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Vanessa Brunt
Publicado em 13 de maio de 2026 às 17:01
Nos últimos anos a economia dos criadores de conteúdo deixou de ser uma aposta para se consolidar com uma certeza financeira. Segundo projeções recentes do banco Goldman Sachs, esse mercado global deve dobrar de tamanho até 2027, atingindo a marca impressionante de US$480 bilhões. No Brasil, país líder em consumo de redes sociais na américa latina, de acordo com a Nielsen, o cenário atingiu a maturidade. >
Nos tempos recentes a era do megafone genérico, mantida por dancinhas replicáveis e trends efêmeros que buscavam falar com todo mundo, tem perdido força devido à saturação. Hoje o verdadeiro capital de influência se encontra nos Hiper-Nichos e seu potencial de criação de comunidade.>
Confira essa nova safra de criadores de conteúdo que estão buscando se alicerçar em seus públicos e comunidades blindadas e unidas, não na busca por massa e retenção:>
1. Cley Ribeiro(@passeandocomascrias)>
O nicho de passeios e maternidade nas redes sociais costuma ser pautado por uma visão idealizada que a cirurgiã-dentista Cley Ribeiro decide não adotar, ao focar na utilidade pública voltada para a vida real. Em 2023, ao perceber a dificuldade de encontrar opções estruturadas de lazer infantil em Salvador, ela transformou suas próprias buscas em formato de conteúdo com o perfil @passeandocomascrias. O projeto se apoia na necessidade de mapear passeios acessíveis, posicionando-a como um guia prático e confiável para famílias que compartilham das mesmas rotinas.>
O poder de sua curadoria está na lente rigorosa de avaliação de cada experiência. Como mãe solo de dois meninos com diagnóstico de autismo, Cley substitui a simples resenha de lazer por uma análise de viabilidade e acolhimento. Essa vivência de mãe atípica exige que ela observe detalhes que passam despercebidos pela maioria dos perfis de entretenimento local. Na prática, seu conteúdo funciona como uma validação de segurança e inclusão para outras famílias, sendo quase uma consultoria especializada disfarçada de dicas de passeio.>
A clareza desse hiper-nicho gerou uma forte identificação, construindo uma comunidade engajada que já ultrapassa a marca de 33 mil seguidores. Cley consolidou um espaço focado em conversão e apoio, onde apresentar “possibilidades reais” tem mais valor do que fingir um estilo de vida inatingível. O seu perfil comprova que o conteúdo capaz de acolher as dores do público, possui uma taxa de fidelização alta, sendo um ativo de grande interesse para o mercado de influência.>
2. Pétala Giovanna (@petalagiovanna)>
As redes sociais estão acostumadas com o humor frequentemente se apoiando em dublagens e repetição de tendências, mas Pétala encontrou rentabilidade e público ao estruturar micro-narrativas. A, na época, estudante de direito percebeu uma lacuna no mercado de entretenimento familiar de vídeos curtos e decidiu roteirizar “novelinhas” protagonizadas por ela e crianças de sua família, dramatizando situações cotidianas que espelham o dia a dia dos brasileiros nesse formato de produção de esquetes para o formato vertical das redes sociais.>
O grande diferencial de sua operação é a agilidade na entrega e constância. Ao apostar em roteiros de “rotina”, Pétala criou um formato de conteúdo altamente replicável e de baixo custo operacional. Essa estratégia garante o volume necessário para alimentar os algoritmos das plataformas e cria um engajamento positivo que permitiu à criadora focar integralmente no meio digital após concluir o curso de direito em 2023.>
A eficácia comercial desse modelo fica evidente nos números que pétala acumula ao longo das redes sociais, com 1 milhão de seguidores no tiktok (@petalagiovanna) e mais de 500 mil no instagram (@petalagiovanna), o caso de pétala comprova uma das premissas fundamentais da economia criativa: gerar retornos expressivos necessita de volume e identificação genuína com seu público.>
3. Matheus Nasce (@matheusnasce)>
No mercado musical soteropolitano, a rota mais previsível para atrair visibilidade costuma ser a imersão nos gêneros de massa, como o axé e o pagode. Matheus Nasce, no entanto, desenhou o seu hiper-nicho em um território mais denso: a nova Música Popular Brasileira (MPB). Sem renegar suas raízes culturais, ele resgata a premissa histórica de que os grandes nomes baianos que conquistaram o país sempre se sustentaram em um extremo rigor técnico e poético. Com a mentalidade disciplinada de um advogado atuante, Matheus posiciona sua arte para um público que foge do imediatismo e busca refinamento acústico.>
Buscando entregar a excelência que esse nicho exige, o grande diferencial de seu modelo de negócios é a verticalização total da cadeia produtiva. Formado como engenheiro de áudio por estúdios de referência como Midas e Sonastério, Matheus não terceiriza a sua sonoridade; ele detém o controle absoluto desde a composição até a masterização. Essa autonomia garante a alta fidelidade sonora de faixas atemporais, como "Minha Natureza" e "Aka-lento" , que atravessou o oceano com um clipe gravado em Portugal , blindando sua obra das exigências comerciais padronizadas pelas grandes gravadoras.>
O caso de Nasce demonstra que a sustentabilidade de uma carreira independente passa por criar barreiras de entrada baseadas na qualidade. Ao fundir a técnica musical de excelência com a autogestão jurídica e estratégica, ele atua, na prática, como uma gravadora de um homem só. O artista prova que o verdadeiro ativo na economia criativa não é a busca desesperada por virais efêmeros de quinze segundos, mas sim a construção de um catálogo autoral sólido, capaz de gerar satisfação artística e autoridade a longo prazo.>
4. Donaire Lago (@donairejornalistaoficial)>
Uma crença popular no meio da comunicação diz que para você alcançar realização profissional e financeira você precisa estar numa capital, mas a jornalista Donaire Lago Verçosa construiu seu público em um hiper-nicho geográfico. Enquanto atuava na capital baiana, Donaire se viu frente a um cenário de enxugamento das grandes redações e optou por um movimento estratégico imprevisível, o êxodo reverso. Após se mudar pra catu e trabalhar com comunicação local, decidiu iniciar um novo projeto e fundou a Revista Eletrônica Catu Acontece, provando que o interior não é um mercado mais fraco, mas sim um oceano não explorado de possibilidades para o jornalismo independente. >
Lago subverteu a expectativa do noticiário regional tradicionalmente engessado na cobertura política ou policial. A jornalista aplicou o rigor de grandes veículos para diversificar a pauta da cidade, implementando editoriais de comportamento, finanças, saúde e cultura. Essa disrupção editorial gerou uma tração orgânica e validou o modelo da revista: o projeto alcançou marcas como 300 mil visualizações em uma única reportagem, um número altíssimo considerando o recorte demográfico do município de Catu.>
A revista se apoia em uma gestão ágil e de compromisso comunitário. Catu Acontece vem pautando combate à desinformação e o enfrentamento à violência contra a mulher, Donaire então consolidou o veículo não apenas como um portal de notícias, mas como uma autoridade cívica, demonstrando que o hiper-nicho regional gera a mais valiosa métrica de todas: a confiança e respeito da comunidade.>
5. Oh Blogueiro (@israellopestv)>
No cenário musical baiano, a transição dos bastidores para o protagonismo costuma seguir a rota tradicional de shows físicos, rádios e por fim a internet, no entanto, o produtor audiovisual Israel Lopes inverteu essa lógica ao criar o projeto “Oh Blogueiro”. Com uma década de experiência técnica como cinegrafista de tv e trabalhando na produção de pagode, ele transformou sua vivência de bastidor em um modelo de negócios focado no streaming. Em vez de disputar espaço apenas no palco, ele posicionou seu alter ego musical como um produto desenhado primariamente para o consumo em plataformas digitais, especialmente o Spotify.>
A sua estratégia é pautada no entorno da distribuição digital. Israel compreendeu que, na atual economia da atenção, a música ganha mais tração quando nasce otimizada para o ecossistema de vídeos curtos. Faixas autorais como "Bloquinho Pagofunk" e "Bloquinho Penélope Charmosa" não são apenas lançadas nas plataformas; elas são o centro de campanhas de conteúdo estruturadas, envolvendo parcerias direcionadas com outros influenciadores e inserções em playlists estratégicas. Essa gestão funde a produção musical com o marketing de influência.>
Essa estratégia de tratar cada lançamento como um evento digital direcionado já lhe rendeu milhares de reproduções e uma adoção orgânica de seus áudios por outros usuários. Ao assumir o controle tanto da gravação quanto da propagação de sua obra, o projeto Oh Blogueiro demonstra uma mudança clara no pagode contemporâneo: para uma carreira bem sucedida, um artista independente precisa atuar também como diretor de marketing e dominar a lógica dos algoritmos para que sua música alcance o nicho certo.>