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Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 10 de maio de 2026 às 11:11
Antônio Gaudério perdeu as lembranças de quase toda a vida depois de um acidente doméstico em 2008, mas não perdeu a relação profunda com as imagens que fez ao longo da carreira. >
Com a ajuda da filha, Ana Aurora Borges, o fotojornalista voltou a encarar o próprio acervo. De uma maneira comovente, a filha utiliza o trabalho de seu pai como uma forma de que Gaudério redescubra seu próprio passado.>
Ana Aurora Borges
em entrevista ao Correio BrazilienseAlguns trabalhos de Antônio Gaudério
Ana Aurora Borges passou a abrir caixas, rever negativos, organizar arquivos e mostrar as imagens ao pai. O gesto começou de maneira íntima e despretensiosa, mas ganhou outro significado em breve: preservar a obra de Antônio Gaudério e aproximá-lo da própria história.>
Ao Correio Braziliense, ela resumiu o impacto do acidente com uma frase direta: "Eu costumo dizer que meu pai zerou o HD". Depois da queda, Gaudério precisou reaprender funções básicas e se afastou da rotina profissional.>
As fotos, porém, criaram um caminho possível. Ele não voltou a lembrar de tudo, mas passou a reagir ao acervo, escolher imagens, comentar enquadramentos e participar da curadoria do trabalho que construiu antes do acidente.>
Esse processo dialoga com um artigo publicado no International Journal of Integrated Care, que avaliou adultos com lesão cerebral usando porta-retratos digitais e fotografias em sessões de memória com familiares.>
O estudo, conduzido por Abigail Harding, observou que as imagens serviram como ponto de partida para conversas, estimularam lembranças e melhoraram a conexão entre pacientes e parentes durante a reabilitação.>
Entre os cinco participantes avaliados, quatro apresentaram melhora em duas ou mais perguntas de memória. Os avanços mais expressivos apareceram em memória de trabalho, lembrança autobiográfica e recordação tardia.>
Antônio Gaudério, nome profissional de Antônio Carlos Matos dos Santos, nasceu em Ijuí, no Rio Grande do Sul, em 1958. Entrou na Folha de S.Paulo em 1989 e se tornou referência no fotojornalismo de denúncia.>
Sua câmera acompanhou temas que atravessam a história recente do país, como prostituição infantil, trabalho infantil, devastação da Amazônia, fome, migração e exploração de mão de obra boliviana em confecções de São Paulo.>
Entre os reconhecimentos, está o Prêmio Vladimir Herzog de 1993, com o trabalho “Crise na saúde”. Depois vieram menções honrosas no mesmo prêmio por “Privatização da Embraer”, em 1995, e “Infância roubada”, em 1998.>
“Infância roubada” é uma das séries que melhor resume o olhar de Gaudério. A obra expôs crianças submetidas a situações de abandono, pobreza e trabalho precoce, sem transformar a dor em espetáculo.>
Outro trabalho central na carreira é “O preço de um vestido”, também identificado como “17 horas de trabalho por casa e comida”. Para a reportagem, Gaudério foi à Bolívia, entrou no mercado têxtil brasileiro e registrou a exploração de imigrantes em oficinas de costura. Esse trabalho venceu o Grande Prêmio Folha de Jornalismo de 2007.>
Quando perguntado sobre suas fotos preferidas, Gaudério não escolheu uma imagem isolada. Ele respondeu que as melhores foram aquelas que ajudaram a mudar a realidade das pessoas retratadas e contribuíram para melhorar o mundo.>
A trajetória foi interrompida em 2008, quando um acidente doméstico provocou perda de memória. >