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Agência Correio
Publicado em 1 de abril de 2026 às 20:00
A cena se repete em muitas casas nos primeiros anos após a aposentadoria. No entanto, a psicologia sugere que esse silêncio masculino pode dizer muito mais do que parece à primeira vista.
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Especialistas alertam que o problema não é falta de assunto. Em muitos casos, é a perda da identidade que sustentou uma vida inteira. E isso muda tudo.>
Melhores cidades para idosos
Durante décadas, muitos homens aprenderam que seu valor estava no que produziam. Desde cedo, associaram reconhecimento à capacidade de prover, resolver problemas e cumprir metas.>
Pesquisas sobre papéis de gênero descrevem esse fenômeno como “autoestima contingente à masculinidade”. Ou seja, o valor pessoal depende do desempenho e do cumprimento de expectativas sociais.>
Assim, o trabalho oferecia estrutura, rotina e status. Sua profissão respondia à pergunta “Quem sou eu?”. Quando a aposentadoria chega, essa resposta simplesmente desaparece.>
Um estudo da Universidade de Gotemburgo identificou três fatores centrais na adaptação à aposentadoria: reconstrução da identidade, interação social e independência. Entre eles, a identidade se mostrou decisiva.>
Participantes relataram sensação de redundância após deixar o emprego. O trabalho não era apenas renda. Ele fornecia propósito, validação externa e um motivo diário para levantar da cama.>
Em 2024, um estudo publicado na revista BMC Geriatrics apontou que o significado atribuído ao trabalho foi forte preditor de sintomas depressivos em homens no pós-aposentadoria. Quando o trabalho significava tudo, perdê-lo custava caro.>
Além da perda simbólica, há outro obstáculo: muitos homens foram ensinados que força significa silêncio. Pedir ajuda seria sinal de fraqueza.>
Pesquisas sobre masculinidade indicam que redes de apoio masculino tendem a ser mais restritas. Compartilhar emoções, para muitos, entra em conflito com expectativas de contenção emocional.>
O psiquiatra Igor Galynker afirma, em entrevista ao portal norte-americano Geediting, que homens passam a vida focados em metas e negligenciam conexões sociais. Ao se aposentar, perdem simultaneamente o trabalho e parte do sentido da vida.>
O alerta vai além do campo emocional. Dados do Centers for Disease Control and Prevention mostram que homens idosos apresentam algumas das maiores taxas de suicídio nos Estados Unidos.>
Pesquisadores como Yeates Conwell destacam que depressão, doenças, isolamento e perda de autonomia costumam se combinar nessa fase. A aposentadoria aparece com frequência como transição crítica.>
Uma meta-análise no International Journal of Environmental Research and Public Health estimou uma prevalência média de 28% de depressão entre aposentados. O risco aumenta quando a saída do trabalho ocorre de forma involuntária.>
Durante anos, a pergunta dirigida a esses homens foi direta: “O que você faz?”. Raramente alguém perguntou quem eles eram além do cargo.>
Quando o trabalho termina, muitos enfrentam um vazio difícil de nomear. A transição exige reconstruir o senso de identidade e buscar novos significados, tarefa que nem todos aprenderam a realizar.>
Por isso, especialistas sugerem mudar o foco. Em vez de perguntar como ele ocupa o tempo, talvez seja mais importante perguntar o que importa agora. O silêncio pode não ser paz. Pode ser luto. E ele merece ser escutado.>