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O silêncio que adoece o ambiente corporativo

Levantamento aponta que 17% dos profissionais já sofreram ou presenciaram abusos no ambiente laboral

  • Foto do(a) author(a) Carmen Vasconcelos
  • Carmen Vasconcelos

Publicado em 16 de março de 2026 às 06:30

Comentários depreciativos, isolamento em reuniões e críticas públicas desproporcionais podem ser sinais iniciais de assédio no ambiente corporativo
Comentários depreciativos, isolamento em reuniões e críticas públicas desproporcionais podem ser sinais iniciais de assédio no ambiente corporativo Crédito: Shutterstock

O que começa com uma "brincadeira" sobre a aparência, uma crítica desproporcional em público ou o isolamento sistemático de um colega pode ser o início de um processo destrutivo.

O assédio no ambiente de trabalho — seja ele moral ou sexual — deixou de ser uma "questão de RH" para se tornar um risco jurídico e estratégico de alta prioridade.

De acordo com o Censo de Saúde Mental 2025, realizado pela Vittude, 17% dos profissionais brasileiros relataram ter sofrido ou presenciado situações de assédio, sendo a esmagadora maioria (72%) casos de assédio moral.

Com a entrada em vigor da nova redação da NR-01 em maio de 2026, as empresas passam a ser obrigadas a avaliar riscos psicossociais e implantar programas preventivos. "O ambiente de trabalho precisa ser seguro do ponto de vista psicológico, ético e relacional. A omissão institucional acaba normalizando comportamentos abusivos", alerta a psicóloga organizacional Aila Cardial.

A  psicóloga organizacional Aila Cardial destaca que a omissão institucional termina normalizando os comportamentos abusivos
A psicóloga organizacional Aila Cardial destaca que a omissão institucional termina normalizando os comportamentos abusivos Crédito: Divulgação

Cobrança ou abuso

Uma das maiores dificuldades dos trabalhadores é identificar onde termina o direito da empresa de cobrar resultados e onde começa o assédio.

Tatiana Pimenta, CEO da Vittude, esclarece que feedbacks e correções de rota não são assédio, desde que feitos com respeito. "O assédio moral ocorre quando há condutas abusivas reiteradas que degradam a dignidade do trabalhador. Já no assédio sexual, um único episódio pode ser suficiente para caracterizar a violação", explica.

Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas
Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas Crédito: Divulgação

Aila Cardial reforça que o compliance não pode ser apenas documental. "A cultura se forma pelas práticas. Certa vez, atendi uma empresa onde o comitê de ética era 100% masculino. Sugerimos a inserção de mulheres para garantir uma visão mais diversa e segura para denúncias", conta a psicóloga.

Para quem é vítima, o isolamento é o maior inimigo. Juridicamente, a empresa possui responsabilidade objetiva pelos atos de seus gestores e funcionários. Caso o ambiente se torne insustentável, a Justiça do Trabalho prevê a rescisão indireta — quando o trabalhador sai da empresa mantendo todos os direitos de uma demissão sem justa causa, além de possíveis indenizações por danos morais.

"Efeito Espectador"

Se o assédio explícito é um "incêndio" que as empresas correm para apagar, o assédio velado é como uma infiltração lenta: ele compromete a estrutura sem fazer barulho, até que o dano seja irreversível. No ambiente corporativo, ele se disfarça de "brincadeira", de "estilo de gestão focado em resultados" ou, pior, de uma suposta "falta de fit cultural" da vítima.

Para a psicóloga Aila Cardial, o maior dano do assédio velado é a normalização do abuso. Quando um gestor utiliza o sarcasmo constante para desqualificar um subordinado, ou quando uma colaboradora é sistematicamente "esquecida" em reuniões decisórias (o chamado gaslighting corporativo), a mensagem enviada ao restante da equipe é clara: o respeito é condicional.

"A omissão institucional acaba normalizando comportamentos abusivos", explica Aila. Isso cria o "efeito espectador", onde os colegas percebem a injustiça, mas calam-se por medo de serem o próximo alvo.

O resultado é uma cultura de vigilância e medo, onde a inovação morre — afinal, ninguém se sente seguro para sugerir ideias em um ambiente onde o erro é usado como arma de humilhação sutil.

O impacto financeiro é direto. Tatiana Pimenta, da Vittude, destaca que o assédio velado é um dos principais motores do turnover (rotatividade) e do absenteísmo. "Os colaboradores percebem quando não há comprometimento genuíno. Eles não pedem demissão apenas do trabalho, eles pedem demissão da liderança tóxica", afirma.

Muitas vezes, o talento mais brilhante de uma equipe deixa a organização sem que o RH entenda o real motivo, pois o assédio velado raramente deixa rastros em e-mails. É a "morte por mil cortes": a desmotivação constante que leva ao quiet quitting (desengajamento) e à perda de produtividade.

Para Tatiana Pimenta, o futuro das organizações depende de dados. "É preciso implementar programas de saúde mental e mensurar resultados através de dashboards. As ferramentas são termômetros que medem o que precisa melhorar antes que o problema se torne crônico", afirma a CEO.

O recado para as empresas baianas é claro: saúde mental e respeito não são mais pautas de "bem-estar", mas pilares de sustentabilidade do negócio.

Sinais de alerta

Exclusão Social Deixar de convidar membros específicos para comunicações importantes ou eventos de integração.

Sobrecarga ou Esvaziamento Atribuir tarefas impossíveis para forçar o erro, ou retirar todas as funções de um profissional qualificado para que ele se sinta inútil

Interrupções Sistemáticas Práticas como o manterrupting (quando homens interrompem constantemente mulheres), que invalidam a autoridade técnica da profissional.

Privilégio de Informação Usar a informação como moeda de poder, retendo dados necessários para que o colega execute bem seu trabalho.

GUIA PRÁTICO

Reconheça e registre Não enfrente o problema sozinha(o). Anote datas, locais, contexto e possíveis testemunhas de cada episódio.

Junte evidências Mensagens de WhatsApp, e-mails e até gravações de conversas das quais você participa são aceitas como prova jurídica.

Use os canais oficiais Procure o RH, o comitê de ética ou o canal de denúncias da empresa. Se a liderança estiver envolvida, busque canais independentes ou o sindicato.

Busque apoio externo Caso a empresa seja omissa, o Ministério Público do Trabalho (MPT) e advogados especializados são o caminho para garantir seus direitos.

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Empregos Saúde no Trabalho