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Desigualdade cai ao menor nível histórico, mas endividamento trava consumo das famílias

Avanço do salário mínimo e de auxílios reduz distância entre ricos e pobres, mas alto volume de dívidas freia o comércio

  • Foto do(a) author(a) Maiara Baloni
  • Maiara Baloni

Publicado em 4 de junho de 2026 às 10:15

A legislação de 2026 impõe limites severos à penhora de bens. Valores em dinheiro ou depositados em poupança até 40 salários mínimos constituem uma reserva de sobrevivência impenhorável, garantindo o sustento básico do poupador e sua família, mesmo diante de execuções judiciais de dívidas.
Indicadores do IBGE revelam o real poder de compra da população e os limites do orçamento doméstico frente ao crédito. Crédito: Freepik

O bolso do brasileiro virou o centro das atenções de economistas, comerciantes e empresários que tentam decifrar os rumos do mercado nacional. Para entender como o dinheiro circula e quem realmente tem poder de compra, o termômetro oficial vem da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo IBGE.

Os dados mais recentes apontam que o rendimento mensal médio do trabalhador ativo está em R$ 3.367, enquanto a renda domiciliar per capita cravou o recorde de R$ 2.264. O cálculo é simples, o instituto soma tudo o que entra em uma casa,salários, aposentadorias, aluguéis e benefícios, e divide pelo número de moradores.

Dinheiro por Shutterstock

Essa conta revela uma pirâmide social ainda muito pontiaguda. Metade da população sobrevive com uma renda per capita de até R$ 1.321 por mês. Na base mais vulnerável, os 20% com menor poder aquisitivo recebem no máximo R$ 622 por pessoa, enquanto a fatia dos 40% mais pobres registra ganho médio individual de R$ 601.

Do outro lado da corda, o topo começa a aparecer a partir de R$ 2.610 mensais por morador, sendo que o grupo dos 10% mais ricos ganha a partir de R$ 8.034 por cabeça.

A queda no Índice

Apesar do abismo, a distância entre os extremos encolheu de forma inédita. Relatórios do Ipea e do IBGE revelam que os lares de menor renda viram seus ganhos crescerem de forma muito mais acelerada do que os do topo. Enquanto os 10% mais ricos registraram um avanço contido de 1,5% nos rendimentos, a fatia mais pobre experimentou um salto expressivo que variou entre 9,3% e 17%.

Com isso, a razão de rendimentos recuou: os ganhos dos mais ricos, que equivaliam a 14,4 vezes o rendimento dos 40% mais pobres, passaram a representar 13,4 vezes.

Essa aproximação empurrou o Índice de Gini, indicador que mede a concentração de renda em uma escala de zero a um, onde o zero é a igualdade perfeita, para 0,506. Trata-se do menor nível da série histórica iniciada em 2012. Especialistas explicam que o motor dessa mudança foi o reajuste real do salário mínimo combinado com a reformulação de programas governamentais, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social, as transferências de renda geraram uma expansão de quase 70% no orçamento dos lares beneficiados, derrubando a extrema pobreza de um patamar histórico de 25% para menos de 5%. Mesmo assim, o 1% que compõe a elite dos super-ricos ainda concentra uma fatia pesada, com rendimento médio mensal de R$ 21.767, o que representa 36,2 vezes o ganho dos 40% mais pobres.

Barreiras sociais

Os avanços estatísticos, no entanto, não escondem as marcas históricas da desigualdade que persistem no mercado de trabalho. Os rendimentos no país ainda são fortemente afetados por fatores raciais e de gênero. Trabalhadores brancos ganham, em média, 87% mais do que trabalhadores negros. Esse descompasso se reflete diretamente na vulnerabilidade social, já que a taxa de pobreza extrema atinge 7,4% da população negra, mais que o dobro dos 3,1% registrados entre a população branca.

A composição das faixas de renda deixa essa segregação ainda mais nítida. Mulheres e homens negros representam 80% do grupo que compõe os 10% mais pobres do país. Já na fatia dos 10% com maiores rendimentos, o cenário se inverte completamente, com a população branca ocupando 70% dessas vagas de alta remuneração.

O peso regional

O mapa do dinheiro também expõe fraturas geográficas profundas, com variações de renda que ultrapassam os 100% entre os estados, ditando estratégias diferentes para o varejo. No topo do ranking do IBGE está o Distrito Federal, com o maior rendimento médio mensal de R$ 5.037, seguido de perto por São Paulo, com R$ 3.884.

Entre as grandes regiões, o Sul lidera com média de R$ 2.734 por pessoa, mesmo registrando a menor alta anual, de 4,9%. Na outra ponta da tabela, estados como Ceará e Maranhão registram as menores médias de rendimento do país, com R$ 2.053 e R$ 2.051 mensais, respectivamente.

Enquanto os mercados voltados para o consumo de massa, como supermercados, farmácias e vestuário básico, dependem crucialmente do faturamento nas regiões de menor renda, onde as famílias gastam tudo o que ganham com a subsistência, a grande força motriz do país tem sido o emprego formal.

O setor de serviços cresceu 1,9% no último balanço e, junto com o comércio, transportes e o sistema bancário, responde por 59% de toda a expansão econômica nacional. Esse fôlego elevou o salário médio do trabalhador para R$ 3.722 no primeiro trimestre. No campo, a agropecuária registrou alta de 1%, com destaque isolado para o Rio Grande do Sul, que liderou o setor com crescimento de 16,5%.

O peso do crédito

Toda essa evolução do salário esbarra em um teto perigoso para o comércio de bens duráveis, como carros e eletrodomésticos: o endividamento. As pesquisas de condições financeiras apontam que o índice de endividamento geral das famílias atingiu a marca alarmante de 79,5%, igualando o recorde histórico, com projeção de bater nos 80,4% muito em breve.

O problema sufoca as famílias de forma inversa aos seus ganhos, castigando os lares de menor renda com mais força.

Entre os brasileiros que ganham até três salários mínimos, o endividamento chega ao pico de 82,5%, e o percentual de lares que admitem não ter como pagar as contas atrasadas subiu para 18,9%. Na faixa de três a cinco salários mínimos, o índice de dívidas fica em 79,6%, com 11% de inadimplência. Já na classe que recebe entre cinco e dez salários mínimos, as dívidas atingem 76,7% das famílias, com 9,1% sem condições de pagamento.

O alívio só aparece no topo da pirâmide salarial, para quem ganha acima de dez salários mínimos, a dependência do crédito cai para 68,3% e a inadimplência recua para 4,9%. O cenário deixa claro que, embora os salários estejam subindo acima da inflação, o consumo real continua engessado pelas parcelas que já se acumulam na gaveta.

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Brasil Economia Salários