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Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 20 de maio de 2026 às 20:00
É pique ou é big? Acredite se quiser, a forma de cantar a tradicional música de aniversário varia muito de estado para estado. Você talvez nunca tenha pensado nisso, mas todo brasileiro reconhece essa cena:>
As luzes se apagam, o bolo aparece, alguém puxa a canção e, de repente, ninguém sabe exatamente onde o “Parabéns” termina. Às vezes, ele acaba rápido; às vezes, não. Para sanar essa dúvida, o Correio da Bahia levantou um pouco da história dessa música icônica.>
Presente pelos 400 anos de Salvador, em 1949, ano em que a data do aniversário foi oficializada
Essa natureza mutante da canção vem desde suas origens, bem longe do Brasil. A melodia original veio de “Good Morning to All”, canção publicada em 1893 pelas irmãs norte-americanas Mildred J. Hill e Patty Smith Hill.>
No Brasil, a versão em português foi escolhida em um concurso promovido pelo radialista Almirante, nome artístico de Henrique Foréis Domingues. Segundo a ABERT, a disputa ocorreu em 1941, no programa “Orquestra de Gaitas”, da Rádio Nacional. Cerca de 5 mil letras foram enviadas.>
A vencedora foi Bertha Celeste Homem de Mello, farmacêutica, professora e poetisa de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo. Ela concorreu sob pseudônimo e criou a letra que se tornou a mais cantada em aniversários brasileiros.>
Mesmo que a letra original fosse breve, o povo brasileiro conseguiu ampliá-la em cada região do país. O cerne escrito por Bertha continua em quase todas as versões, mas o restante é modular, e cada grupo adiciona uma parte diferente.>
O “Parabéns” funciona como uma pequena performance coletiva. O aniversariante fica no centro, todos olham para ele, a vela marca o clímax e o grupo decide, quase por instinto, quanto a música vai durar e que versão será cantada.>
Na Bahia, especialmente em Salvador, o “Parabéns” costuma aparecer em formato mais estendido. A canção principal pode ser seguida por trechos sobre a vela, uma nova rodada de parabéns, bênçãos ao aniversariante e outras chamadas festivas.>
Diferentemente do caso paulista, a versão baiana é mais difícil de rastrear uma fonte única. Ela aparece, sobretudo, como tradição oral, mas há sempre uma estrutura reconhecível.>
Segue uma versão popular da canção soteropolitana, ela pode ter alterações dependendo da família ou região:>
“Parabéns pra você>
Nessa data querida>
Muitas felicidades>
Muitos anos de vida>
Que Deus lhe dê>
Muita saúde e paz>
Eeeeeeeeeeee>
Que os anjos digam amém>
Parabéns pra você>
Parabéns pra você>
Pelo seu aniversário>
Chegou a hora de apagar as velinhas>
Vamos cantar aquela musiquinha>
Parabéns pra você>
Pelo seu aniversário”>
A versão paulista mais conhecida é a que emenda o “Parabéns” com o “é pique” e o “rá-tim-bum”. Essa continuação tem origem mais documentada do que outras variações regionais e costuma ser associada aos estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo.>
Segundo a revista Pesquisa FAPESP, o trecho incorporado ao aniversário brasileiro seria uma colagem de bordões usados por estudantes das Arcadas nos anos 1930. Esses gritos ecoavam no restaurante Ponto Chic, ponto tradicional do centro paulistano.>
A história é cheia de folclore universitário. O “pique” teria relação com o apelido de um estudante conhecido por usar uma tesourinha para aparar barba e bigode. O “é hora” viria de um grito de botequim, ligado ao momento de esperar a bebida gelar.>
Já o “rá-tim-bum” tem versões diferentes. Uma delas associa a expressão a uma brincadeira com um rajá indiano que teria visitado a faculdade. Outra entende o som como uma espécie de finalização festiva, parecida com fanfarra.>
A teoria sobre o rajá indiano foi levantada por historiadores da revista Superinteressante.>
No Rio Grande do Sul, existe uma versão regional própria, conhecida como “Parabéns Gaúcho”, “Parabéns Crioulo” ou “Parabéns Gaudério”. Ela é atribuída a Dimas Costa e Eleu Salvador e se tornou comum em festas ligadas à cultura tradicionalista.>
No Maranhão, há indícios de uma segunda parte diferente da versão mais comum no Sudeste. Ela se aproxima de fórmulas mais longas, com estrofes adicionais e uma dinâmica que lembra repertórios lusófonos.>
Já em festas infantis, especialmente a partir das últimas décadas do século 20, músicas de televisão e repertórios de palhaços também influenciaram o ritual. Trechos sobre apagar a vela e cantar outra “musiquinha” aparecem em diversas versões em programas infantis.>