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Da Redação
Publicado em 25 de dezembro de 2010 às 09:53
- Atualizado há 3 anos
Victor Albuquerque|Redação CORREIO>
Disposto a comprar um carro novo, o mestre de obras Enoque Oliveira tomou um susto ao saber das novas regras de financiamento, definidas pelo Banco Central, no início do mês. O modelo que ele queria era um Siena, completo, que custa R$ 34,8 mil. Na concessionária, a consultora de vendas explica a Enoque que para financiar o veículo em 60 vezes, ele tem que dar uma entrada de 40% ou sujeitar-se a juros mais altos. >
“Assim fica muito difícil. O pior é que não tem jeito. Ou a gente aceita, ou fica sem o carro”, se queixa. >
E Enoque tem razão. De fato, financiar a compra de um carro está mais complicado. Nas revendedoras de Salvador, já está difícil comprar automóveis com parcelamento em mais de 24 meses sem entrada. “O banco não aprova”, conta Naiana Fraga, consultora de vendas da Saveiro, revendedora Volkswagen. Segundo ela, são raras as exceções. “Depende muito do perfil do cliente e do seu histórico financeiro”. >
De acordo com as novas regras, para cada tipo de financiamento o consumidor deve desembolsar uma entrada: 20% para parcelamentos em 24 vezes; 30% para 48 vezes e 40% nas compras financiadas em 60 vezes. Como se isso não bastasse, os juros também subiram (veja nas simulações abaixo). No financiamento até dois anos, com entrada de 20%, por exemplo, a taxa subiu de 1,53% para 1,82%. Sem entrada, ela chega a 2,37%, ou seja, um aumento de 62% ante os 1,46% cobrado antes da nova regra. Por causa disso, o valor médio da prestação de um veículo aumentou R$ 120. No fim das contas, tem carro que sai até R$ 20 mil mais caro do que o preço inicial.>
Reflexo As lojas já começaram a sentir o peso das novas medidas do governo. Na Frutosdias da Água Brusca, Cidade Baixa, o vendedor Anderson Piño conta que as vendas diminuíram. “Já sentimos o reflexo. Atrapalhou o nosso final de ano. Agora, é se adaptar à nova realidade”, conta.>
Em outra concessionária, uma vendedora que prefere não se identificar conta que tinha clientes aguardando até dois dias para ter a resposta do banco sobre a aprovação de crédito. “Isso atrapalha e muito nosso trabalho. A gente até tem movimento, mas não consegue fechar a venda”. Cláudio Valverde, gerente da Marvel, revendedora da Fiat, espera uma queda na comercialização de veículos. “Vai haver um freio no consumo. Tenho clientes que me relataram que não vão mais comprar o carro novo por causa dessa situação”. >
Na visão dele, as medidas do BC vão atingir principalmente as pessoas da classe C, que se mostraram consumidores em potencial este ano. “Eles vão parar de comprar. Os juros subiram muito e, no fim das contas, tudo é repassado para o consumidor”.>
Entenda as medidasO pacote de medidas anunciado pelo Banco Central mexeu com o sistema de crédito, afetando a compra de veículos. Elas visam frear o consumo e diminuir o número crescente de inadimplência por compras a longo prazo. Estudo do BC mostra que em financiamentos de um a dois anos, 1,5% dos tomadores de créditos deixam de pagar nos primeiros 12 meses. Nos prazos de três a quatro anos, o índice alcança 6%, e de cinco a dez anos, ultrapassa os 10%.>
Com as novas medidas, o requerimento de capital das instituições financeiras aumentou de 11% para 16,5%, para a maioria das operações de crédito a pessoas físicas. Isso significa que, para cada R$ 100 emprestado, o banco deve ter R$ 16,5 e não mais R$ 11 para arcar com riscos. No caso do financiamento de veículos, a alíquota incide quando o prazo de pagamento do empréstimo é de 24 a 60 meses, com entradas inferiores a 20%, 30% e 40% do valor do carro.>
O diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Aldo Luiz Mendes, explica que as medidas reduzem o percentual de dedução nos depósitos compulsórios de 45% para 36% nas operações de compra. Segundo ele, o objetivo foi manter o mesmo valor monetário de dedução, uma vez que, com a elevação do compulsório, se o percentual de 45% fosse mantido, a possibilidade de dedução aumentaria. A alíquota não se aplica às operações de crédito rural e habitacional e aos veículos de carga.>
Momento é de poupar, diz consultorPara o consultor financeiro Antonio de Júlio, o momento é de segurar o bolso. De acordo com ele, com juros tão altos, não compensa investir em financiamento, seja ele com ou sem entrada. “Comprar financiado a longo prazo é quase um suicídio. Recomendo que as pessoas tenham paciência e poupem o dinheiro, pelo menos por enquanto”. Outra dica, de acordo com ele, é buscar carros mais baratos. “Se a pessoa quer mesmo comprar um carro, ela deve optar por seminovos. A regra do jogo é o governo quem faz e ele deu o aviso que quem arriscar vai pagar mais caro”. Para Júlio, esse é momento de criar uma consciência financeira. “O consumo dessa forma não é sadio”.>