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Carmen Vasconcelos
Publicado em 16 de abril de 2026 às 06:30
Quem caminha pelas ruas de Salvador sabe que o empreendedorismo feminino negro não nasceu nos manuais de administração modernos; ele foi gestado no tabuleiro da baiana, no sustento das casas cheias e na sabedoria de mulheres que, como Dona Alaíde do Feijão e Dona Carminha, transformaram o cuidar em política e economia. É bebendo dessa fonte ancestral que Tamires Santos — gestora pública, psicoterapeuta e especialista em Desenvolvimento Humano — ergue o movimento “Uma vai e puxa outra”. >
Nesta entrevista, Tamires revela como transformou a vivência de balcão e a escuta clínica em uma tecnologia de sobrevivência e ascensão para mulheres negras. Para ela, o sucesso de um negócio liderado por uma mulher negra na Bahia não se mede apenas pelo faturamento, mas pela saúde emocional de quem o conduz e pela força da rede que a sustenta. >
Com a autoridade de quem transita entre as estruturas do Estado e as subjetividades do consultório, Tamires propõe uma gestão humanizada que desafia a solidão do topo. “Não existe CNPJ estruturado se não houver um CPF saudável”, afirma, lembrando que, quando uma mulher negra se movimenta, ela não vai sozinha: ela traz consigo uma linhagem de força e o compromisso de não deixar ninguém para trás. >
Confira o papo sobre negócios, afeto e reparação histórica: >
De que forma sua história pessoal e a ancestralidade das mulheres empreendedoras da sua família influenciaram a criação do movimento “Uma vai e puxa outra”? >
Minha história é atravessada por mulheres que sempre empreenderam, mesmo sem chamar isso de empreendedorismo. A exemplo de minhas avós, Alaíde do Feijão e Dona Carminha, mulheres que venderam, cuidaram, produziram e sustentaram casas inteiras com força e muita responsabilidade coletiva. Cresci vendo que o trabalho delas não era só econômico, era também afetivo, comunitário e político. Em 2022, empreendendo à frente de um depósito de bebidas, plantei a semente do “Uma vai e puxa outra”, pois eu sabia da importância de construir de forma coletiva. Busquei uma vertente social que pudesse fortalecer outras mulheres negras que, assim como eu, conheciam o desafio de ser uma mulher negra que empreende no Brasil. Tenho total consciência de que nenhuma de nós chegou até aqui sozinha; isso é fruto do aprendizado das mulheres que me formaram. Honro a ancestralidade das mulheres negras que puxaram outras antes de mim e que me ensinaram, na prática, que quando uma de nós vai, precisa puxar outra junto. >
O movimento parte da ideia de que empreender é uma prática humana e emocional. Em que momento você percebeu que o cuidado emocional precisava estar no centro das trajetórias empreendedoras de mulheres negras? >
Essa percepção veio da escuta diária. Eu vivo o empreendedorismo todos os dias. Lido com a escuta das dores, dos medos, do cansaço e, muitas vezes, do adoecimento emocional de mulheres negras que empreendem. Percebi que não era só a falta de capacidade técnica, nem de esforço. Era sobre carregar tudo sozinha, sobre a pressão de dar certo, sobre o medo de falhar quando não se tem rede de proteção. O cuidado emocional precisou ir para o centro porque, sem ele, o negócio até pode existir, mas não se sustenta sem adoecer quem está à frente. >
Como a sua formação em gestão pública e psicoterapia se conecta com a proposta do “Uma vai e puxa outra” e com a forma como você enxerga o empreendedorismo negro feminino? >
A gestão pública me ensinou a olhar para as estruturas, para os dados, para as desigualdades históricas e para o papel das políticas públicas na transformação social. A psicoterapia me ensinou a olhar para dentro, para as raízes das pessoas, para as emoções, para as feridas e para os comportamentos que atravessam as decisões. O “Uma vai e puxa outra” nasce exatamente dessa interseção: não dá para falar de empreendedorismo negro feminino sem olhar para o sistema e sem cuidar das subjetividades. Um negócio liderado por uma mulher negra é atravessado pelo social, pelo político e pelo emocional o tempo todo. E, para mim, o empreendedorismo negro feminino é um fenômeno de transformação, que precisa cada vez mais estar no centro do debate para aprimorar estruturas e condições de sustentabilidade para quem empreende. >
Quais são os principais desafios emocionais e estruturais enfrentados hoje por mulheres negras que empreendem no Brasil, especialmente na Bahia? >
Olha, as mulheres negras representam cerca de metade das empreendedoras no Brasil, mas enfrentam profundas desigualdades estruturais. Elas lidam com a informalidade, têm menor acesso a crédito e faturam menos; ganham, em média, 30% menos do que mulheres brancas em atividades semelhantes. Essas estruturas também refletem diretamente no campo emocional, pois, além disso, lidam com sobrecarga, solidão, medo de falhar e ausência de redes de apoio, já que muitas empreendem por necessidade e ainda são chefes de família. Aqui na Bahia, essas dificuldades também são fruto das desigualdades sociais históricas, o que torna o cuidado emocional e o fortalecimento coletivo elementos centrais para a sustentabilidade dos negócios. >
O movimento se define como político, afetivo e estratégico. Como esses três eixos se materializam, na prática, nos encontros e nas ações desenvolvidas? >
Ser uma mulher negra no Brasil já é um ato político, e a presença de mulheres negras empreendendo representa um enfrentamento direto às desigualdades históricas. O eixo afetivo aparece como uma estratégia consciente de reparação, já que o afeto, o cuidado e o direito ao acolhimento foram historicamente negados às mulheres negras. Ele se materializa na escuta qualificada e na construção de vínculos, confiança e pertencimento entre nós. Já o eixo estratégico se expressa por meio de uma gestão humanizada, que integra as áreas do negócio de forma alinhada à realidade dessas mulheres. Nos encontros, esses eixos se cruzam continuamente: cuido da raiz emocional enquanto fortaleço as ferramentas práticas necessárias para a sustentabilidade dos negócios. >
Por que a construção coletiva e a criação de redes de apoio são tão decisivas para a sustentabilidade dos negócios liderados por mulheres negras? >
Porque ninguém sustenta um negócio sozinha por muito tempo sem adoecer. A gente precisa desmistificar essa ideia de que é preciso ser forte o tempo inteiro para lidar e resolver tudo. Isso tem pesado demais, chega a ser perverso, sabe? E a rede tem um papel fundamental nisso: é onde a gente troca, aprende, compartilha soluções e também descansa. A construção coletiva diminui riscos, amplia oportunidades e fortalece emocionalmente. Para mulheres negras, rede é estratégia de sobrevivência e crescimento. >
De que maneira a valorização da cultura, da ancestralidade e dos saberes territoriais contribui para a construção de negócios mais coerentes e potentes? >
Quando a mulher negra reconhece seus saberes e sua história como valor, ela empreende com mais verdade e coerência. A ancestralidade nos ensina sobre cuidado, coletividade, tempo e propósito. Negócios que nascem conectados ao território e à cultura tendem a ser mais potentes porque dialogam com a realidade, com a identidade e com o pertencimento das pessoas. Por isso, cada vez que realizo o café terapêutico presencial, escolho um espaço ligado à nossa cultura, para promover também o acesso a esses espaços. Além disso, realizo mensalmente sorteios culturais que têm como objetivo regar as raízes de quem empreende com lazer, por meio de teatros, cinemas, shows etc. >
Na sua avaliação, qual é o impacto do fortalecimento emocional na gestão, na tomada de decisões e no crescimento dos empreendimentos? >
Existe uma frase que diz que não existe CNPJ estruturado se não houver um CPF saudável. Ou seja, antes de qualquer negócio, existe uma pessoa que o conduz e que precisa estar bem. O fortalecimento emocional é indispensável para o crescimento de qualquer negócio, pois melhora a clareza, diminui decisões impulsivas, aumenta a capacidade de planejar e de dizer não quando necessário. Uma mulher emocionalmente fortalecida negocia melhor, se posiciona melhor e cuida melhor do seu negócio. Crescimento sustentável passa, necessariamente, pela saúde emocional. >
Como sua atuação na Coordenação Geral de Fomento ao Empreendedorismo Negro da Bahia e na Comissão Nacional da Estratégia Elas Empreendem dialoga com os princípios do movimento? >
Minha atuação nesses espaços é orientada por uma gestão humanizada, centrada nas pessoas, na escuta qualificada e no diálogo constante com quem vive o empreendedorismo na prática. Estou na gestão pública há 18 anos e empreendo há mais de 20 anos, e essa vivência me permite compreender, de forma concreta, os desafios enfrentados por pessoas negras, o que direciona a construção e o fortalecimento de políticas públicas capazes de transformar realidades. Essa experiência institucional se conecta aos princípios do “Uma vai e puxa outra” na vida prática, fortalece redes e amplia escutas reais de quem está na ponta. >
Que mensagem você deixaria para mulheres negras que desejam empreender, mas ainda se sentem sozinhas, inseguras ou sobrecarregadas nesse processo? >
Primeiramente, convido todas elas a fazerem parte desse movimento, que tem como eixo central o fortalecimento emocional de mulheres negras empreendedoras, com encontros terapêuticos, culturais e estratégicos de forma gratuita. As inscrições estão abertas, e o link se encontra na bio do Instagram @umavaiepuxaoutra / @soutamiressantos. >
E deixo a mensagem de que empreender não precisa ser um caminho solitário nem marcado pelo adoecimento. Buscar rede, apoio e cuidado é parte do processo. Angela Davis nos ensina que, quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Sued Nunes traz em sua canção que somos povoadas. Então, quando mulheres negras caminham juntas, os negócios se fortalecem e a trajetória se torna mais sustentável. Conheçam esse movimento e venham regar as raízes com a gente! >