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Helena Merencio
Agência Correio
Publicado em 9 de maio de 2026 às 18:00
Basta uma batida conhecida, o começo de um refrão ou aquele trecho que parece guardar uma lembrança inteira para alguma coisa mudar. Em segundos, o corpo reage, o humor se desloca e uma sensação difícil de explicar aparece quase sem pedir licença. >
Dentro da rotina de muita gente, esse efeito já parece familiar. Uma música pode aliviar a tensão, trazer energia, despertar memória ou criar uma sensação de conforto que não estava ali poucos instantes antes.>
Ou, talvez, fazer tudo isso ao mesmo tempo.>
Por muito tempo, essa reação ficou no campo da experiência pessoal. Era tratada como gosto, memória afetiva, sensibilidade ou apenas uma canção especial atravessando o dia de alguém.>
E é aqui que aparece o cérebro, com uma resposta química bem mais concreta do que parece.>
Estudos de neuroimagem indicam que, ao ouvir uma música considerada prazerosa, há liberação de dopamina no núcleo accumbens, região cerebral ligada à sensação de recompensa. Esse mesmo sistema participa de outras experiências agradáveis, como comer algo muito desejado.>
No caso da música, entretanto, o estímulo chega sem efeito colateral físico. O som entra pelos ouvidos, mas ativa áreas relacionadas ao prazer, à memória e ao vínculo emocional.>
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Não é apenas o trecho mais forte da canção que mexe com o cérebro. A reação pode começar antes mesmo do refrão.>
Primeiro, vem a antecipação. Quando o cérebro reconhece padrões sonoros e prevê o que está prestes a acontecer, já ocorre liberação de dopamina. É aquela expectativa criada antes de uma batida marcante, de uma virada ou da parte mais aguardada da música.>
Depois, chega o pico de prazer. O momento mais intenso da canção provoca uma nova descarga do neurotransmissor, frequentemente acompanhada de arrepios, euforia ou mudança rápida na disposição.>
Por fim, o corpo entra em uma fase de estabilização emocional. Serotonina e ocitocina passam a atuar com mais força, favorecendo bem-estar, conforto e sensação de conexão.>
Ao mesmo tempo, os níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse, tendem a diminuir. A partir disso, fica mais fácil entender por que algumas músicas parecem reorganizar o corpo em poucos minutos.>
Ainda que a música esteja muito ligada ao entretenimento, seu efeito no organismo ajuda a explicar por que ela passou a aparecer em diferentes contextos de saúde.>
Em hospitais, pode auxiliar na redução da ansiedade antes de procedimentos cirúrgicos. Na fisioterapia, contribui para a reabilitação motora. Na saúde mental, funciona como complemento em quadros leves de ansiedade, depressão e insônia.>
Uma pesquisa da Universidade McGill, no Canadá, reforça essa percepção. Segundo o estudo, cerca de 15 minutos de música considerada prazerosa podem elevar a liberação de dopamina a níveis próximos aos de uma refeição apreciada.>
Na verdade, esse dado mostra que a música não atua apenas como companhia. Em determinadas situações, ela aciona mecanismos cerebrais ligados ao prazer e ao bem-estar.>
Nem toda música provoca a mesma reação. O ritmo, a intensidade e a carga emocional da canção influenciam a maneira como o organismo responde.>
Músicas entre 60 e 80 batidas por minuto tendem a favorecer relaxamento e desaceleração cardíaca. Já faixas acima de 120 BPM costumam estimular energia e foco.>
É por isso que sons mais acelerados aparecem com frequência em academias e ambientes de alta performance.>
As letras também entram nessa engrenagem. Quando carregam emoção, memória afetiva ou mensagens de superação, ativam áreas do córtex pré-frontal, região relacionada à identidade e à autoestima.>
A música também tem uma força que ultrapassa a experiência de uma pessoa sozinha.>
Cantar em grupo, dançar em shows ou compartilhar uma mesma trilha sonora estimula a liberação de ocitocina, hormônio associado ao vínculo social e à sensação de pertencimento.>
Mesmo assim, esse efeito coletivo não anula a experiência íntima de cada pessoa. Pelo contrário: muitas vezes, a canção ganha outro peso justamente quando uma memória individual encontra um momento vivido em grupo.>
Apesar dos benefícios, especialistas reforçam que a música deve ser vista como complemento, não como substituta de diagnóstico ou tratamento médico.>
Segundo o jornal O Globo, o médico e terapeuta João Borzino afirma que a música pode ajudar no bem-estar emocional, mas não elimina a necessidade de acompanhamento profissional em casos mais complexos.>
“Em casos de depressão, ansiedade ou trauma, o acompanhamento profissional é essencial”, explica o especialista.>
Também ao jornal O Globo, Borzino reforça que o uso terapêutico do som funciona melhor quando aparece dentro de um cuidado mais amplo.>
“Ela pode ser uma ferramenta poderosa de suporte, mas sempre dentro de um contexto de cuidado mais amplo.”>