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Agência Correio
Luiz Dias
Publicado em 5 de abril de 2026 às 07:00
A escrita cuneiforme foi usada por diferentes povos do Oriente Próximo ao longo de milênios. Um dos idiomas mais importantes nesse universo é o acadiano, uma língua semítica sem falantes vivos, registrada em tabletes que atravessaram guerras, erosão e séculos de esquecimento.>
As 10 Pragas do Egito
Segundo estudo publicado na PNAS Nexus, modelos de tradução automática já conseguem converter textos em acadiano para o inglês com qualidade suficiente para uma primeira leitura.>
Em vez de começar cada peça do zero, o pesquisador recebe uma base de trabalho com a qual trabalhar. O processo então encurta etapas, ajuda a separar sinais em palavras e acelera a triagem de acervos enormes, hoje espalhados por museus, universidades e bibliotecas digitais.>
Porém, existem limites claros na tecnologia; por exemplo, trechos longos, quebrados ou muito ambíguos ainda exigem revisão pesada. A própria pesquisa trata a ferramenta como parceria entre máquina e especialista, não como veredito automático sobre o passado.>
Na prática, a IA ajuda a:>
Após passar por essa barreira linguística, mesmo que parcialmente, as informações reveladas vão além de escritos governamentais, contas e inventários. Dentre os achados estão textos do cotidiano dos cidadãos mesopotâmicos, com desafios que poderiam ser de qualquer pessoa do século XXI.>
Um caso famoso é a carta de Nanni a Ea-nasir. Nela, o autor reclama da qualidade do cobre recebido e da demora numa nova entrega. O tom é seco, direto e reconhecível para qualquer pessoa que já cobrou um fornecedor.>
Esse tipo de material ajuda a demonstrar como a história não foi feita apenas de grandes reis e conquistadores, cujos registros dos escribas tendem a sobreviver ao tempo. Também ficaram registros de mercadorias, pagamentos, deslocamentos e tarefas diárias, uma papelada que mostra como a burocracia já moldava a vida urbana há milênios.>
Enquanto o estudo da PNAS Nexus auxiliava na tradução direta de textos legíveis, a IA auxiliava o acesso a textos que há alguns anos jamais cogitaríamos conseguir acessar: textos presentes em pergaminhos incinerados, mais próximos de um pedaço de carvão do que de um rolo de pergaminho.>
Os artefatos sobreviventes são frágeis demais para serem desenrolados, e dessa forma a tecnologia teve que dar um jeito de "desenrolá-los" virtualmente. A primeira etapa foi feita com a coleta de radiografias 3D dos artefatos que futuramente seriam submetidos à inteligência artificial.>
Com as radiografias em seu sistema, os softwares de IA desenvolvidos para essa tarefa começaram a analisar padrões cromatográficos nos perfis de tinta das páginas, literalmente detectando letra por letra: um trabalho apenas possível por meio de leitura computacional intensa.>
O pergaminho recuperado continha textos filosóficos sobre as fontes do prazer que se acredita serem escritos por Filodemo, um filósofo epicurista que viveu por volta de 40 A.C., e sua recuperação foi o tópico principal de um estudo publicado no PLOS em 2019.>
O avanço mais promissor não está apenas na tradução de um tablete ou pergaminho isolado. Ele está na possibilidade de abrir acervos inteiros, comparar versões do mesmo texto, reconstruir lacunas e tornar esse conteúdo legível para mais gente, dentro e fora da academia.>
Outro efeito importante é cultural. Ao ampliar o acesso a textos cuneiformes, a IA pode mudar a forma como o público enxerga a Mesopotâmia, região que ainda desperta perguntas históricas, como mostra a discussão sobre os Jardins Suspensos da Babilônia, cercados por tradição, dúvida arqueológica e interpretações rivais.>
Tendo em vista que a arqueologia e a história são ciências que se baseiam na leitura de fragmentos disponíveis, assim como ler um quebra-cabeça. Nesse cenário, a IA surge como uma oportunidade de encontrar novos capítulos perdidos da história e possibilita uma leitura mais precisa do passado.>