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Helena Merencio
Agência Correio
Publicado em 16 de maio de 2026 às 15:15
Dormir pouco não mexe apenas com o humor, a energia ou a concentração no dia seguinte. A privação de sono também pode interferir em circuitos específicos do cérebro ligados à memória, segundo um estudo da Escola de Medicina Yong Loo Lin, da Universidade Nacional de Singapura. >
Publicada em 10 de fevereiro na revista Neuropsychopharmacology, a pesquisa analisou como a falta de sono afeta o hipocampo, estrutura essencial para a aprendizagem e a formação de memórias. O trabalho também indicou que a cafeína conseguiu reverter parte dessas alterações em laboratório.>
Café
O foco dos cientistas foi a região conhecida como CA2, associada à memória social. É essa capacidade que ajuda o cérebro a reconhecer outros indivíduos e registrar interações.>
Durante o estudo, os pesquisadores induziram cinco horas de privação de sono em laboratório. Depois, observaram o impacto desse período sem descanso na comunicação entre neurônios da área CA2.>
Os resultados mostraram que a falta de sono prejudicou a troca de sinais nessa região do hipocampo. Com isso, o cérebro teve mais dificuldade para fortalecer conexões importantes para a memória.>
Esse efeito não ficou restrito ao nível molecular. No comportamento, os animais privados de sono também apresentaram dificuldade para reconhecer outros indivíduos, um sinal de alteração na memória social.>
A descoberta reforça a ideia de que dormir mal não provoca apenas cansaço. Em determinadas condições, a privação pode atingir áreas específicas do cérebro envolvidas em funções cognitivas importantes.>
Cafeina melhora o sono?
Após a privação de sono, os cientistas administraram cafeína por sete dias. A substância foi associada à recuperação da atividade cerebral na área afetada.>
Segundo os pesquisadores, a cafeína restaurou a plasticidade sináptica, mecanismo que permite ao cérebro ajustar suas conexões a partir das experiências. Esse processo é considerado essencial para a aprendizagem e a formação de memórias.>
Um ponto importante do estudo é que o efeito foi direcionado. A cafeína não apareceu apenas como um estimulante geral do cérebro. Ela atuou no circuito prejudicado pela falta de sono.>
Nos animais que não passaram por privação de sono, os pesquisadores não observaram sinais de hiperestimulação. Isso indica que a ação da cafeína ocorreu principalmente onde havia prejuízo provocado pela ausência de descanso.>
A explicação apontada pelos cientistas envolve a adenosina, substância que se acumula no cérebro durante o período de vigília e reduz a atividade neural.>
Segundo os pesquisadores, a cafeína age ao bloquear receptores de adenosina. Essa ação pode ajudar a restaurar o funcionamento de circuitos afetados pela falta de sono.>
“A privação de sono não apenas causa cansaço. Ela interfere seletivamente em importantes circuitos de memória. Descobrimos que a cafeína pode reverter essas interrupções tanto em nível molecular quanto comportamental”, afirmou Lik-Wei Wong, primeiro autor do estudo, em comunicado.>
Para Sreedharan Sajikumar, professor que liderou a pesquisa, os resultados ajudam a entender melhor a ligação entre sono e memória social.>
“A região CA2 funciona como um ponto de conexão entre o sono e a memória social. Compreender esse mecanismo pode orientar novas estratégias para preservar o desempenho cognitivo”, afirmou.>
A pesquisa aponta que os efeitos da falta de sono podem ser mais específicos do que parecem. Em vez de afetar o cérebro de forma uniforme, a privação interfere em circuitos determinados, como a área CA2 do hipocampo.>
Ainda que os resultados indiquem um papel relevante da cafeína no experimento, o estudo foi conduzido em laboratório. Por isso, a principal conclusão está na compreensão do mecanismo cerebral envolvido, não em uma recomendação simples de substituir sono por café.>
O achado ajuda a mostrar por que noites maldormidas podem comprometer funções ligadas à memória e por que o descanso segue sendo uma peça central para o desempenho cognitivo.>