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Eduardo Bastos
Publicado em 24 de abril de 2026 às 08:55
Cabaceiras, no Cariri paraibano, registrou um feito inédito — e não porque tem chovido muito além do esperado na cidade mais seca do Brasil. Na última quarta-feira (15), mais da metade dos habitantes se reuniu na praça central para assistir os dois primeiros episódios da segunda temporada de Cangaço Novo, que estreia nesta sexta (24), no Prime Video. >
Passava das 18h quando os atores do elenco principal se juntaram aos nativos no espaço preparado para a première. Vizinhos do tapete vermelho, donos de lojas e carrinhos de comida pretendiam lucrar com a noite que marcou o ápice na história da cidade conhecida como Roliúde Nordestina. Desde os anos 90, após a gravação de Auto da Compadecida, Cabaceiras serviu de locação para dezenas de produções audiovisuais nacionais.>
Pelo menos, 10 cenas da nova temporada, que terá sete episódios lançados de uma vez só, foram gravadas no município onde moram cinco mil pessoas. A população integrou a produção como figurantes, cozinheiros e dublês. Foi o caso do agricultor contratado para ser dublê do protagonista Ubaldo, interpretado por Allan Souza Lima, em uma cena na zona rural.>
No início do primeiro episódio, o público assiste ao conflito que deve conduzir as próximas cenas: Ubaldo invade a fazenda dos Maleiros ao lado da irmã Dinorah, vivida por Alice Carvalho, e de Zeza, interpretada por Marcélia Cartaxo. Em alta velocidade, rompendo cercas com a caminhonete, o grupo busca justiça após a morte do pai adotivo de Ubaldo e o incêndio na igreja da Irmandade dos Três, pontos que ficaram em aberto no fim da primeira temporada dirigida por Aly Muritiba, que não conseguiu conciliar seus compromissos para retornar nessa nova etapa.>
Segunda temporada de Cangaço Novo
A série, considerada uma das melhores de 2023, acompanha a saga do protagonista, um ex-soldado e ex-bancário infeliz que retorna de São Paulo na busca por sua herança. De volta a Cratará, ele se torna um assaltante de banco imerso em dilemas morais e conflitos familiares. >
A escolha de Cabaceiras, inclusive, reflete a busca do diretor geral, Fábio Mendonça, por uma locação que gritasse aridez e beleza: “A gente queria um sertão mais opressor. Um sertão que eu conseguisse filmar sem ter o céu renascentista, com nuvens brancas que davam um aspecto muito lindo para a história que estávamos contando”.>
Agora, os irmãos Vaqueiro, interpretados por Allan, Alice Carvalho e Thainá Duarte (Dilvânia), surgem mais unidos. A caçula ganha força ao assumir um papel espiritual. Depois de sonhar com Amaro, pai deles e cangaceiro cultuado no Cratará, ela transforma as cinzas da igreja em uma bebida milagrosa. “A ideia é retratar o sincretismo do Brasil. Vejo muito isso na minha família que é muito religiosa, mas de diversas religiões”, explica a roteirista Mariana Bardan.>
Para construir a jornada espiritual da personagem, Thainá Duarte passou tardes na casa de um benzedor conhecido de Cabaceiras. “O contato com o outro, o olhar no olho do outro, disponibilizar o seu tempo pra trocar. Eu acho que a fé de Dilvânia se traduz nessa presença, com o olhar pro próximo”, pondera.>
Com o colapso do antigo bando, a série abre espaço para novos personagens. Em uma vaquejada, Dinorah organiza uma espécie de seleção improvisada: vence quem acertar a cabeça de uma boneca em um tiro ao alvo. >
É nesse cenário que surge o personagem de Lucas Veloso, ator conhecido por papéis cômicos. “Tive que interpretar um vaqueiro, brabo, posturado e gago. É pra se lascar!”, recela, arrancando risadas.>
Outro nome que entra na trama é o de Xamã. O personagem dele não foi revelado durante a première: por ora, sabemos apenas que interpreta um carioca com experiência militar que deve se integrar ao grupo dos Vaqueiro. Fã da série, o artista demonstrou interesse em participar do projeto, o que adiciona uma camada de expectativa ao olhar do público.>
Se por um lado, a espiritualidade amplia o universo de Cangaço Novo, por outro, o arco de Ubaldo perde fôlego nos primeiros episódios. Depois de uma tentativa frustrada de roubo, que resulta na morte do delegado Pixinga, o personagem mergulha em um estado de desilusão e isolamento inesperado.>
É nesse momento que surge a relação com um cavalo que passa a segui-lo. A convivência vira uma encruzilhada entre o animal e o humano. O encontro proporciona um quê de realismo fantástico em uma produção que, na primeira temporada, apostou na complexidade da verossimilhança. “Eu acredito que Ubaldo e esse cavalo são uma pessoa só”, afirma Allan. >
A disputa por poder político, por outro lado, ganha mais espaço e densidade. Mesmo operando em estruturas ainda dominadas por homens, as mulheres têm mais espaço nas decisões e articulações de poder. >
Violência, ação, política e espiritualidade se entrelaçam como motores dessa nova temporada, aprofundando os conflitos entre as famílias Vaqueiro, Maleiro e Leite. O clima é de tensão constante, e os ganchos finais geram expectativa para os próximos episódios. Está aberta a temporada de caça em Cratará.>
*O repórter viajou a Cabaceiras a convite do Prime Video.>