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Maior comunidade de chimpanzés do mundo foi destruída por guerra civil que deixou dezenas de animais mortos

Grupo foi observado por mais de três décadas e as conclusões foram documentadas em estudo recente de 2026

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 3 de junho de 2026 às 15:15

Pesquisa comprovou violência deliberada e emprego da brutalidade como arma de dissuasão em comunidades símias
Pesquisa comprovou violência deliberada e emprego da brutalidade como arma de dissuasão em comunidades símias Crédito: Emilio Sánchez Hernández / Pexels

Maior comunidade de chimpanzés do planeta, com centenas de membros, foi afetada por uma sangrenta “guerra civil” que matou dezenas de animais. Grupo vive na reserva em Ngogo, no Parque Nacional de Kibale, em Uganda.

Pesquisadores acompanharam o andamento dessa civilização por mais de três décadas, desde 1995. Durante a maior parte desse período, os chimpanzés viveram em paz, mas isso mudou quando eles começaram a formar facções e empreender um conflito.

Chimpanzés são grandes símios, não macacos; como outros símios, eles não têm cauda por Hans Hillewaert / Wikimedia Commons

O que foi observado

A divisão começou a ficar clara em 2015, quando dois blocos passaram a se afastar. Eles foram chamados pelos pesquisadores de grupo Western e grupo Central, nomes ligados aos territórios ocupados por cada “facção”.

Antes da ruptura, os animais desses blocos se encontravam, caçavam, se limpavam, cruzavam e até cooperavam em conflitos contra grupos externos. Essa convivência mudou de forma gradual até virar separação territorial.

Em 2018, a divisão foi dada como completa. O grupo Western possuía 83 chimpanzés, enquanto o Central estava com 107. A partir daí, antigos companheiros passaram a se tratar como rivais.

Guerra sangrenta

Entre 2018 e 2024, os pesquisadores documentaram 24 baixas associadas ao conflito entre os dois grupos. A violência partiu principalmente dos Western contra integrantes do grupo Central.

A maioria da violência letal foi direcionada contra os filhotes, com cerca de 17 deles perecendo de ataques da facção rival. Além deles, sete machos adultos também foram vitimados, uma contagem alta de mais de 20 baixas em um período de seis anos.

Impressionantemente, nenhum dos ataques foi realizado contra desconhecidos. Em todos os casos, os animais tinham vinculos comprovados entre si antes da divisão do grupo
Impressionantemente, nenhum dos ataques foi realizado contra desconhecidos. Em todos os casos, os animais tinham vinculos comprovados entre si antes da divisão do grupo Crédito: Emilio Sánchez Hernández / Pexels

Por que?

Os pesquisadores não apontam uma causa única para a ruptura. A principal hipótese é o tamanho do grupo; com o aumento do número de integrantes, as disputas por comida e território se tornaram mais frequentes e, subsequentemente, violentas.

Em várias espécies de primatas, a separação em grupos menores reduz esse tipo de pressão e reorganiza as relações sociais
Em várias espécies de primatas, a separação em grupos menores reduz esse tipo de pressão e reorganiza as relações sociais Crédito: Diego F. Parra / Pexels

No caso de Ngogo, o tamanho da comunidade chamou atenção desde o início. Com quase 200 indivíduos, o grupo tinha uma dimensão rara para chimpanzés selvagens, o que pode ter dificultado a manutenção dos vínculos internos.

Outro ponto importante foi a mudança na hierarquia dos machos. A liderança e a posição social são decisivas entre chimpanzés, especialmente porque os machos adultos formam alianças para patrulhar território, caçar e disputar poder.

O estudo também destaca que alguns machos adultos morreram antes da ruptura. Esses indivíduos podem ter funcionado como pontes sociais, mantendo contato entre chimpanzés de diferentes blocos da comunidade.

Com a perda dessas pontes, os encontros ficaram mais raros. A distância social cresceu até que os antigos companheiros passaram a se reconhecer mais como membros de grupos diferentes do que como parte da mesma comunidade.

A identidade do novo grupo passou a pesar mais do que relações antigas de cooperação, parentesco ou convivência. Para os pesquisadores, esse é um dos pontos mais relevantes do estudo.

Brutalidade na raça

Apesar de parecer incomum, a história da primatologia mostra que a brutalidade observada em Ngogo não é um caso isolado.

Nos anos 1970, Jane Goodall acompanhou a chamada Guerra dos Quatro Anos, em Gombe, na Tanzânia. O conflito envolveu os grupos Kasakela e Kahama, formados após a divisão de uma mesma comunidade.

Segundo relatos do Instituto Jane Goodall, todos os sete machos Kahama foram atacados e deixados para morrer. Três fêmeas adultas também foram mortas.

O que mais chocou Goodall foi o fato de atacantes e vítimas terem convivido antes da separação. Mesma tendência notada no estudo recente
O que mais chocou Goodall foi o fato de atacantes e vítimas terem convivido antes da separação. Mesma tendência notada no estudo recente Crédito: Jelle Jacobs

No mesmo período, outro episódio marcou a pesquisadora. Passion e Pom, mãe e filha, passaram a atacar fêmeas com filhotes recém-nascidos dentro da própria comunidade de Gombe.

As duas tomavam os filhotes das mães, matavam e comiam os bebês. Goodall relatou que elas podem ter matado todos os dez filhotes nascidos em um intervalo de dois anos.

Tags:

Animais Silvestres Ciência