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Mulher gravou a televisão por 400 mil horas durante 33 anos para evitar que a verdade fosse manipulada no futuro

O acervo completo produzido por Marion tem 71.716 fitas, gravadas entre 4 de novembro de 1979 e 14 de dezembro de 2012

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 28 de maio de 2026 às 11:11

Acervo colossal é uma espécie de manifesto pessoal em nome da verdade
Acervo colossal é uma espécie de manifesto pessoal em nome da verdade Crédito: Reprodução / Imagem Tratada

Era 1979, uma produtora de TV chamada Marion Stokes assistia à TV durante a crise dos reféns no Irã. Reservada, metódica e desconfiada, a mulher tomou para si uma missão inusitada: gravar toda a televisão americana para evitar que a verdade fosse manipulada no futuro.

Marion passou mais de 33 anos gravando a televisão dos Estados Unidos sem parar. O resultado foi um acervo de 71.716 fitas, hoje visto como uma das coleções mais curiosas sobre mídia, memória e verdade.

Registro do acervo por Screenshot / Internet Archive

Vigia da mídia

A ideia central de Marion era simples: se alguém guardasse a transmissão original, ficaria mais difícil apagar versões, distorcer falas ou reescrever acontecimentos. Então, se alguém um dia tentasse distorcer a verdade, ela teria em mãos uma prova viva da história.

Ela não gravava apenas o que parecia importante no momento. Ao registrar tudo, inclusive intervalos e programas comuns, Marion ajudou a registrar todo o clima cultural de várias décadas. Muitas vezes, a história mora nesses detalhes.

Registro do acervo
Apesar de parecerem banais, comerciais e anúncios também são ótimas ferramentas para observar o zeitgeist, termo alemão para definir o "o espírito da época" ou "o espírito do tempo". Crédito: Screenshot / Internet Archive

Legado na internet

Atualmente, o acervo de Marion está sob guarda do Internet Archive. A instituição recebeu a coleção depois da morte dela e afirma que trabalha para digitalizar e disponibilizar o material online, de graça e de forma permanente.

Assim como Marion, o site Internet Archive tem como objetivo “acesso universal a todo o conhecimento”. Ele é uma gigantesca biblioteca virtual com milhões de conteúdos culturais e históricos
Assim como Marion, o site Internet Archive tem como objetivo “acesso universal a todo o conhecimento”. Ele é uma gigantesca biblioteca virtual com milhões de conteúdos culturais e históricos Crédito: Beatrice Murch / Wikimedia Commons

O acervo completo produzido por Marion tem 71.716 fitas, gravadas entre 4 de novembro de 1979 e 14 de dezembro de 2012. O material ainda não parece estar totalmente digitalizado e aberto ao público.

Já existem trechos acessíveis no Archive.org. Um exemplo é um lote publicado em dezembro de 2024 com mais de 300 horas de amostras de fitas da coleção, todas de 1984. Esse conjunto inclui debate presidencial, telejornais, comerciais, programas de negócios e entrevistas.

A digitalização preserva o aspecto original das fitas. O Internet Archive informa que, além da compressão para formatos como WMV e MP4, os vídeos não passaram por filtragem ou restauração visual profunda, com o objetivo de mantê-los autênticos.

Quem foi Marion Stokes

Marion Marguerite Butler Stokes nasceu em 25 de novembro de 1929 na Filadélfia, nos Estados Unidos. Ela se formou na Philadelphia High School para Garotas e depois trabalhou como bibliotecária na Free Library of Philadelphia.

Antes de virar símbolo da preservação da TV, Marion atuou em causas sociais e no movimento pelos direitos civis. Na década de 1960, foi coprodutora do programa de TV "Input", exibido na Filadélfia entre 1967 e 1969.

Ela morreu em 14 de dezembro de 2012, aos 83 anos, em sua casa na região de Rittenhouse Square, na Filadélfia. Segundo o jornal The Philadelphia Inquirer, a causa da morte foi uma doença pulmonar.

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Televisão Internet Histórias Curiosas Fake News