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Adeus ao tijolo: casa feita de 612 mil garrafas PET tem três quartos, dois banheiros, resiste a vento de 525 km/h e pode ser montada em poucos dias

Projeto transformou embalagens recicladas em painéis resistentes, com aparência convencional e capacidade de suportar ventos extremos

  • Foto do(a) author(a) Helena Merencio
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Helena Merencio

  • Agência Correio

Publicado em 19 de maio de 2026 às 14:19

A casa-conceito mostra como resíduos comuns do consumo diário podem ser incorporados à construção civil
A casa-conceito mostra como resíduos comuns do consumo diário podem ser incorporados à construção civil Crédito: Pexels

De longe, ninguém diria que uma casa comum à beira da costa canadense guarda centenas de milhares de garrafas plásticas em sua estrutura. A fachada é discreta, o acabamento lembra o de uma residência tradicional e os ambientes foram pensados para uma rotina familiar.

A diferença está no que não aparece: por trás das paredes, cerca de 612 mil embalagens recicladas ajudam a sustentar o imóvel.

Embalagens associadas ao descarte rápido podem ganhar uso de longa duração quando entram em novas cadeias produtivas por Pexels

Construída em Meteghan River, na província da Nova Escócia, a casa foi desenvolvida pela JD Composites como um projeto-conceito.

Chamada de Recycled House, ela usa painéis estruturais feitos com espuma de PET reciclado e camadas de fibra de vidro, em uma solução que substitui parte dos materiais convencionais sem deixar garrafas aparentes.

Com três quartos e dois banheiros, a residência mostra que a ideia não era criar uma casa com cara de experimento. Pelo contrário. O projeto tenta provar que um material associado ao descarte rápido pode virar parte de uma moradia resistente, durável e visualmente comum.

Estrutura diferenciada

Em projetos mais artesanais, garrafas plásticas costumam aparecer na alvenaria ou até na decoração. Na casa canadense, o caminho foi outro. O plástico passa primeiro por um processo industrial e se transforma em espuma rígida de PET, usada no interior dos painéis pré-fabricados.

Depois, essas peças recebem camadas de fibra de vidro. Desse processo saem componentes leves, resistentes e capazes de ajudar no isolamento térmico da construção.

Segundo a revista Dwell, a casa tem aproximadamente 1.806 pés quadrados, o equivalente a cerca de 168 m². Por isso, essa metragem é mais segura do que os 185 m² citados em algumas publicações sobre o projeto.

Na prática, a JD Composites tira as embalagens plásticas do lugar de lixo urbano e as coloca em uma cadeia de longa duração. O que antes seria descartado passa a compor uma estrutura feita para permanecer em uso por muitos anos.

Resistência ao vento

Durante os testes, um dos pontos que mais chamaram atenção foi a força dos painéis. Uma peça de cerca de 2,4 metros por 2,4 metros suportou ventos de 326 milhas por hora, velocidade próxima de 525 km/h.

Esse número fica muito acima do início da categoria 5 de furacões, que começa em 157 milhas por hora. Informações divulgadas sobre o ensaio indicam que o equipamento usado no teste chegou ao próprio limite sem conseguir destruir o painel.

Com esse desempenho, a tecnologia passou a ser observada como uma alternativa para regiões sujeitas a tempestades severas. Ainda assim, a Recycled House continua sendo apresentada principalmente como protótipo e demonstração técnica.

Aparência de casa comum

Parte da agilidade vem da pré-fabricação. Os painéis foram produzidos antes de chegar ao terreno e, depois, transportados para a montagem da residência.

Relatos sobre o projeto indicam prazos bastante curtos. A Armacell, fornecedora ligada ao material usado nos painéis, cita cerca de 170 peças montadas em 14 horas. Já a Dwell informa que a casa foi erguida no local em dois dias.

Por dentro, nada lembra uma construção improvisada. Há quartos, banheiros, cozinha e áreas de convivência, com acabamento residencial convencional. A inovação fica concentrada na estrutura, sem transformar o imóvel em algo distante do uso cotidiano.

Além da resistência mecânica, os criadores destacam isolamento térmico, proteção contra umidade e menor vulnerabilidade a mofo e apodrecimento. Esses pontos são especialmente importantes em regiões costeiras e úmidas, como a própria Nova Escócia.

Experiência com o mar

Fundada por David Saulnier e Joel German, a JD Composites nasceu em uma província fortemente ligada ao mar, à pesca e ao uso de materiais compostos em embarcações.

Essa convivência com ambientes úmidos e estruturas que precisam resistir bem ao tempo ajudou a orientar o desenvolvimento dos painéis. A proposta combina leveza, durabilidade e reaproveitamento de resíduos em larga escala.

Mesmo com visual discreto, a casa carrega uma informação difícil de ignorar: mais de 600 mil garrafas plásticas deixaram de ser tratadas apenas como descarte e passaram a fazer parte de uma moradia completa.

Para ganhar escala, um sistema desse tipo ainda dependeria de custos, certificações e adaptação às normas locais. Ainda assim, o projeto canadense mostra como a construção civil pode incorporar resíduos plásticos de forma técnica, resistente e sem abrir mão da aparência de uma casa comum.

Tags:

Sustentabilidade