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Como um rebanho de apenas 5 vacas conseguiu sobreviver sozinho em uma ilha isolada e chegar a quase 2 mil animais

Crescimento da manada chamou a atenção da comunidade científica por ter prosperado em condições extremas por mais de um século

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 8 de junho de 2026 às 20:30

Apesar de atualmente ele ter sido extinto artificalmente, o rebanho da Ilha Amsterdã teve uma grande importância para estudos genéticos
Apesar de atualmente ele ter sido extinto artificalmente, o rebanho da Ilha Amsterdã teve uma grande importância para estudos genéticos Crédito: Wikimedia Commons

Cinco vacas deixadas em uma ilha remota em 1871 deram origem a um rebanho que sobreviveu por mais de um século no meio do Oceano Índico. Décadas depois, o DNA desses animais revelou uma história mais complexa do que parecia.

A população chegou a milhares de indivíduos, mesmo após partir de um grupo pequeno demais para os padrões esperados pela biologia. O caso virou um raro experimento natural sobre isolamento, adaptação, endogamia e espécies invasoras.

O auroque foi o ancestral selvagem do gado taurino domesticado no Oriente Próximo há cerca de 10,5 mil anos por DFoidl / Wikimedia Commons

Cinco contra tudo

A história começou em 1871, quando um fazendeiro francês chamado Heurtin tentou se instalar na Ilha de Amsterdã, território remoto no sul do Oceano Índico. O plano não deu certo, mas alguns animais ficaram para trás.

Entre eles estavam cinco cabeças de gado. Sozinhas e sem manejo humano, elas passaram a viver em uma ilha vulcânica, fria, úmida, exposta a ventos fortes e com pouquíssimos recursos.

A ilha é composta de um planalto raso com ventos fortes nas chamadas Terras Austrais e Antártidas Francesas
A ilha é composta de um planalto com ventos fortes nas chamadas Terras Austrais e Antártidas Francesas Crédito: Antoine Lamielle / Wikimedia Commons

Contra a expectativa, o pequeno grupo não desapareceu, mas sim prosperou. Ao longo das décadas, esses animais se reproduziram, formaram um gigante rebanho selvagem e chegaram a cerca de 2 mil indivíduos no auge da sua população.

Contra as expectativas

Na biologia, populações fundadas por poucos indivíduos costumam enfrentar um problema grave: a baixa diversidade genética. Com poucos ancestrais, aumenta o risco de cruzamentos entre parentes e de doenças hereditárias.

Quando animais se reproduzem entre parentes próximos, o que inclui humanos, há maior probabilidade de doenças genéticas se acumularem nos descendentes. No longo prazo, isso diminui drasticamente a chance de sobrevivência de qualquer espécie.

Um dos casos mais famosos de problemas genéticos derivados de incesto (endogamia) é a Casa de Habsburgo. Uma família real que teve como marca registrada o prognatismo mandibular
Um dos casos mais famosos de problemas genéticos derivados de incesto (endogamia) é a Casa de Habsburgo. Uma família real que teve como marca registrada o prognatismo mandibular Crédito: Christoph Amberger / Wikimedia Commons

Por isso, o caso das vacas da Ilha de Amsterdã parecia improvável. Cinco animais eram pouco para sustentar um rebanho por mais de 130 anos em um ambiente isolado, sem novas introduções conhecidas.

Ainda assim, o rebanho resistiu. Segundo estudo publicado na revista Molecular Biology and Evolution, a explicação passa por uma combinação entre sorte genética e um crescimento explosivo que impediu o incesto prolongado.

A endogamia existiu. Os pesquisadores estimaram níveis elevados de parentesco no rebanho, cerca de 30%, algo esperado em uma população iniciada por apenas cinco animais. Mesmo assim, não encontraram sinais fortes de colapso genético.

Isso pode ter acontecido porque a população cresceu rápido. Quando um grupo pequeno passa pouco tempo com poucos indivíduos, ele consegue preservar parte da diversidade antes que os efeitos negativos se acumulem com força.

DNA como um livro de história

A equipe analisou amostras biológicas coletadas em 1992 e 2006, antes da eliminação do rebanho em 2010. Esse material permitiu reconstruir a origem genética das vacas décadas depois do fim da população.

O resultado mostrou que os animais não vinham de uma única linhagem. Cerca de três quartos do DNA eram ligados a gado taurino europeu, próximo a raças como a Jersey. O restante vinha de zebus do Oceano Índico.

Essa adaptação genética parece ter sido a chave da sobrevivência, pois essas linhagens europeias eram adaptadas a climas frios, como o da Ilha de Amsterdã
Essa adaptação genética parece ter sido a chave da sobrevivência, pois essas linhagens europeias eram adaptadas a climas frios, como o da Ilha de Amsterdã Crédito: Wikimedia Commons

Elas encolheram por evolução?

Durante anos, uma hipótese chamou atenção: a de que as vacas teriam passado por um nanismo insular muito rápido. Esse fenômeno ocorre quando grandes mamíferos isolados em ilhas ficam menores ao longo das gerações.

Um exemplo famoso de espécie que passou por nanismo insular foram os elefantes-pigmeus-de-Bornéu, nativos das florestas tropicais da Indonésia
Um exemplo famoso de espécie que passou por nanismo insular foram os elefantes-pigmeus-de-Bornéu, nativos das florestas tropicais da Indonésia, que é consideravelmente menor que os elefantes que vivem no continente africano ou asiático Crédito: PLoS Biology / Wikimedia Commons

Em 2017, um estudo publicado na Scientific Reports propôs que o gado da Ilha de Amsterdã teria reduzido o tamanho corporal para cerca de três quartos do tamanho original em pouco mais de um século.

Porém, uma nova análise genética de 2024 limitou essa interpretação. Para os pesquisadores, os animais provavelmente já descendiam de raças menores quando chegaram à ilha.

Ou seja, a estatura menor provavelmente já era parte da genética dos cinco espécimes originais, sendo mais uma das razões pelas quais o rebanho conseguiu prosperar. Pois animais menores sobrevivem com menos recursos e assim favorecem a sobrevivência na ilha isolada.

Paradoxo das espécies invasoras

O caso se encaixa em uma discussão maior da biologia: como espécies introduzidas conseguem prosperar mesmo após gargalos genéticos severos? Esse dilema é conhecido como “paradoxo genético das invasões”.

Espécies invasoras muitas vezes começam com poucos indivíduos, pouca diversidade genética e alto risco de endogamia. Mesmo assim, algumas se espalham muito bem, dominam o ambiente e viram problema ecológico.

Uma revisão publicada na Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics explica que o paradoxo nem sempre é real. Às vezes, a diversidade perdida não atinge justamente as características mais importantes para sobreviver.

Em outros casos, a espécie já chega com traços adequados ao novo ambiente. Foi o que provavelmente ocorreu com as vacas de Amsterdã: elas enfrentaram isolamento extremo, mas não partiram de um “zero” biológico.

Espécies como as pítons-birmanesas introduzidas no Texas, mesmo sendo originárias de outra região, possuem adaptações biológicas que as tornam ainda mais eficientes no novo habitat do que no seu habitat natural
Espécies como as pítons-birmanesas introduzidas no Texas, mesmo sendo originárias de outra região, possuem adaptações biológicas que as tornam ainda mais eficientes no novo habitat do que no seu habitat natural Crédito: Rushen / Wikimedia Commons

Fim do rebanho

Apesar do valor científico, as vacas se tornaram um problema ambiental. Como espécie invasora, elas pressionavam demais a esparsa vegetação nativa e afetavam áreas importantes para aves da ilha, como o albatroz-de-amsterdã.

Em 1987 começaram a ser tomadas medidas de "meio-termo" para tentar buscar uma convivência do gado com as espécies nativas. Cercas foram instaladas e mais de mil animais foram abatidos para manter a população sob controle e fora de áreas específicas da ilha. Novos abates também foram feitos em 1992.

A partir dos anos 2000, com a criação da Reserva Natural Nacional das Terras Austrais Francesas e a prioridade dada ao albatroz-de-amsterdam, as autoridades decidiram eliminar o restante do gado. O abate final começou em 2008 e terminou em 2010.

O ponto mais delicado é que o rebanho não foi preservado em outro lugar. O estudo genético de 2024 afirma que a população foi erradicada em 2010 “sem qualquer esforço para coletar amostras biológicas” naquele momento.

A pesquisa só foi possível porque existiam amostras antigas, de 1992 e 2006, guardadas por campanhas anteriores
A pesquisa só foi possível porque existiam amostras antigas, de 1992 e 2006, guardadas por campanhas anteriores Crédito: Franek2 / Wikimedia Commons

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