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Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 8 de junho de 2026 às 20:30
Cinco vacas deixadas em uma ilha remota em 1871 deram origem a um rebanho que sobreviveu por mais de um século no meio do Oceano Índico. Décadas depois, o DNA desses animais revelou uma história mais complexa do que parecia. >
A população chegou a milhares de indivíduos, mesmo após partir de um grupo pequeno demais para os padrões esperados pela biologia. O caso virou um raro experimento natural sobre isolamento, adaptação, endogamia e espécies invasoras.>
Curiosidades sobre vacas selvagens
A história começou em 1871, quando um fazendeiro francês chamado Heurtin tentou se instalar na Ilha de Amsterdã, território remoto no sul do Oceano Índico. O plano não deu certo, mas alguns animais ficaram para trás.>
Entre eles estavam cinco cabeças de gado. Sozinhas e sem manejo humano, elas passaram a viver em uma ilha vulcânica, fria, úmida, exposta a ventos fortes e com pouquíssimos recursos.>
Contra a expectativa, o pequeno grupo não desapareceu, mas sim prosperou. Ao longo das décadas, esses animais se reproduziram, formaram um gigante rebanho selvagem e chegaram a cerca de 2 mil indivíduos no auge da sua população.>
Na biologia, populações fundadas por poucos indivíduos costumam enfrentar um problema grave: a baixa diversidade genética. Com poucos ancestrais, aumenta o risco de cruzamentos entre parentes e de doenças hereditárias.>
Quando animais se reproduzem entre parentes próximos, o que inclui humanos, há maior probabilidade de doenças genéticas se acumularem nos descendentes. No longo prazo, isso diminui drasticamente a chance de sobrevivência de qualquer espécie.>
Por isso, o caso das vacas da Ilha de Amsterdã parecia improvável. Cinco animais eram pouco para sustentar um rebanho por mais de 130 anos em um ambiente isolado, sem novas introduções conhecidas.>
Ainda assim, o rebanho resistiu. Segundo estudo publicado na revista Molecular Biology and Evolution, a explicação passa por uma combinação entre sorte genética e um crescimento explosivo que impediu o incesto prolongado.>
A endogamia existiu. Os pesquisadores estimaram níveis elevados de parentesco no rebanho, cerca de 30%, algo esperado em uma população iniciada por apenas cinco animais. Mesmo assim, não encontraram sinais fortes de colapso genético.>
Isso pode ter acontecido porque a população cresceu rápido. Quando um grupo pequeno passa pouco tempo com poucos indivíduos, ele consegue preservar parte da diversidade antes que os efeitos negativos se acumulem com força.>
A equipe analisou amostras biológicas coletadas em 1992 e 2006, antes da eliminação do rebanho em 2010. Esse material permitiu reconstruir a origem genética das vacas décadas depois do fim da população.>
O resultado mostrou que os animais não vinham de uma única linhagem. Cerca de três quartos do DNA eram ligados a gado taurino europeu, próximo a raças como a Jersey. O restante vinha de zebus do Oceano Índico.>
Durante anos, uma hipótese chamou atenção: a de que as vacas teriam passado por um nanismo insular muito rápido. Esse fenômeno ocorre quando grandes mamíferos isolados em ilhas ficam menores ao longo das gerações.>
Em 2017, um estudo publicado na Scientific Reports propôs que o gado da Ilha de Amsterdã teria reduzido o tamanho corporal para cerca de três quartos do tamanho original em pouco mais de um século.>
Porém, uma nova análise genética de 2024 limitou essa interpretação. Para os pesquisadores, os animais provavelmente já descendiam de raças menores quando chegaram à ilha. >
Ou seja, a estatura menor provavelmente já era parte da genética dos cinco espécimes originais, sendo mais uma das razões pelas quais o rebanho conseguiu prosperar. Pois animais menores sobrevivem com menos recursos e assim favorecem a sobrevivência na ilha isolada.>
O caso se encaixa em uma discussão maior da biologia: como espécies introduzidas conseguem prosperar mesmo após gargalos genéticos severos? Esse dilema é conhecido como “paradoxo genético das invasões”.>
Espécies invasoras muitas vezes começam com poucos indivíduos, pouca diversidade genética e alto risco de endogamia. Mesmo assim, algumas se espalham muito bem, dominam o ambiente e viram problema ecológico. >
Uma revisão publicada na Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics explica que o paradoxo nem sempre é real. Às vezes, a diversidade perdida não atinge justamente as características mais importantes para sobreviver.>
Em outros casos, a espécie já chega com traços adequados ao novo ambiente. Foi o que provavelmente ocorreu com as vacas de Amsterdã: elas enfrentaram isolamento extremo, mas não partiram de um “zero” biológico.>
Apesar do valor científico, as vacas se tornaram um problema ambiental. Como espécie invasora, elas pressionavam demais a esparsa vegetação nativa e afetavam áreas importantes para aves da ilha, como o albatroz-de-amsterdã.>
Em 1987 começaram a ser tomadas medidas de "meio-termo" para tentar buscar uma convivência do gado com as espécies nativas. Cercas foram instaladas e mais de mil animais foram abatidos para manter a população sob controle e fora de áreas específicas da ilha. Novos abates também foram feitos em 1992.>
A partir dos anos 2000, com a criação da Reserva Natural Nacional das Terras Austrais Francesas e a prioridade dada ao albatroz-de-amsterdam, as autoridades decidiram eliminar o restante do gado. O abate final começou em 2008 e terminou em 2010. >
O ponto mais delicado é que o rebanho não foi preservado em outro lugar. O estudo genético de 2024 afirma que a população foi erradicada em 2010 “sem qualquer esforço para coletar amostras biológicas” naquele momento. >