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Mais letal que Chernobyl: quando a presença humana se mostrou mais perigosa do que o apocalipse natural

Estudos avaliaram a volta da vida selvagem para as áreas de exclusão de Chernobyl e Fukushima, bem como até onde a ausência humana contribuiu com esse retorno

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 8 de junho de 2026 às 13:25

Dezenas de espécies de animais prosperam nas zonas de exclusões radioativas dos desastres
Dezenas de espécies de animais prosperam nas zonas de exclusões radioativas dos desastres Crédito: Станіслав ГУМЕНЮК / Wikimedia Commons

Chernobyl e Fukushima entraram para a história como dois dos maiores acidentes nucleares já registrados. Décadas depois, as áreas esvaziadas por humanos também passaram a revelar uma transformação inesperada: a volta de animais selvagens.

Em 2025, um estudo massivo intitulado “O impacto humano global na biodiversidade” revisou quase três mil artigos para quantificar a interferência humana no meio natural, e as zonas de exclusão citadas acima aparecem como exemplos importantes desse resultado.

Após o acidente de 1986, parte da zona de exclusão de Chernobyl passou por renaturalização intensa e, em 2016, a Ucrânia criou a Reserva Radioecológica da Biosfera de Chornobyl, a RRCB por ArticCynda / Wikimedia Commons

Vida selvagem em Fukushima

Ocorrida em 2011, a zona de evacuação de Fukushima é um dos casos mais recentes a serem explorados. A cidade japonesa passa por um repovoamento gradual, porém ainda há zonas vazias, ao menos de humanos.

Um estudo publicado em 2020 instalou câmeras em áreas evacuadas e registrou mais de 267 mil imagens de animais selvagens.

As câmeras flagraram mais de 20 espécies, incluindo javalis, macacos-japoneses, lebres, faisões, raposas e cães-guaxinim. O resultado mostrou que muitos animais continuaram usando a paisagem, mesmo em regiões afetadas pelo acidente.

O javali virou um dos símbolos desse processo. Sem tanta presença humana, a espécie encontrou alimento, abrigo e menos perseguição. Ao mesmo tempo, ela também se tornou um desafio para áreas em processo de retorno da população
O javali virou um dos símbolos desse processo. Sem tanta presença humana, a espécie encontrou alimento, abrigo e menos perseguição. Ao mesmo tempo, ela também se tornou um desafio para áreas em processo de retorno da população Crédito: Urasimaru / Wikimedia Commons

Um estudo de 2022 analisou 221 amostras de músculo de javalis capturados dentro e ao redor da zona de difícil retorno. Os resultados apontaram maior presença de césio-137, um isótopo radiotivo usado na usina, nos animais dessas áreas.

Ou seja: a fauna voltou, mas ainda existem sequelas deixadas pelo acidente nuclear. Apesar disso, a vida ainda consegue encontrar uma maneira de flroescer, não porque o ambiente deixou de ser contaminado. Ela voltou porque a pressão humana diminuiu.

Florescer na Ucrânia devastada

Chernobyl tem uma base de estudos mais longa, já que o acidente aconteceu quase 25 anos antes de Fukushima. A antiga cidade de Pripyat e seu entorno passaram por uma renaturalização intensa, com vegetação tomando prédios, ruas e áreas abertas.

Em 2016, a Ucrânia criou a Reserva Radioecológica da Biosfera de Chornobyl, dentro da antiga zona de exclusão. A área consolidou um território onde a pesquisa científica e a conservação passaram a conviver com o legado da contaminação.

Criada em 2016, ela cobre cerca de 2.273 km² dos 2.600 km² da antiga zona de exclusão ucraniana
Criada em 2016, ela cobre cerca de 2.273 km² dos 2.600 km² da antiga zona de exclusão ucraniana Crédito: Jorge Franganillo / Wikimedia Commons

Um censo de 2015 observou mais de 60 espécies de mamíferos, com destaque especial para a população de grandes mamíferos.

Animais em risco de extinção, como os cavalo-de-przewalski, encontraram em Chernobyl um novo lar
Animais em risco de extinção, como os cavalo-de-przewalski, encontraram em Chernobyl um novo lar Crédito: Dana Sacchetti / IAEA / Wikimedia Commons

A radiação não parece ser um impedimento para o florescimento da vida selvagem. Dados do mesmo censo apontam que as populações de grandes mamíferos — como alces, corças, javalis e cavalos — já apresentam números semelhantes aos de outras reservas não-radioativas. Enquanto a população de lobos é quase sete vezes maior que o normal.

A vida encontra um jeito

Dr. Ian Malcolm

citação clássica do filme Jurassic Park

Animais podem se adaptar à radiação?

Algumas espécies parecem lidar melhor com ambientes contaminados do que outras. Em Chernobyl, pesquisadores observaram pererecas-arborícolas-orientais com coloração mais escura em áreas afetadas pelo acidente.

Um estudo publicado em 2022 investigou essa mudança em machos da espécie Hyla orientalis. A hipótese é que a melanina ajude a reduzir danos celulares ligados à radiação ionizante.

Espécimes comuns de Hyla orientalis
Espécimes comuns de Hyla orientalis Crédito: Omid Mozaffari / Wikimedia Commons

Adaptações ainda mais extremas são encontradas nos fungos melanizados. Um estudo publicado na PLOS ONE em 2007 descobriu algumas espécies de fungos que começaram a utilizar a radiação ionizante como parte do seu metabolismo.

Essa descoberta ficou famosa como radiossíntese. Um processo que possui análogos com a fotossíntese, em que a radiação é utilizada como "combustível" nos processos internos do organismo destes fungos.

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Chernobyl Ucrânia Rússia Japão Meio Ambiente Usina Biologia