Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 14 de maio de 2026 às 11:11
Doar o corpo à ciência costuma ser visto como um último gesto de generosidade. Mas o caso de Doris Stauffer, nos Estados Unidos, mostra como essa decisão pode virar um trauma de toda uma vida em alguns casos. >
A família autorizou o uso do corpo para pesquisa médica, com esperança de ajudar estudos sobre Alzheimer. Porém, anos depois, eles descobriram que o corpo não estava em um laboratório médico, mas que ele foi vendido para o Exército dos EUA e destroçado em testes com explosivos.>
Jim Stauffer
O filho de Doris, Jim Stauffer, cuidou da mãe durante um quadro agressivo de demência até a morte dela aos 74 anos. Após a sua morte, em um gesto altruísta, Jim doou o corpo para o Centro de Recursos Biológicos (BRC) do Arizona.>
Apesar dos desejos da família, o destino do cadáver não foi como o esperado. Segundo documentos analisados pela Reuters, a empresa separou uma das mãos de Doris para cremação e enviou o restante do corpo a um projeto militar financiado com dinheiro público. O objetivo era medir danos causados por explosões.>
O corpo foi vendido por US$ 5.893 e enviado para um teste militar, apesar de a família ter rejeitado esse tipo de uso no formulário de consentimento.>
Lisa Stauffer
disse a filha de Doris, em entrevista à ReutersA doação de corpos para ciência não funciona como a doação de órgãos para transplante. São processos diferentes, com finalidades diferentes e regras que variam muito conforme o país, a instituição e o tipo de pesquisa.>
Nos Estados Unidos, a investigação mostrou uma lacuna importante no mercado de intermediários que recebem corpos doados para pesquisa ou educação. A venda de órgãos para transplante é rigidamente regulada, mas o comércio de corpos para pesquisa tinha pouca fiscalização.>
Jim Stauffer entrou como um dos autores em uma ação civil contra o Biological Resource Center e seu dono, Stephen Gore. A ação reuniu mais de 20 famílias e acusava a empresa de fraude e engano no uso de corpos doados para pesquisa.>
A principal decisão do processo veio em 2019. Um júri do condado de Maricopa, no Arizona, decidiu a favor de 10 dos 21 autores e fixou indenização de US$ 58 milhões, sendo US$ 8 milhões por danos compensatórios e US$ 50 milhões por danos punitivos.>
O valor em questão foi alvo de novas ações posteriormente à decisão de 2019. O Tribunal de Apelações do Arizona registrou que a condenação original era de US$ 58,5 milhões, com US$ 8,5 milhões em danos compensatórios e US$ 50 milhões em danos punitivos. A corte anulou a redução feita em primeira instância e mandou restabelecer a sentença original.>
Não se sabe quanto desse montante do valor conquistado no processo foi direcionado para a família Stauffer.>
Apesar de este ser um caso excepcional, a doação de corpos para estudos é essencial para a medicina e diversos outros setores. Através deles, os pesquisadores podem utilizar a anatomia humana real para treinar cirurgias, novos médicos e até como determinados efeitos impactam o corpo humano, como é o caso da pesquisa militar.>
Os resultados dessas pesquisas se transformam em benefícios para toda a sociedade, como era o objetivo original dos Stauffer. O mesmo também se aplica à doação de órgãos.>