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Carmen Vasconcelos
Publicado em 1 de junho de 2026 às 06:30
O tradicional conceito de construir uma carreira linear, permanecendo por décadas em uma única corporação em troca de estabilidade, perdeu espaço definitivo no horizonte da nova geração de trabalhadores. >
O mercado de trabalho atravessa uma transformação profunda, guiada por um forte pragmatismo econômico. É o que revela o relatório Next Generation Brasil, amplo estudo global conduzido pelo British Council que ouviu mais de 3 mil pessoas entre 16 a 35 anos em todo o país.>
A pesquisa mapeia uma juventude altamente consciente das mutações econômicas, mas que ingressa na vida profissional sob a sombra da incerteza: 66% dos jovens entrevistados temem não alcançar a segurança financeira no futuro. >
O diagnóstico joga luz sobre as principais dores do ambiente corporativo atual. Para 66% dos respondentes, os salários oferecidos estão abaixo das expectativas e das necessidades básicas. Além disso, 56% apontam as jornadas de trabalho excessivas como entraves que prejudicam diretamente a saúde mental e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.>
“A preocupação com a estabilidade financeira aparece de forma transversal na pesquisa, refletindo um cenário em que muitos jovens associam o futuro profissional a um sentimento de incerteza. Quando existe a percepção de dificuldade para alcançar estabilidade e autonomia, isso pode gerar ansiedade e pressão constante já no início da vida profissional”, analisa Bárbara Cagliari Lotierzo, Diretora Interina de Engajamento Cultural do British Council no Brasil. O impacto emocional desse panorama é evidente: a necessidade de acesso a serviços de saúde mental e bem-estar foi destacada por 22% dos participantes como uma das ações governamentais mais urgentes para o país.>
Pacote de Benefícios>
O estudo aponta uma clara reorganização de prioridades. Longe de abandonar a busca por propósito ou valores institucionais, a juventude apenas recalibrou as urgências diante do encarecimento do custo de vida. >
Para 62% dos entrevistados, a segurança financeira é apontada como o principal pilar para a felicidade presente e futura — uma resposta direta ao fato de que 27% relatam dificuldades frequentes para cobrir gastos básicos de subsistência.>
Para o setor de Recursos Humanos e para as empresas que buscam atrair esses profissionais, o relatório emite um alerta claro: a percepção de segurança financeira, hoje, vai muito além do salário nominal fixado na carteira de trabalho. >
A busca por ambientes corporativos previsíveis e saudáveis ganhou peso decisivo. Como 56% da juventude manifesta forte rejeição a ecossistemas com jornadas abusivas e baixa moral, políticas que assegurem qualidade de vida tornaram-se tão atraentes para a retenção de talentos quanto a própria remuneração em dinheiro.>
"Economia Gig" >
Uma das métricas mais contundentes do relatório indica que 70% dos jovens planejam abrir o próprio negócio nos próximos cinco anos. Mais do que uma simples recusa ao emprego formal, o dado sinaliza um desejo profundo por autonomia, controle do destino financeiro e diversificação de renda.>
Atualmente, 27% dessa população já desenvolve alguma atividade informal ou fonte extra de ganhos paralela ao trabalho principal.>
A busca por independência financeira lidera as motivações para empreender (56%), seguida de perto pelo desejo de flexibilidade (49%). No entanto, o ecossistema ainda carece de redes estruturadas de fomento. >
A falta de capital inicial é a principal barreira para 63% dos jovens, enquanto 52% apontam lacunas em seus conhecimentos de gestão e finanças.“O interesse pelo empreendedorismo mostra o potencial dos jovens para criar soluções e gerar renda, mas também evidencia a necessidade de fortalecer o ecossistema que sustenta esses caminhos. Acesso à educação empreendedora, redes de apoio e financiamento são fatores decisivos para transformar a intenção em negócios sustentáveis”, complementa Bárbara Lotierzo.>
Para o setor privado, essa tendência não desenha necessariamente um "apagão de talentos", mas exige uma reformulação na gestão. >
Organizações que abrem espaço para o intraempreendedorismo — conferindo autonomia, flexibilidade e integrando os colaboradores nos processos de inovação e tomada de decisão — tendem a reter esses perfis inquietos. >
Da mesma forma, a ascensão da economia gig (trabalhos flexíveis e autônomos) força as empresas a encararem as atividades paralelas de seus funcionários não como concorrência ou falta de engajamento, mas como uma estratégia de sobrevivência e proteção dos jovens frente à instabilidade econômica do mercado.>
Os dados do Next Generation Brasil ganham camadas mais complexas quando filtrados pelo recorte social e territorial. Enquanto a média geral de informalidade se estabelece em 11%, entre os jovens que residem em favelas e periferias urbanas esse índice salta para alarmantes 48%.>
Nesse grupo vulnerável, 24% recebem menos de um salário mínimo por mês e 62% ocupam a posição de principais provedores da renda familiar. >
No corte financeiro geral, o trabalhador formal recebe, em média, R$ 3.835 mensais, valor 36% superior à média do trabalhador informal (R$ 2.808). Diante dessa disparidade de oportunidades, a busca por capacitação rápida e focada em empregabilidade tornou-se o principal escudo da juventude. >
Questionados sobre os cursos de curta duração mais desejados para navegar no mercado atual, os focos estratégicos são nítidos:36% priorizam cursos voltados ao uso prático de Inteligência Artificial;35% buscam formação em Finanças Pessoais e Gestão de Negócios;34% apontam o desenvolvimento de Habilidades Digitais avançadas.>
Essa busca voluntária por atualização evidencia um descompasso estrutural entre os currículos acadêmicos tradicionais e as demandas dinâmicas exigidas pelo mercado de trabalho contemporâneo. A resolução desse cenário de incertezas exige o desenho de políticas públicas integradas e parcerias intersetoriais sólidas entre governos, universidades e a iniciativa privada. >
A aproximação entre a formação educacional e as competências digitais emergentes, aliada a programas de inclusão produtiva regionalizada e democratização do acesso à conectividade, desponta como a única rota viável para atenuar a percepção de risco dessa geração e construir trajetórias profissionais economicamente sustentáveis.>