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Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 5 de junho de 2026 às 20:20
Se você já assistiu a Jurassic Park, deve ter ouvido a icônica frase: “a natureza dá um jeito” no momento em que os cientistas constatam que os animais trocaram de gênero para conseguir se reproduzir. Porém, isso também acontece na vida real.>
Alguns animais conseguem mudar de sexo biológico, alternar papéis reprodutivos ou até imitar o sexo oposto para sobreviver. O fenômeno mostra como a natureza usa estratégias flexíveis para manter a reprodução.>
Animais que podem transicionar
O peixe-palhaço é um dos exemplos mais famosos de animais que transicionam. Esses espécimes, que ficaram famosos no filme Nemo, vivem em grupos organizados por uma hierarquia rígida, geralmente protegidos por anêmonas nos recifes de coral.>
No topo do grupo fica uma fêmea dominante. Logo abaixo dela está o macho reprodutor. Se a fêmea morre ou desaparece, esse macho pode passar por uma transformação e ocupar o lugar deixado por ela.>
Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports a resposta genética rápida no cérebro quando a fêmea morre. Esse comando chega às gônadas, onde o tecido testicular regride aos poucos e o tecido ovariano se desenvolve até a formação de uma nova fêmea.>
Em outras espécies, a mudança segue o caminho oposto. Bodiões, peixes marinhos comuns em recifes, podem nascer fêmeas e se transformar em machos quando o macho dominante desaparece.>
Quando isso ocorre, a maior fêmea do grupo assume a liderança. O corpo muda, órgãos masculinos se desenvolvem e o comportamento pode ficar mais agressivo, principalmente na defesa do território.>
Em muitas espécies, temperaturas mais altas favorecem o nascimento de fêmeas. Já temperaturas mais baixas tendem a gerar mais machos. Por isso, o aquecimento global preocupa pesquisadores que estudam tartarugas ameaçadas.>
O risco é simples: praias cada vez mais quentes podem desequilibrar a proporção entre machos e fêmeas. No longo prazo, isso pode afetar a reprodução de populações inteiras.>
O peixe-papagaio também entra nessa lista porque algumas espécies podem mudar de fêmea para macho ao longo da vida. O processo costuma ser acompanhado por alterações marcantes nas cores do corpo.>
No peixe-papagaio-sinaleiro, por exemplo, pesquisadores já descreveram a passagem da fase inicial, geralmente associada a fêmeas, para a fase terminal, associada a machos maiores e mais coloridos.>
As ostras também podem mudar de sexo ao longo da vida, embora o processo funcione de forma diferente dos peixes. Em algumas espécies, o mesmo indivíduo pode atuar como macho em uma temporada reprodutiva e como fêmea em outra.>
Um estudo com a ostra-do-Pacífico acompanhou 1.386 indivíduos por seis anos. Entre eles, 58% foram classificados como hermafroditas sequenciais, com parte dos animais mudando de sexo uma ou mais vezes ao longo do período analisado.>
Os lagartos pogona, nativos da Austrália, mostram uma situação ainda mais curiosa. Alguns indivíduos com cromossomos masculinos podem se desenvolver como fêmeas quando os ovos passam por determinadas temperaturas.>
Nesses casos, a mudança não ocorre depois de adulto. Ela acontece durante o desenvolvimento embrionário, antes do nascimento, quando o corpo ainda está se formando dentro do ovo.>
As rãs entram nessa discussão por outro caminho. Anfíbios são muito sensíveis às condições da água, porque têm pele permeável e passam parte da vida em ambientes aquáticos. Concentrações de poluentes na água podem afetar diretamente o sexo desses animais.>
Um estudo publicado na PNAS em 2002 expôs girinos de rã-de-unhas-africana (Xenopus laevis) ao herbicida atrazina. Os autores relataram hermafroditismo, redução de características masculinas e queda nos níveis de testosterona em machos expostos.>
Alguns animais não mudam de sexo de fato, mas usam aparência ou comportamento para enganar rivais. O choco, parente da lula, é um exemplo de estratégia visual sofisticada.>
Machos menores podem exibir um padrão corporal para atrair a fêmea de um lado e, ao mesmo tempo, parecer inofensivos para outro macho do lado oposto. É quase um disfarce reprodutivo.>
Os gobídeos de coral são peixes pequenos que vivem muito próximos dos corais, em ambientes onde encontrar um novo parceiro pode ser difícil. Por isso, algumas espécies desenvolveram uma flexibilidade rara.>
No caso do Gobiodon histrio, pesquisadores observaram mudança bidirecional de sexo. Isso significa que o animal pode se ajustar conforme a composição do casal ou do pequeno grupo em que vive.>
O Serranus tortugarum, pequeno peixe encontrado no Caribe, tem outra estratégia. Ele é hermafrodita simultâneo, ou seja, possui estruturas masculinas e femininas funcionais.>
Durante a reprodução, o casal pode alternar papéis sexuais várias vezes em um mesmo período. Essa troca ajuda os dois indivíduos a dividir o esforço reprodutivo de forma mais equilibrada.>