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Músicas podem gerar vício e abstinência e algumas são até banidas por agirem como doping em competições esportivas

Pessoas podem utilizar as músicas como ferramentas para diversos fins, inclusive aumento de performance esportiva e muleta emocional

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 13 de maio de 2026 às 15:15

Apesar de saudável na maioria dos casos, alguns exigem atenção por razão de serem danosos para o usuário
Apesar de saudável na maioria dos casos, alguns exigem atenção por razão de serem danosos para o usuário Crédito: Vladislav Anchuk / Pexels

Independentemente do seu gosto musical, a maioria das pessoas ouve música diariamente, seja nos fones de ouvido ou no alto-falante em casa. Porém, você sabia que esse ato aparentemente inocente pode guardar semelhanças com o vício e que algumas pessoas podem até sentir algo próximo de abstinência de música?

Alguns manuais médicos chegam a incluir a música como transtorno específico, e algumas ligas esportivas banem seu uso de forma análoga ao doping. Apesar de não parecer, a música pode ter mais semelhanças com as drogas do que imaginamos em um primeiro momento.

Melodia e dopamina

Um dos estudos mais citados sobre o tema foi publicado na Nature Neuroscience. A pesquisa mostrou que músicas capazes de provocar arrepios ativam a liberação de dopamina, substância ligada à recompensa e à motivação.

O sistema dopaminérgico é o principal afetado em situações de vício, seja em substâncias químicas ou em comportamentos, como vício em jogos ou pornografia
O sistema dopaminérgico é o principal afetado em situações de vício, seja em substâncias químicas ou em comportamentos, como vício em jogos ou pornografia Crédito: Mikhail Nilov / Pexels

Embora seja muitas vezes chamada de “hormônio da recompensa”, a dopamina atua principalmente como neurotransmissor no cérebro. Ela não está ligada apenas ao prazer em si, mas também à motivação e à expectativa por uma experiência prazerosa.

No caso da música, isso significa que o cérebro não reage somente ao momento mais emocionante da canção. Ele também responde à espera por esse instante, como a chegada de um refrão, uma virada melódica ou um trecho que o ouvinte já conhece.

Segundo o estudo, a antecipação do prazer musical envolveu mais o caudado, uma região associada à expectativa e à previsão de recompensa. Já o pico emocional da música ativou mais o núcleo accumbens, área ligada à sensação de prazer
Segundo o estudo, a antecipação do prazer musical envolveu mais o caudado, uma região associada à expectativa e à previsão de recompensa. Já o pico emocional da música ativou mais o núcleo accumbens, área ligada à sensação de prazer Crédito: Genesis12 / Wikimedia Commons

Linha tênue do hábito ao vício

Ela não é classificada como transtorno específico, mas pode se tornar problemática quando há perda de controle, prioridade excessiva e prejuízos na rotina. Essa categorização aparece na Organização Mundial da Saúde (OMS) em relação a outros comportamentos disfuncionais, como o vício em videogames.

O hábito de ouvir canções por diversas horas ao dia não caracteriza imediatamente um vício. Porém, existem casos extremos em que essa atividade pode entrar em conflito com outras tarefas cotidianas ou mesmo atrapalhar processos fisiológicos, como o sono.

A abstinência de música não é uma síndrome médica reconhecida, mas pode gerar desconforto em quem usa canções para regular humor, foco ou ansiedade. A falta desse estímulo pode causar irritação, inquietação, tédio intenso e queda de motivação.

Um estudo publicado na Psychology of Music observou que pessoas privadas de música por alguns dias tiveram mais estresse e pior percepção de bem-estar. O efeito ocorre porque o cérebro perde uma ferramenta usada para prazer, distração e controle emocional.

Além do que foi citado acima, a música pode ser usada como um isolante social em alguns casos, como o de pessoas que tendem à reclusão devido a transtornos específicos. Esse hábito pode atrapalhar o tratamento dessas síndromes.

Muleta emocional

Outro ponto psicológico que exige atenção é a forma como as músicas podem servir de refúgio para emoções negativas. Uma pesquisa publicada na Frontiers in Human Neuroscience analisou como pacientes adotavam estratégias adaptativas problemáticas por meio da música.

A pesquisa apontou que usar música para descarregar sentimentos ruins pode gerar, em alguns casos, um quadro semelhante à ruminação. Esse comportamento aparece quando o paciente não consegue lidar nem elaborar essas emoções de maneira saudável e continua revivendo esse estado em um ciclo autodestrutivo, usando a música como catalisador.

“Ruminar” vem do ato dos animais ruminantes de regurgitar e remastigar o alimento para absorver ao máximo seus nutrientes. No caso psicológico, porém, o paciente apenas amplia a absorção da negatividade dos próprios problemas
“Ruminar” vem do ato dos animais ruminantes de regurgitar e remastigar o alimento para absorver ao máximo seus nutrientes. No caso psicológico, porém, o paciente apenas amplia a absorção da negatividade dos próprios problemas Crédito: Mustafa Akın / Pexels

Isso é diferente de ouvir uma música triste para chorar e se recompor. Porém, se for observado que o alinhamento entre o estado mental do paciente e seu gosto musical tende a se repetir, profissionais podem recomendar uma mudança de hábito para tratar o transtorno.

Por que alguns esportes proíbem música?

Segundo uma meta-análise que revisou 139 estudos, a música apresenta um efeito ergogênico. Ou seja, ela é capaz de aprimorar o desempenho físico, manter o ritmo ao longo da atividade e aumentar a motivação em pontos-chave.

Ao sincronizar batidas com as pedaladas e reativar emoções específicas no praticante, as melodias funcionam como um estímulo psicológico. Ao mesmo tempo, a música desvia parte da atenção da dor e da fadiga.

A World Athletics trata rádios, celulares e aparelhos de áudio como possível assistência não permitida em competições. A regra busca evitar vantagem externa, uso indevido de tecnologia e interferência na igualdade entre atletas.

Nos EUA, a USATF restringe fones para atletas que disputam prêmios, medalhas ou dinheiro. Já o IRONMAN proíbe dispositivos de áudio em toda a prova por questões de segurança, distração e risco de comunicação externa.

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Música Esporte Saúde Drogas Vício Ciência Saúde Mental