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Nilson Marinho
Publicado em 16 de outubro de 2023 às 05:00
O setor da Tecnologia e Informação cresce cada vez mais no Brasil e oferece muitas oportunidades de emprego, o que falta, no entanto, é mão de obra qualificada para que essas vagas sejam preenchidas. Em janeiro deste ano, por exemplo, havia no país 33 mil vagas esperando para serem ocupadas, de acordo com um levantamento feito pela plataforma de inteligência de vendas Cortex.>
Naquele mês, as empresas buscavam sobretudo por desenvolvedores Back-end e por desenvolvedores Front-end. Os salários dessas profissões variam entre R$ 5.500, para nível júnior, e R$ 19.350, para nível sênior, de acordo com a consultoria de recrutamento Robert Half.>
Além da falta de mão de obra qualificada, o setor enfrenta um outro problema: a disparidade de gênero. O homem é maioria na área da Tecnologia e Informação e, embora haja avanços, como iniciativas de formação do público feminino, a diferença ainda é gritante. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), entre 2015 e 2022, o aumento da participação das mulheres no setor foi de 60%, mesmo assim, as profissionais ainda ocupam apenas 12,3% dos cargos.>
E a falta de representatividade leva outras mulheres a não considerar ingressar nessa área que pode oferecer, em alguns casos, cargos com dinâmicas de trabalho mais flexíveis, como a adoção do modelo híbrido ou home office — o que pode facilitar a vida daquelas que são mães solo — e pacotes de benefícios atrativos. Além da falta de figuras femininas que servem de espelho, a capacitação nem sempre é acessível para muitas jovens, como lembra Heloísa Marcomini, Gerente de Gente e Gestão da Locaweb Company.>
“A falta de mão de obra feminina no setor de tecnologia no Brasil pode ser explicada por diversos fatores. Primeiramente, há uma disparidade de gênero histórica no campo da tecnologia, que tem sido tradicionalmente dominado por homens. Isso resultou em estereótipos de gênero e preconceitos que podem afastar as mulheres da área. Além disso, a educação e a formação em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) nem sempre são acessíveis ou incentivadas para as meninas desde uma idade jovem. A falta de representação feminina em cargos de liderança e a falta de modelos a seguir também podem desencorajar as mulheres a seguir carreiras em tecnologia”, opina Heloísa.>
Um outro fator que pode contribuir com a desigualdade de gênero está presente na vida das mulheres desde muito cedo, quando elas são desencorajadas a não se dedicar às atividades que desenvolvem lógica e raciocínio, com a justificativa de que essas competências pertencem muito mais ao “universo dos garotos” do que das garotas, como lembra Cristiana Barreto, Presidente Executiva da Zetra, plataforma de gestão de consignados.>
“As principais barreiras que impedem as mulheres de ingressarem na área de tecnologia incluem estereótipos de gênero, que associam a tecnologia a campos masculinos, inclusive no ambiente escolar; falta de representação feminina, com ausência de figuras femininas proeminentes na tecnologia; acesso limitado à educação e recursos, além de falta de incentivo desde cedo, já que as meninas muitas vezes não são incentivadas a desenvolver interesse em ciência, tecnologia, engenharia e matemática desde jovens”, diz Cristina.>
O que as empresas têm entendido nos últimos anos é que a inclusão das mulheres no setor da Tecnologia e Informação garante a diversidade e a representatividade no setor, mas também contribui para que soluções tecnológicas possam ser pensadas por todos os grupos sociais. Por isso, iniciativas são pensadas para criar um ambiente mais inclusivo.>
“O movimento para incentivar a entrada e a ascensão das mulheres na área de tecnologia e em cargos de liderança é impulsionado por razões que vão desde a vantagem competitiva e inovação até a promoção da igualdade de oportunidades e a luta contra o viés de gênero. Essa tendência é um passo importante para criar um setor de tecnologia mais inclusivo e representativo”, diz Shirley Pegado, especialista em comunicação interna da Astéria, empresa de soluções digitais.>
A UX Writer Jéssica Nascimento, de 30 anos, já tinha intimidade com a tecnologia desde criança, fez um curso de programação na universidade na vida adulta, mas, até então, não havia pensado na possibilidade de trabalhar na área. Sua formação inicial é em jornalismo, mas tudo mudou durante a pandemia quando ela começou a fazer um curso de games e a ter contato com outras pessoas do setor da tecnologia, que lhe mostraram que a área é ampla e com muitas possibilidades de atuação.>
“[...] Na pandemia refleti sobre a minha vida, foi algo que aconteceu com todo mundo. Eu não estava feliz com a minha profissão, eu gosto muito de comunicação, palavras, textos e conteúdos de uma maneira geral, mas eu não estava curtindo mais fazer aquilo, então passei a pensar em fazer aquilo, então, comecei a pensar em possibilidades de mudar”, conta Jéssica.>
Jéssica partiu então para o curso de product management e, hoje, trabalha na modalidade home office para uma empresa na cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo. “Quando eu parava para analisar o que era a área da tecnologia, eu achava que era só programação e desenvolvimento e nunca me vi nessa área. Então temos essa ideia, mas a tecnologia tem um mundo de possibilidades”, completa Jéssica.>
Salvador vai receber um evento gratuito de imersão apenas para mulheres que querem fazer parte do setor da tecnologia. O Código M acontece no próximo dia 24 de outubro, no Teatro Sesi, no Rio Vermelho, e é promovido pela Laboratória, organização que busca inserir mais mulheres no mercado de trabalho tech e que já formou mais de 3.500 estudantes em 11 países da América Latina. O tema será “Análise de Dados”.>
No encontro, que acontecerá das 13h30 às 17h30, as participantes, além de interagirem com lideranças globais da Laboratória e com profissionais baianas que hoje atuam e prosperam no mercado tech, poderão também participar de oficinas práticas sobre tecnologia. Para se inscrever é só entrar na página da Laboratória https://www.codigom.la/br.>
Essa é a segunda vez que esse evento acontece na capital baiana. Na edição anterior, em maio, o evento reuniu presencialmente mais de 70 mulheres baianas.>
“É fundamental que as empresas, governos e organizações avancem cada vez mais na inclusão e na diversidade em todos os setores, mas especialmente no setor de tecnologia. Nós trabalhamos para reverter as desigualdades de oportunidades e barreiras que as mulheres enfrentam no acesso a empregos de qualidade na economia digital da América Latina. Temos um bootcamp inovador, de classe mundial e trabalhamos para diminuir a lacuna de talento e gênero existente no setor tecnológico.>
Hoje, mais de 3,5 mil mulheres na América Latina já se formaram na Laboratória e muitas estão atuando no setor de tecnologia, se tornando assim, referência e modelo para outras mulheres”, diz Regina Acher, cofundadora da Laboratória no Brasil>