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Helena Merencio
Agência Correio
Publicado em 9 de maio de 2026 às 16:00
Nem toda discussão sobre mudanças climáticas começa nas grandes indústrias, nos governos ou nas florestas ameaçadas. Às vezes, ela passa por escolhas comuns do cotidiano, como o que vai ao prato, o meio de transporte usado e a forma como determinados comportamentos são vistos socialmente. >
É nesse ponto que um novo estudo internacional reacendeu um debate delicado: a relação entre padrões culturais de masculinidade e danos ao meio ambiente.>
masculinidade
A pesquisa, conduzida por mais de 20 cientistas de 13 países, analisou como ideias associadas ao que se entende por “ser homem” podem influenciar hábitos de consumo, posicionamentos políticos e emissões de carbono.>
Publicado na revista acadêmica Norma: International Journal for Masculinity Studies, o trabalho reúne dados de diferentes regiões do mundo e aponta um padrão recorrente. Em média, homens apresentam uma pegada de carbono maior do que mulheres.>
Segundo os pesquisadores, essa diferença aparece principalmente em escolhas ligadas a transporte, alimentação e estilo de vida.>
Entre os hábitos citados no estudo, o consumo de carne aparece como um dos pontos centrais. A carne vermelha, em especial, é destacada pelo alto custo ambiental.>
Outro fator observado é o uso mais frequente de carros. De acordo com a pesquisa, homens também tendem a viajar mais e a consumir produtos com maior gasto energético.>
Um estudo mencionado pelos autores, feito na França com cerca de 15 mil pessoas, indicou que homens podem emitir até 26% mais poluentes do que mulheres nesses aspectos.>
A questão, no entanto, não está apenas no consumo individual. O trabalho também analisa como certos modelos de identidade masculina podem interferir na forma como homens enxergam a crise climática.>
Segundo os autores, homens demonstram, em média, menor preocupação com as mudanças climáticas e menor disposição para mudar hábitos cotidianos em nome da sustentabilidade.>
O estudo sugere que essa resistência também tem origem cultural. Em alguns contextos, atitudes como reduzir o consumo de carne ou escolher produtos ecológicos podem ser vistas como distantes dos ideais tradicionais de masculinidade.>
Essa percepção, segundo os pesquisadores, pode levar à rejeição de práticas ambientalmente responsáveis, mesmo quando elas são apresentadas como soluções simples para reduzir impactos.>
Em outras palavras, parte do problema estaria menos na biologia e mais nas normas sociais que moldam comportamentos desde cedo.>
A pesquisa também amplia a discussão para além das escolhas pessoais.>
Os cientistas destacam que homens ainda ocupam papel dominante em setores de grande impacto ambiental, como indústria pesada, agricultura intensiva e atividades extrativistas.>
Essas áreas estão entre as que mais contribuem para emissões e degradação ambiental. Por isso, o estudo aponta que o debate sobre masculinidade e clima não pode ser limitado apenas ao consumo doméstico ou aos hábitos individuais.>
Ele também passa por estruturas econômicas, políticas e profissionais nas quais homens seguem concentrando poder de decisão.>
Apesar do teor provocativo, os próprios autores fazem uma ressalva importante.>
A pesquisa não afirma que homens, de forma geral, sejam ruins para o planeta. O ponto central é outro: certos padrões de comportamento associados a normas sociais de masculinidade podem gerar consequências ambientais mais severas.>
O estudo também reconhece a existência de iniciativas positivas lideradas por homens em diferentes regiões do mundo, voltadas à sustentabilidade e à ação climática.>
No fim, a discussão proposta pelos pesquisadores não tenta reduzir a crise ambiental a uma disputa entre homens e mulheres. Ela chama atenção para algo mais amplo: comportamentos culturais, quando repetidos em larga escala, também deixam marcas no planeta.>