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Paulo Sales
Publicado em 4 de outubro de 2021 às 05:01
- Atualizado há 3 anos
De acordo com a teoria do caos, concebida pelo meteorologista norte-americano Edward Lorenz nos anos 60, uma mudança aparentemente insignificante no curso dos acontecimentos pode provocar consequências imponderáveis. É o chamado efeito borboleta, segundo o qual o ligeiro ruflar das asas de uma borboleta no deserto do Saara pode provocar, digamos, um maremoto na costa de Nova York.>
Partindo desse pressuposto, e transpondo para uma leitura mais metafórica, eu me pergunto: quais as consequências, sobre a nossa consciência, do que temos presenciado ultimamente? Qual o efeito borboleta produzido por uma foto que mostra pessoas disputando ossos, pelancas e carcaças de bois desprezados por açougues e mercados? Ou, para ficar em outro exemplo trágico, o que sentimos ao saber que uma mulher morreu após ter 90% do corpo queimado enquanto cozinhava com álcool, por não ter dinheiro para comprar gás?>
São, evidentemente, fatos infinitamente mais concretos que o hipotético bater de asas de uma borboleta. Deveriam, portanto, provocar em nós um enorme tsunami de repúdio e indignação. Deveriam. É possível que em algum momento tenhamos desenvolvido anticorpos mentais, capazes de fazer essas cenas e notícias ricochetearem para longe das nossas preocupações diárias. Vamos vivendo, é o que importa.>
Será que, com o acúmulo dos anos, algo em nossas reservas morais vai lentamente se pulverizando? Nosso semblante anestesiado traduz uma resignação impotente, devidamente amadurecida em barris de sofrimento alheio. O efeito borboleta reverbera a desgraça e ela aos poucos se aloja como um torpor em nosso peito, na inquietude silenciosa das horas, enquanto assistimos à tevê, desempenhamos alguma tarefa cotidiana ou caímos no sono.>
Deixamos de lado o disparate das cenas dantescas desabando ao nosso lado para preservar a lucidez. Deixamos de lado até mesmo episódios tenebrosos, como as cobaias humanas nas mãos de uma seguradora de saúde que deveria salvá-las, trazendo à tona uma sórdida semelhança com experimentos nazistas. É duro demais para seres humanos sensíveis. Daí a nossa letargia, a nossa indiferença. Caso contrário, nossa mente absorveria todas as tragédias que se sucedem neste Brasil em decomposição e nossas cabeças explodiriam como num filme de David Cronenberg.>
Não creio, porém, que passaremos incólumes por tudo isso. Uma hora não será mais possível aceitar passivamente a destruição de um país perpetrada por um sujeito com o desenvolvimento mental de uma pulga. Com o avanço da metástase, nem doses altas de morfina podem estancar a dor. O efeito borboleta uma hora se transforma em algo imprevisível e incontrolável: uma espécie de efeito bumerangue, que lança de volta tudo de ruim que estamos recebendo.>
Quando essa hora chegar, o tsunami de repúdio e indignação vai varrer toda a boçalidade, truculência e abjeção para bem distante – de preferência, uma cadeia. Porque, como diz uma canção que eu ouvia muito na adolescência, chega um momento em que “é impossível reprimir o que acontece toda vez: que alguém acorda, porque já não aguenta mais, e a corda arrebenta no lado mais forte.”>