Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Donaldson Gomes
Publicado em 8 de maio de 2026 às 05:50
Reeleito para um novo mandato como presidente da Fecomércio Bahia, Kelsor Fernandes defende mais diálogo entre o setor produtivo e o poder público, especialmente em temas que impactam diretamente o ambiente de negócios. O dirigente reforça a importância do comércio e dos serviços para a economia baiana, critica a ausência de discussões mais profundas sobre mudanças trabalhistas e aponta a necessidade de reformas estruturais no país. Ao mesmo tempo, ele destaca o papel social do Sistema S, por meio do Sesc e do Senac. Para o presidente da Fecomércio Bahia, fortalecer o empreendedorismo passa também pela valorização das instituições do terceiro setor, capazes de atuar onde muitas vezes o poder público não alcança, promovendo capacitação, inclusão e desenvolvimento econômico regional. >
Quem é>
Kelsor Fernandes é baiano de Alagoinhas. Atua no ramo imobiliário há mais de 40 anos e, desde a década de 1990, é sócio proprietário da imobiliária que leva o seu nome, administrada junto com os filhos. Sua trajetória no associativismo empresarial começou ao ingressar no Secovi BA – o Sindicato da Habitação. Foi reeleito por 90% dos votantes para presidir o Sistema até 2030, em eleição de chapa única.>
O senhor foi reconduzido à presidência da Fecomércio Bahia. Qual é a sua prioridade em seu novo mandato?>
Primeiro, dialogar fortemente com o poder público no sentido de encontrar caminhos. Nós temos o direito de discutir as ações que impactam diretamente o setor produtivo, o ambiente de negócios e a livre iniciativa. O poder público no Brasil está acostumado a jogar de cima para baixo e todo mundo precisa aceitar. Esquecem que quem mantém a economia girando é o empreendedor, que arrisca o tempo e o dinheiro em um país onde não é fácil empreender. Existem algumas coisas que a gente precisa discutir, como uma atenção maior para o pequeno, que dificilmente tem acesso a linhas de crédito, tem também a problemática da escala 6 x 1. Veja, nós não somos contrários à mudança, o que precisamos é discutir a forma de aplicar a nova legislação, e isto não está acontecendo. Temos conversado com deputados e o que eles nos dizem é que o governo está fazendo pressão para aprovar. Estamos num momento eleitoral e sabemos que o político vive de votos. O que acontece? Dificilmente vão deixar de aprovar a mudança da escala. A gente queria uma discussão mais profunda. Nós temos uma preocupação enorme com a vida dos nossos colaboradores, tanto que mantemos duas instituições sociais, fortemente voltadas a ele, o Senac, com a capacitação, e o Sesc, no atendimento do comerciário e a sua família. São investimentos fortíssimos. No Sesc Piatã, temos R$ 300 milhões voltados ao atendimento do trabalhador. Outra coisa que eu eu quero discutir com o poder público é a agenda de reformas que o país precisa. Já passou da hora de termos uma reforma administrativa, porque o governo gasta muito mais do que arrecada e a dívida em relação ao PIB cresce cada vez mais. Não vemos um posicionamento no sentido de reequilibrar as contas. >
Como tornar esta mudança na escala palatável para o empresariado? >
Veja um detalhe, o varejo é composto de pequenos e médios empresários. A gente queria ter a certeza de que não vai prejudicar estes negócios, porque parece que vai gerar um grande número de desemprego. Eu acredito que a mudança vai acontecer, não querem ouvir o setor produtivo como deveriam. Vamos ver se achamos um caminho para minorar os estragos, porque vamos ter que modificar as escalas de serviço. Quem utiliza serviços contínuos, como farmácias e supermercados, vai ter que discutir muito bem isso. Vão fechar nos finais de semana? É um processo de atraso, imagine em Salvador, uma cidade em que as pessoas vivem correndo, vale a pena fechar os supermercados nos fins de semana? Seguimos tentando o diálogo, estamos insistentemente procurando conversar, se a escala vai ser modificada, precisa acontecer paulatinamente. >
O governo federal lançou recentemente um programa para conter o endividamento da população. Que medidas podem resolver este problema de forma efetiva?>
Primeiro, baixar as taxas de juros. Depois, fazer as reformas que o país precisa. Desenrola, liberação de FGTS pode resolver o problema momentaneamente, mas a longo prazo, não. Sem uma mudança estrutural, o consumidor vai se enrolar de novo. Com uma taxa básica de juros em 14% ao ano, o cartão de crédito cobrando 400% ao ano, quem cair na asneira de usar o rotativo do cartão, nunca mais se desenrola. Veja, ter dívidas não é necessariamente um problema, o que preocupa é a inadimplência. As medidas do governo ajudam num primeiro momento, mas não resolvem o problema. O Brasil precisa de reformas estruturais.A gente precisa reformar a previdência social, precisa da reforma trabalhista, transformar a administração pública. Outra coisa, as ações precisam ser definitivas, não dá para mudar o governo e se desfazer tudo o que o anterior fez. >
A Fecomércio Bahia vai promover a Semana S nos próximos dias. Qual é o papel da entidade na promoção de um ambiente amigável ao empreendedor e à inovação, num mundo cada vez mais digital?>
Nós temos trabalhado firmemente no sentido de entregar ferramentas de inovação aos empresários, é uma meta na qual trabalhamos desde o início do mandato. Queremos que as pessoas entendam que a digitalização é alcançável. O pequeno empresário ainda não tem familiaridade com o e-commerce. Temos trabalhado muito com isso. No ano passado, fizemos o Bahia Connect, que tinha previsão de receber 15 mil pessoas, mas acabou atraindo 32 mil. É uma forma de trabalho permanente. Vamos trazer empresários importantes na Semana S. Vamos tratar de IA no varejo. Nós sabemos o que é ser empresário. >
A Bahia tem 417 municípios, em muitos temos agricultura e indústria, mas provavelmente o setor de comércio e serviços deve ser o único presente em todos. Como atender uma atividade espalhada por todo o estado?>
Antes de assumir a Fecomércio, fui vice-presidente durante oito anos, então já tinha uma visão. Eu sempre entendi a necessidade de abrir o sistema para o interior. O que estamos fazendo, expandindo principalmente os braços sociais. Abrimos diversas unidades no interior e temos negociações com outras cidades. Nossa intenção é continuar abrindo os braços do sistema. Mas onde ainda não temos unidades fixas, atendemos com sete carretas do Sesc. São todas novinhas, qualquer prefeitura pode fazer o convênio e solicitar o serviço. Quando eu digo que somos os maiores empregadores da Bahia, alguns nos olham com desdém. A Bahia é indústria, é agricultura, mas é essencialmente comércio. >