lutadores da África e Império da África. >
Eram, na verdade, afoxés, interpretando músicas do terreiro, cânticos em nagô, puxados por atabaques, xequerês e agogôs. Todos ligados à matriz religiosa do candomblé, a imprensa assim os reconhecia: “Candomblés de rua”. Desfilavam com arautos abrindo o cortejo, atrás vinha o carro principal puxado por cavalos, em seguida a guarda branca, o babalotim (o boneco fetiche) e, logo na sequência, o estandarte e a charanga entre os carros alegóricos. O arauto e o estandarte nos remetiam à influência dos Ternos de Reis e das Congadas, influências marcantes também no desfile dos blocos de elite. O fato é que os afros faziam bonito na avenida, apesar da incompreensão da mídia: “Para ver esta africanagem estúpida que aqui temos não vale a pena sair de casa”, escreveu o redator do jornal A Coisa, em 19/2/1899.>
Transcorrida uma década do primeiro desfile dos blocos afros veio a censura. O artigo primeiro de uma portaria da polícia dizia não ser permitido “a exibição dos clubes de costumes africanos com batuques”. Teria sido o fim dos afros no Carnaval se não fosse a resistência de seus protagonistas que, se recuaram para não atrair a repressão, retornam com força ao Carnaval de rua na década de 20. É outro momento dos afros. Tempo do Bambá sem Dendê, dos Filhos do Congo e do retorno em grande estilo do Império da África, Guerreiros da África, Lordes Africanos, dentre outros. >