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Arrepio, alegria e tristeza: o que acontece no cérebro quando uma música muda seu humor?

A sensação de arrepio, conforto ou energia provocada por uma música pode estar ligada à liberação de dopamina e a outras respostas químicas do cérebro

  • Foto do(a) author(a) Helena Merencio
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Helena Merencio

  • Agência Correio

Publicado em 9 de maio de 2026 às 18:00

Nem toda música provoca a mesma reação. O ritmo, a intensidade e a carga emocional da canção influenciam a maneira como o organismo responde
Nem toda música provoca a mesma reação. O ritmo, a intensidade e a carga emocional da canção influenciam a maneira como o organismo responde Crédito: Pexels

Basta uma batida conhecida, o começo de um refrão ou aquele trecho que parece guardar uma lembrança inteira para alguma coisa mudar. Em segundos, o corpo reage, o humor se desloca e uma sensação difícil de explicar aparece quase sem pedir licença.

Dentro da rotina de muita gente, esse efeito já parece familiar. Uma música pode aliviar a tensão, trazer energia, despertar memória ou criar uma sensação de conforto que não estava ali poucos instantes antes.

Ou, talvez, fazer tudo isso ao mesmo tempo.

Por muito tempo, essa reação ficou no campo da experiência pessoal. Era tratada como gosto, memória afetiva, sensibilidade ou apenas uma canção especial atravessando o dia de alguém.

E é aqui que aparece o cérebro, com uma resposta química bem mais concreta do que parece.

Estudos de neuroimagem indicam que, ao ouvir uma música considerada prazerosa, há liberação de dopamina no núcleo accumbens, região cerebral ligada à sensação de recompensa. Esse mesmo sistema participa de outras experiências agradáveis, como comer algo muito desejado.

No caso da música, entretanto, o estímulo chega sem efeito colateral físico. O som entra pelos ouvidos, mas ativa áreas relacionadas ao prazer, à memória e ao vínculo emocional.

Do burnout ao chá de sumiço: por que ficar offline virou símbolo de status. Foto de Vitor Patizeiro, com design de Thainá Dayube por Divulgação

O que acontece quando a música começa?

Não é apenas o trecho mais forte da canção que mexe com o cérebro. A reação pode começar antes mesmo do refrão.

Primeiro, vem a antecipação. Quando o cérebro reconhece padrões sonoros e prevê o que está prestes a acontecer, já ocorre liberação de dopamina. É aquela expectativa criada antes de uma batida marcante, de uma virada ou da parte mais aguardada da música.

Depois, chega o pico de prazer. O momento mais intenso da canção provoca uma nova descarga do neurotransmissor, frequentemente acompanhada de arrepios, euforia ou mudança rápida na disposição.

Por fim, o corpo entra em uma fase de estabilização emocional. Serotonina e ocitocina passam a atuar com mais força, favorecendo bem-estar, conforto e sensação de conexão.

Ao mesmo tempo, os níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse, tendem a diminuir. A partir disso, fica mais fácil entender por que algumas músicas parecem reorganizar o corpo em poucos minutos.

Som também virou cuidado

Ainda que a música esteja muito ligada ao entretenimento, seu efeito no organismo ajuda a explicar por que ela passou a aparecer em diferentes contextos de saúde.

Em hospitais, pode auxiliar na redução da ansiedade antes de procedimentos cirúrgicos. Na fisioterapia, contribui para a reabilitação motora. Na saúde mental, funciona como complemento em quadros leves de ansiedade, depressão e insônia.

Uma pesquisa da Universidade McGill, no Canadá, reforça essa percepção. Segundo o estudo, cerca de 15 minutos de música considerada prazerosa podem elevar a liberação de dopamina a níveis próximos aos de uma refeição apreciada.

Na verdade, esse dado mostra que a música não atua apenas como companhia. Em determinadas situações, ela aciona mecanismos cerebrais ligados ao prazer e ao bem-estar.

Ritmo muda a resposta do corpo

Nem toda música provoca a mesma reação. O ritmo, a intensidade e a carga emocional da canção influenciam a maneira como o organismo responde.

Músicas entre 60 e 80 batidas por minuto tendem a favorecer relaxamento e desaceleração cardíaca. Já faixas acima de 120 BPM costumam estimular energia e foco.

É por isso que sons mais acelerados aparecem com frequência em academias e ambientes de alta performance.

As letras também entram nessa engrenagem. Quando carregam emoção, memória afetiva ou mensagens de superação, ativam áreas do córtex pré-frontal, região relacionada à identidade e à autoestima.

Música deixa de ser individual

A música também tem uma força que ultrapassa a experiência de uma pessoa sozinha.

Cantar em grupo, dançar em shows ou compartilhar uma mesma trilha sonora estimula a liberação de ocitocina, hormônio associado ao vínculo social e à sensação de pertencimento.

Mesmo assim, esse efeito coletivo não anula a experiência íntima de cada pessoa. Pelo contrário: muitas vezes, a canção ganha outro peso justamente quando uma memória individual encontra um momento vivido em grupo.

Limite importante

Apesar dos benefícios, especialistas reforçam que a música deve ser vista como complemento, não como substituta de diagnóstico ou tratamento médico.

Segundo o jornal O Globo, o médico e terapeuta João Borzino afirma que a música pode ajudar no bem-estar emocional, mas não elimina a necessidade de acompanhamento profissional em casos mais complexos.

“Em casos de depressão, ansiedade ou trauma, o acompanhamento profissional é essencial”, explica o especialista.

Também ao jornal O Globo, Borzino reforça que o uso terapêutico do som funciona melhor quando aparece dentro de um cuidado mais amplo.

“Ela pode ser uma ferramenta poderosa de suporte, mas sempre dentro de um contexto de cuidado mais amplo.”

Tags:

Ciência Curiosidades