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As décadas de 1960 e 1970 produziram acidentalmente uma das gerações mais emocionalmente fortes da história moderna

Entre chaves no pescoço e joelhos ralados, a ciência explica como a liberdade sem filtros das décadas passadas criou adultos prontos para qualquer tempestade

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  • Foto do(a) author(a) Raphael Miras
  • Agência Correio

  • Raphael Miras

Publicado em 5 de abril de 2026 às 16:00

Brincar sem supervisão nos anos 70 ajudou a moldar a resiliência emocional de toda uma geração
Brincar sem supervisão nos anos 70 ajudou a moldar a resiliência emocional de toda uma geração Crédito: Banco de imagem

Enquanto hoje a criação de filhos parece um exercício de monitoramento 24h e agendas cronometradas, especialistas estão olhando pelo retrovisor. Eles querem entender por que as gerações de 1960 e 1970 se tornaram tão resilientes.

O que hoje o Instagram chamaria de "descuido", na época era apenas a vida como ela é: crianças com autonomia total para explorar o bairro e, acima de tudo, para resolver seus próprios B.Os.

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O poder da "liberdade vigiada de longe"

O segredo da força emocional daqueles adultos morava nas brincadeiras de rua, longe do olhar atento dos pais. Psicólogos usam o termo “negligência benigna” para explicar esse distanciamento saudável.

Funciona assim: sem um adulto por perto para apitar a falta ou mediar o conflito, a molecada era obrigada a aprender a arte da negociação e a engolir o choro sozinha.

Quem não se lembra (ou ouviu falar) das “crianças de chave no pescoço”? Elas voltavam da escola, esquentavam o almoço e gerenciavam o próprio tempo até o pôr do sol. Esse cenário forçava um amadurecimento na marra. A frustração era resolvida ali mesmo, no meio da calçada, sem o "colo imediato" que hoje impede o aprendizado do erro.

"Calos na alma" e autoconfiança

Lidar com a rejeição do grupo, o medo do escuro ou o joelho ralado sem ter um guardião por perto criava o que chamamos de “calos emocionais”. Esses escudos invisíveis permitiram que, décadas depois, esses indivíduos enfrentassem as crises da vida adulta sem desmoronar ou paralisar diante da ansiedade.

A ciência assina embaixo. Estudos de Harvard mostram que o brincar livre — aquele sem regras de adultos — é o melhor combustível para a saúde mental. Ao vencer um desafio sem esperar o "parabéns" de ninguém, a criança aprendia a lição mais valiosa de todas: ela podia confiar em si mesma.

O custo da redoma de vidro

Hoje, o cenário é o oposto. Entre telas e o medo (compreensível) da violência, transformamos a infância em um evento controlado. A psiquiatria alerta: quando os pais correm para resolver qualquer desconforto do filho, eles "roubam" do cérebro da criança a chance de criar anticorpos contra o estresse.

O resultado? Uma geração que, embora mais segura fisicamente, se sente fragilizada internamente. É a ironia do cuidado: ao tentar proteger de tudo, podemos estar desarmando nossos filhos para o mundo real.

Como resgatar esse espírito hoje?

Calma, ninguém está sugerindo soltar crianças de cinco anos em avenidas movimentadas. O segredo é adaptar a essência daquela liberdade. Algumas dicas práticas:

  • Deixe a discussão correr: Se os irmãos estão disputando um brinquedo, espere um minuto antes de intervir. Deixe que eles tentem um acordo.

  • Desplugue o tédio: Ofereça tempo livre de verdade, sem telas. O tédio é o pai da criatividade e da autonomia.

  • Permita o erro bobo: Não corrija tudo o tempo todo. Deixe que a criança perceba sozinha que o desenho saiu torto ou que o castelo de areia caiu porque a base era fraca.

  • Pé na grama e olho longe: Incentive o brincar ao ar livre em lugares seguros, mas fique no banco do parque lendo um livro. Deixe que eles sintam que o mundo é deles por alguns momentos.

Amadurecer exige um equilíbrio delicado entre o afeto e a liberdade para falhar. No fim das contas, a resiliência é como um músculo: ela só cresce se for colocada à prova.